Criticar o desempenho de um político, insultar uma equipa de futebol são atividades que qualquer pessoa já fez. Seja em conversas de café ou nas redes sociais. A liberdade de expressão é um direito universal. Mas pode um jornalista opinar sobre o último discurso de um ministro, festejar o golo da sua equipa ou seguir certos empresários nas redes sociais? Poder, pode. Mas será que deve fazê-lo?

Um jornalista é um cidadão como os outros com direito à liberdade de expressão. Mas, por questões éticas, a profissão obriga os profissionais a preservar comportamentos de imparcialidade.

Então, seguindo esta ideia, um jornalista não pode votar. Esta ação é contra a imparcialidade pedida. Um repórter não pode ver um jogo de futebol no estádio, excetuando se for em horário de trabalho.

Estes comportamentos adquirem maior destaque e contornos negativos quando os comentários de café passam a ser comentários nas redes sociais. Pode um jornalista recorrer ao estatuto de cidadão se identificar a sua profissão e onde a exerce no Twitter? Se insultar um deputado no Facebook, pode justificar que a conversa é privada?

Várias confusões entre os planos pessoais e profissionais – por exemplo, Paulo Dentinho, jornalista da RTP, criticou Christine Lagard, do FMI – aceleraram o debate sobre a ética jornalística.

Diário de Notícias, Expresso, SIC e TVI discutem os primeiros códigos de conduta para regular a atividade dos seus jornalistas nas redes sociais. Os meios de comunicação nacionais seguem assim os modelos de New York Times, The Guardian e Washington Post, que nos últimos anos criaram códigos de conduta para os seus jornalistas.

O debate em torno da criação destes códigos de conduta prende-se com a necessidade de preservar e defender a imagem dos meios de comunicação e a credibilidade dos seus profissionais. Nenhum canal televisivo quer ser conhecido por não ter uma redação unida – caso de Rui Araújo, jornalista da TVI, que pode ser alvo de processo disciplinar, depois de insultar Judite Sousa.

Qualquer cidadão deve ter cuidado com o que publica e comenta nas redes sociais. Contudo, os jornalistas precisam de ter ainda mais cuidado. Estes profissionais não só carregam a sua imagem como a do meio de comunicação em que trabalham. A liberdade “precisa” de ser limitada para que a aparência de imparcialidade continue. Festejar um golo do Benfica numa rede social, não. Mas, congratular a equipa lisboeta pelo bom jogo num jornal de futebol “imparcial”, sim.