Luis Lagadouro

Ricardo Simões, diretor artístico do Teatro do Noroeste – CDV. Fortografia: Luis Lagadouro

“Anjo Branco” é o nome da peça de teatro que pretende homenagear o navio-hospital Gil Eannes e que conta com a participação de 60 atores amadores, segundo o diretor artístico do Teatro do Noroeste, Ricardo Simões. Em entrevista, o diretor artístico confessa que “o processo de pesquisa e de criação deste projeto cénico contemporâneo ainda está a ser feito”, mas a proposta é “ambiciosa”. “Anjo Branco” pretende ser “uma celebração do património imaterial e também material” de Portugal e tem como pano de fundo a obra do médico psiquiatra e dramaturgo Bernardo Santareno.

ComUM: “Anjo Branco” é uma peça de teatro que representa uma homenagem ao navio-hospital Gil Eannes. Como surgiu este projeto?

Ricardo Simões: Neste projeto, participam cerca de 60 pessoas, que frequentam as oficinas de teatro do projeto “Comunidade” do Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana (CDV). Este espetáculo comunitário conta com a encenação de Graeme Pulleyn, um encenador inglês radicado em Portugal, há muitos anos, e que está a dirigir os ensaios desde outubro de 2015.

O “Anjo Branco” é uma peça inspirada no navio-hospital Gil Eannes, que se encontra ancorado em Viana do Castelo há 18 anos. Este navio-hospital tem a particularidade de ter acolhido, durante dois anos, o médico psiquiatra e dramaturgo Bernardo Santareno [antigo médico psiquiatra no navio Gil Eannes, considerado um dos mais importantes dramaturgos portugueses do século XX], que se inspirou muito na faina do bacalhau para a criação das suas peças de teatro.

ComUM: Como é que decorreu o processo criativo desta peça?

Ricardo Simões: O processo de pesquisa e de criação deste projeto cénico contemporâneo ainda está a ser feito. É uma proposta extremamente ambiciosa do ponto de vista performativo, pois os atores, que não são atores [profissionais], irão dar vida a uma série de personagens, o que vai ser conseguido através da música, do teatro e da fisicalidade da dança. As pessoas irão dar vida a um espetáculo que se quer que seja uma celebração do património imaterial e também material, no sentido de se passar num espaço emblemático, no navio-hospital Gil Eannes.

ComUM: A que é que se deve o título “Anjo Branco”?

Ricardo Simões: “Anjo Branco” é uma metáfora inspirada no próprio universo da pesca do bacalhau, pois a frota bacalhoeira portuguesa era conhecida, durante a Segunda Guerra Mundial, pela cor branca dos seus navios, sendo mesmo designada por “Frota Branca”. Isto para que os navios, no caso de serem detetados através de um submarino, fossem facilmente identificados como navios bacalhoeiros e não como navios de guerra. O navio-hospital Gil Eannes era também um navio branco, que trazia muito conforto às tripulações da pesca do bacalhau. Isto é, quando o navio aparecia, trazia correio, mantimentos, combustível, assistência medica e, portanto, era conhecido com “Anjo Branco”.

ComUM: Quem é que irá fazer parte do elenco da peça?

Ricardo Simões: Atores que vão desde os 13 anos até aos 84 anos de idade.

ComUM: Como é que têm decorrido os ensaios?

Ricardo Simões: Os ensaios têm decorrido com enorme entusiasmo e com uma enorme expectativa por parte da equipa do Teatro do Noroeste – CDV e desta comunidade de mais de 60 pessoas que está semanalmente a alimentar o sonho de construção de um espetáculo, num navio que é nosso, da cidade, e que é deles, num ambiente fantástico. A partilha intergeracional tem sido um fator extremamente importante.

ComUM: Enquanto diretor artístico do Teatro do Noroeste do Centro Dramático de Viana, qual é a importância deste projeto cénico?

Ricardo Simões: Para nós, que nos dedicamos à criação artística, ao teatro e fundamentalmente à formação de públicos, é uma aposta fundamental, pois desmistifica a própria prática artística, convidando as pessoas a serem mais e melhores cidadãos, a usufruírem do teatro e da fruição cultural enquanto direito constitucional.

ComUM: Para quando é que está prevista a estreia da peça e onde é que irá decorrer?

Ricardo Simões: A estreia está prevista para o dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus. Os espetáculos irão decorrer sempre a bordo do navio-hospital Gil Eannes, da parte da tarde, às 16h00. Haverá também espetáculos nos dias 28 e 29 de maio.