Originalmente colocado à venda no dia 13 de setembro de 1993, e depois de muita polémica envolvida entre os produtores e de se ter afirmado que o álbum não iria seguir o sucesso de Nevermind ou que não seria “comercialmente viável”, a verdade é que In Utero estreou no primeiro lugar da tabela de álbuns da Billboard 200, e foi certificado cinco vezes platina pela Recording Industry Association of America.

Este álbum realmentemostra uma faceta diferente que os Nirvana revelaram comparativamente com Nevermind, é um regresso às origens e um afastamento do rótulo de “meninos da MTV”. Mais cru e duro, In Utero transmite as perspetivas negativas e pesadas de Cobain sobre sua vida pessoal e a fama de sua banda. Inicialmente intitulado de I Hate Myself and I Want to Die, o álbum é uma previsão do que iria acontecer 8 meses depois e que deixou a vida do álbum a meio do seu período de “validade”. Mas o tempo fez dele um clássico alternativo dos anos 90.

 

O álbum começa com “Serve TheServants”, uma música cantada e tocada com uma certa ira (algo que se verificar no início com a guitarra “barulhenta” e o tom irritado deKurt durante toda a música) sobre temas como o seu envolvimento com Courtneylove, os media apelidados de “Self-appointed judges” e o divórcio doloroso dos seus pais «As my bones grew they did hurt /They hurt really bad/ I tried hard to have a father/ But instead I had a Dad».

Mais à frente, é apresentada “Heart-shaped box”, uma música que nos fala sobre amor, com um início calmo,mas que, ao longo dos seus quatro minutos vai explodindo. Esta é certamente uma das canções mais marcantes do álbum, seja a nível de letra ou a nível melódico.

Seguidamente, surge “Rape Me”, que nas palavras de Kurt a canção é sobre uma espécie de justiça poética, tendo sido composta como se fosse uma resposta de uma vítima de violação. Tal como “Heart-shaped box”, “Rape me” começa num tom baixo, e ao longo da música, Cobain vai libertando a sua raiva. Esta é uma das músicas mais polémicas da banda, mas definitivamente genial, contendo uma mensagem extremamente crua, forte e irónica.

“Dumb” e “Milk it” são duas músicas que podemos relacionar. Ambas falam de drogas: “Dumb” é o lado positivo (se é que existe) e “Milk it” o lado negativo. Enquanto a primeira é uma música calma (até se utilizam de violinos no refrão) e em que Kurt afirma-se burro, mas feliz (quando está sob o efeito de droga), a segunda já mostra o lado agressivo característico da banda e a palavra suicídio é já utilizada. São, portanto, duas músicas contraditórias, contudo lógicas.

Depois de “Milk It”, chega-nos “Pennyroyal Tea”: uma canção sobre tomar uma decisão difícil, as difíceis alternativas envolvidas e a culpa que se segue à decisão. Mais uma bela canção e uma das melhores deste álbum, que fala sobre o aborto, mas sem deixar pró ou contra, apenas deixa claro que qualquer uma destas decisões afetam.

 

O primeiro (de três) disco desta reedição encerraao som de “All Apologies (Steve Albini mix)”, que oferece um ponto de fuga, no limite, depois de um percurso tenso e corrosivo.

O segundo disco conta com remixes das músicas originais (um tanto desnecessários, porque se existe o original e é bom, para quê estar a modificar? Com certeza que nenhum fã dos Nirvana vai passar a ouvir estas versões), b-sides e demos – destaque para o demo de “Marigold”, que é surpreendente pela qualidade de som,“Sappy”, e ainda o inédito “Forgotten Tune”, que terminado podia ter feito imenso sucesso.

Por fim, a acompanhar a compilação, foi incluído um CD de Live&Loud (e na versão superdeluxe também temos direito a DVD), realizado no final de 1993, a poucos meses do suicídio de Cobain.

Tal como era há vinte anos atrás, In Utero é álbum marcante, tanto para os da geração dos anos 90, ou a gerações posteriores, que se perguntam o porquê de já não haver ninguém que faça musica tão poderosa e sincera como os Nirvana outrora fizeram.