Mr. Robot é a serie que trouxe de volta uma sensação que desconhecia desde Prison Break, com uma classificação de 9 estrelas no IMBD e com uma pontuação do público média de 94% no Rotten Tomatoes. É invulgar haver um episódio piloto que deixe o público completamente “vidrado” nos primeiros minutos, crie expetativas e as cumpra ao longo da temporada. No entanto, em Mr. Robot, o enredo e as personagens são de tamanha complexidade que a única opção é desmarcar as próximas 10 horas da nossa agenda e entrar em modo maratona.

A série centra-se na vida de Elliot, um jovem engenheiro que trabalha numa empresa de segurança cibernética (Allsafe) e que faz uso das horas vagas e das suas capacidades de ‘hacking’ para desmascarar maridos infiéis, fornecedores de pornografia infantil, entre outros. Elliot nutre uma intensa antipatia pelo maior cliente de Allsafe, uma corporação que personifica os maiores defeitos do capitalismo. Sendo assim, quando é abordado por um hacker anárquico para se juntar a ele num plano que visa destruir a base de dados de E Corp, liquidando as dívidas de todos os devedores, dá-se a escolha que inicia um dos melhores enredos vistos em séries televisivas nos últimos tempos.

A atuação de Rami Malek como alguém que sofre de depressão, ansiedade, paranóia, alucinações e toxicodependência oferece-nos uma introspetiva num mundo pouco explorado, através da forma como cada um destes fatores deturpa a linha entre o real e o imaginário, fazendo-nos sentir tão sob o efeito de estupefacientes como a personagem. Não estamos perante uma personalidade identificável e consequentemente previsível. Pelo contrário, é difícil compreender ou concordar com Elliot, possivelmente porque nem ele mesmo se compreende.

O universo de Mr. Robot é por si só já frígido: todas as personagens mostram o seu lado negro, e as suas histórias trazem mais densidade ao enredo. Tanto a relação de Tyrrel Wellick com a sua esposa como a desintoxicação de Elliot ou a libertação de Fernando Vera, são momentos que, apesar de desviados do drama principal, fazem o espectador sentir-se mais integrado, informado e tornam o drama mais realista.

Um projecto deste nível tem claramente o suporte de uma excelente equipa técnica. O ambiente escuro, urbano e corporativo, as indumentárias simples das personagens, o foco nas expressões faciais através de ‘’close-ups’’ e ainda uma rebeldia nas normas de composição de imagem, através da descentralização e outras desobediências às regras da visualidade complementam a divergência de Mr. Robot em relação a tudo o que é convencional.960

A equipa técnica conta ainda com Mac Quayle, galardoado com um Emmy pelo seu trabalho com ‘’American Horror Story: Freak Show’’, que criou grande parte da banda sonora da série, que é deveras extraordinária. Marcada pelo instrumental, apresenta um toque de ironia, usando notas que remetem para sons alegres em momentos pesados, mas conjugadas de uma forma que acaba por marcar todo o ambiente de uma cena, acabando por ter tanto peso como o diálogo.

O final da temporada deixou tudo em aberto. Esmail, escritor, director e produtor de Mr. Robot, quando perguntado, numa entrevista para ‘For the Win’, sobre qual o rumo que a série iria tomar, apenas salientou o facto de que ‘’Elliot tem vindo a fazer decisões, das quais não tem noção.’’ A segunda temporada está agendada para Janeiro. Até lá não há livros que nos valham nem formas forma de satisfazer a curiosidade. Apenas nos resta aguardar.