Gravity é um thriller de ficção científica, centrado à volta da luta pela sobrevivência de dois astronautas: a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock), uma engenheira médica, na sua primeira missão espacial, e Matt Kowalski (George Clooney), um astronauta veterano, com uma franca dose de charme descomprometido. Após a sua nave ser destruída por destroços de um satélite russo, os dois ficam sozinhos, no meio do vazio e do silêncio do Espaço, sem comunicações com a base, sem maneira de serem salvos e com o oxigénio quase a acabar. O pior dos cenários possíveis está instalado e os dois têm que se aventurar de forma a poderem regressar a casa.

A premissa inicial desde logo capta-nos a curiosidade. E, felizmente, consegue-se dar uma reposta que, embora o seu fundamento científico já tenha merecido alguns reparos, soa credível e, acima de tudo, possibilita um filme super envolvente e com uma atmosfera tensa e (paradoxalmente) claustrofóbica. Em toda a sua extensão, o Espaço nunca pareceu tão aterrador e desolador como aqui é apresentado.

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Aliado a uma boa noção de suspense, Gravity é, sem margem para dúvidas, o trabalho mais bem conseguido de Alfonso Cuarón. Estamos perante uma autêntica masterclass de realização. Não é de admirar que o filme esteja ainda a ocupar o primeiro lugar da bilheteira norte-americana e percebe-se o porquê de ter sido tão adorado pela crítica especializada. É um daqueles raros casos em que o hype é totalmente justificado

A começar, tecnicamente, o filme está magnânimo. A combinação de imagem real, com efeitos especiais CGI (efeitos gerados por computador) e uma animação super realista, traz-nos uma visão do espaço lindíssima e com um resultado fulminante, comparável a 2001: Odisseia no Espaço. As cenas de gravidade zero, com os destroços das naves a flutuarem, com os personagens principais a levitarem, quase sem controlo nenhum sobre os seus corpos, são hipnotizantes. É uma experiência super imersiva, só interrompida pelos momentos em que a tensão aumenta.

Acresce que o 3D aqui está muito bem trabalhado. Não se sente que o preço do bilhete esteja a ser inflacionado. Ver o filme com os óculos 3D faz-nos sentir que estamos bem no meio do espaço em que decorre o filme. Quase que tocamos nas estrelas e quase que podemos sentir a respiração das personagens principais. É nestas alturas que se deseja poder ver Gravity num IMAX.

Os créditos têm também que ser dados a Emmanuel Lubezki, que traz uma cinematografia inovadora, única e magnânima. A câmara do filme acompanha a acção de forma natural, respeitando sempre a continuidade entre as cenas. De destacar a forma como os planos entram como num estado de metamorfose autêntica. Se, num momento, estamos a ver a destruição que cerca a personagem de Sandra Bullock, a seguir vemos a câmara, de forma subtil, a aproximar-se para um close-up, e entrando no fato espacial dela, como se as barreiras físicas fossem inexistentes.

 

Apesar de não assentar num guião muito sólido, com personagens sem grande caracterização, o elenco faz um trabalho incrível de exploração das suas personagens.Sandra Bullock, uma actriz com um registo de trabalhos muito inconstante, consegue criar empatia connosco, através do sentido de insegurança, de medo e de desespero que transmite. Torna-se bastante redentor quando, face a situação, pouco a pouco, a personagem começa a aprender a encarar a situação e a conseguir dar a volta por cima.

Já George Clooney, o eterno galã de Hollywood, conta com um dos desempenhos mais cativantes de sempre. Ao mesmo tempo que é dos papéis mais curtos que já teve, (pouco mais de vinte minutos) é também um dos mais cativantes que desempenhou. Kowalski é realista, sem ser pessimista, com uma personalidade irreverentemente inspiradora. Deixa-nos estupefactos com a naturalidade com que aceita e lida com os problemas que os dois vão encontrando. Clooney arrisca-se a ser nomeado, pelo menos, ao Óscar de Melhor Actor Secundário.

Cuáron já deixava saudades. O cineasta, que assinou o excelente Y Tu Mama También, o melhor título da saga Harry Potter – O Prisioneiro de Azkaban – e o distópico Os Filhos do Homem, não conta com uma extensa filmografia, mas sabe como se fazem filmes marcantes. Com Gravity, encontramos aquele que vai ser, muito provavelmente, um marco do género de ficção científica. Se Kubrick ainda fosse vivo, encontraria aqui uma lição ou duas desta fita.