Seth MacFarlane traz-nos “No One Ever Tells You”, e com ele toda a magia e tristeza dos blues, provando, mais uma vez, que é muito mais do que o “mero” criador de vozes e séries pelo qual é conhecido.

O álbum é composto todo ele por canções românticas e tristes, e arrasta-nos para toda uma melancolia característica do tempo frio de Inverno, embelezada pela voz de barítono imensa de MacFarlane. Para isto, também contribui em larga medida a grande orquestra sinfónica, que o acompanha ao longo de todo o álbum.

Custa-nos acreditar que o criador de “Family Guy” e dos filmes “Ted” e “Ted 2”, ricos em humor satírico, possa ter uma voz tão profunda e forte. E não é arriscado, de todo, dizer que se aproxima cada vez mais do inigualável Frank Sinatra. Está mesmo ao nível de um jovem Tony Bennett. As músicas são, aliás, adaptações do artista às canções românticas de Sinatra.

Assim que começamos a ouvir os violinos, os contrabaixos e as trompas no singleNo One Ever Tells You”, pensamos imediatamente na neve a cair em Chicago, nos blues, levando-nos a toda esta irresistível atmosfera. Eis que entra então MacFarlane, para nos entristecer da forma mais bonita que pode haver.

Não há que negar que a orquestra desempenha um papel fulcral, ao criar corpo e dinâmica às músicas. As cordas são brilhantes na introdução de cada música, e o clarinete em “Goodbye Little Dream Goodbye” é excepcional. Aqui entra a mão de Joel McNeely, produtor e compositor nomeado para vários Grammy’s, que já colaborou com Seth MacFarlane aquando do seu álbum de estreia em 2011, também ele nomeado para um Grammy.

E a verdade é que a química entre os dois revelou-se brilhante. O álbum carrega em si uma história: Seth MacFarlane chega às notas de tenor, à Sinatra (mais uma vez), em “The One I Love Belongs To Somebody Else”, e a partir daí, temos um ritmo quase natalício, mas mais soturno e azul.

Talvez aqui possamos apontar um senão no álbum. Não há um renascer perceptível, não há um crescendo. Naturalmente que sendo um álbum triste e “heartbreaking”, não podemos esperar um ritmo de jazz dos anos 20. O piano, esse sim, assume um papel preponderante no final no álbum, e isso é rejuvenescedor, especialmente em “Spring Will Be A Little Late This Year”, que soa a um genuíno clássico natalício. Mas esta alegria no meio da escuridão, associada aquele amor perdido, chega tarde.

No geral, posso afirmar que Seth MacFarlane tem potencial para ser o próximo pioneiro dos blues, tal como se declarou que poderia ser Peter Cincotti, e depois Michael Bublé (já o mostrara, aliás, ao actuar nas “BBC Proms” deste ano). Mas MacFarlane mostra que sabe distinguir-se dos demais, pois dado o sucesso de “Family Guy” e “Ted”, podemos esperar com bastante convicção que a sua música, em momento algum cómica, não enveredará por um som mais comercial – o lucro está garantido noutros lados.

Recomendo seriamente este álbum. E peço-vos que o ouçam com auscultadores com um bom baixo, no conforto do sofá, para sentirem ainda melhor os sons que tornam este álbum tão especial.