Quem escreve fá-lo por alguma razão; por vaidade, para ganhar a vida, para difundir uma mensagem, entre outras. Tolstói escrevia para se aliviar do peso da condição social, incompatível com aquilo em que acreditava.

Nascido no seio de uma família aristocrática do séc. XIX, Tolstói debateu-se na sua vida adulta com a profunda contradição entre o estilo de vida que a sua condição lhe proporcionava e aquilo em que acreditava. Profundamente religioso, Tolstói afastou-se da igreja ortodoxa e acabou por se tornar num anarquista religioso, um pacifista que inspirou outros, como Gandhie e Martin Luther King. O escritor de “Guerra e Paz” foi fortemente influenciado pela obra de Henry George, “Progress and Poverty” (1879), onde este defendia que cada um devia dispor da riqueza que criava, mas que a terra e os recursos naturais deviam ser propriedade da comunidade.

Toda a escrita é autobiográfica, na medida em que a mão que escreve é a mesma que acariciou, que afastou, que segurou ou que disse adeus. Mas em Tolstói é mais do que isso. O Príncipe Bezukhov, de “Guerra e Paz”, ou o Píncipe Nekhlyudov, de “Ressurreição” são o próprio Tolstói. As fortunas herdadas, as rendas provenientes do trabalho dos mujiques, a experiência da guerra, o confronto com modelos de sociedade mais justos, e a angústia de uma vida em antítese com a consciência.

Fonte: revistacult.uol.com.br/

Fonte: revistacult.uol.com.br/

Em “Ressurreição” há uma criada seduzida que engravida e é rejeitada pelas senhoras da casa onde servia. Grávida, sozinha e sem meios financeiros, Maslova embarca numa vida dissoluta. Esta personagem é central na obra, não podemos desliga-la da experiência pessoal do escritor, que na juventude engravidou uma camponesa. No livro o sedutor é o Príncipe Nekhlyudov que, mais tarde, acaba por encontrar Maslova num tribunal, acusada de um crime que não havia cometido. Um forte sentimento de culpa, não só por ter seduzido Maslova e a ter conduzido a uma vida de depravação, mas principalmente por fazer parte de uma classe de privilegiados, de um sistema destinado a perpetuar a pobreza e a miséria, assalta o príncipe. A “Ressurreição” retrata um sistema decadente, assente na relação promiscua entre igreja ortodoxa e o estado.

Maslova é condenada e enviada para a Sibéria, Nekhlyudov propõe-se segui-la e casar com ela. A viagem é também uma viagem interior, em que ficamos a conhecer a luta moral do personagem, confrontado com um mundo abjecto, em que seres humanos vivem acorrentados a um destino do qual não têm hipótese de fugir. Por momentos acreditamos que tudo vai acabar bem, que Maslova e o Príncipe vão casar. No meio de tanta miséria afinal há uma saída que nos deixará reconciliados com a vida, certos que, há sempre uma réstia de esperança pela qual vale a pena lutar.

Nas últimas páginas, já na Sibéria, Nekhliudov visita o governador. São apenas alguns parágrafos que podem passar despercebidos, mas, quando a redenção parecia alcançada, eis que o Príncipe se encontra numa sala, “ saboreando uma poltrona macia, no meio de gente carinhosa e bem-educada”, a ouvir Beethoven, “num estado de contentamento consigo, como se só agora ficasse a saber que boa pessoa ele era”. Percorrido todo o caminho, Nekhliudov continuava a encontrar a sua verdadeira natureza nos salões da aristocracia russa, ainda que se sentisse melhor.

A “Ressurreição” é o melodrama que inspira todos os outros depois dele, directa ou indirectamente. O último dos romances do mestre russo é o melhor para entrar na sua obra, as personagens são menos densas e a acção não é tantas vezes interrompida por reflexões pessoais.