Os Serviços para a Garantia da Qualidade (SGAQ) da Universidade do Minho (UM) pretendem saber o que pensam os alunos, docentes e gestores pedagógicos sobre os resultados dos inquéritos de qualidade do ensino e de aprendizagem, num processo a que chamaram “feedback sobre o feedback”.

No final de cada semestre, os alunos da UM são incentivados a preencher questionários de avaliação às unidades curriculares (UC) e aos respectivos professores. Recebidos os resultados, os SGAQ compilam-nos e tornam-nos públicos. Agora, os Serviços de Qualidade querem que os alunos avaliem esses mesmos resultados. A circular VRT/GD-04/2016, emitida pela Reitoria, dá conta, em documento anexo, dos “procedimentos para obtenção de feedback sobre o feedback nos processos de avaliação do ensino”.

Os SGAQ dizem que este é “um processo inverso de difusão dos resultados da avaliação no final de cada ciclo anual, de modo a que os diversos atores envolvidos na produção/recolha de feedback e na elaboração de planos de melhoria tenham conhecimento das análises efetuadas e das consequências extraídas nos níveis de apreciação superior (feedback sobre o feedback) e possam, eles próprios, refletir sobre os referidos resultados da avaliação.” Assim, dizem os SGAQ, “torna-se necessário regulamentar o processo de difusão de resultados da avaliação, bem como promover a obtenção de feedback sobre o feedback nos processos de avaliação do ensino”.

Mas, poucas horas depois dos SGAQ terem enviado esta circular, surgiram muitas críticas. Em resposta ao e-mail dos Serviços de Qualidade, várias pessoas manifestaram o seu desagrado. Essa torrente de mensagens, com tom mais ou menos agressivo e que, através do correio electrónico institucional, chegou a toda a comunidade académica, é consentânea na opinião de que este se trata de um processo burocrático e redundante. “Peço de antemão desculpa por não produzir feedback em resposta ao feedback eventualmente suscitado por esta mensagem: tenho aulas para preparar e artigos para escrever”, lê-se num dos e-mails.

O professor catedrático Moisés de Lemos Martins, do Instituto de Ciências Sociais, foi também um dos que entrou na torrente de mensagens. O professor invoca, “de feedback em feedback”, o seu ensaio, de 2015, «A liberdade académica e os seus inimigos», que diz que “a Universidade parece hoje condenada a celebrar apenas procedimentos, que no ensino e na investigação certificam rotinas e conformidades, eficiências e utilidades, confirmando a hegemonia da razão instrumental”.

Houve mesmo quem lembrasse, a propósito desta situação, uma entrevista de Manuel Caldeira Cabral à Antena 1, em que o ex-professor da Escola de Economia e Gestão da UM se queixava da burocracia dos serviços administrativos da universidade. Nessa entrevista à rádio pública, a 15 de Novembro de 2015, o atual Ministro da Economia disse que os “custos de contexto” da Universidade do Minho “aumentaram brutalmente”. “A quantidade de documentos e de assinaturas que preciso para me pagarem uma deslocação a um júri de doutoramento ou a uma conferência (…) tornou-se um trabalho árduo que me fazia perder muito tempo”, disse Caldeira Cabral.

Contactada pelo ComUM, Isabel Santos, Gestora da Qualidade dos SGAQ, diz que este documento “nasce de uma preocupação que tem sido debatida há bastante tempo ao nível da Comissão de Acompanhamento do Sistema Interno de Garantia da Qualidade”, não havendo “nenhum procedimento que não passe pela aprovação deste órgão”. A responsável lembra que nessa comissão “estão representadas todas as unidades orgânicas de ensino e de investigação da UM” e que este é um “documento que formaliza indicações” dadas por esses representantes.

Isabel Santos diz que este procedimento é uma forma da comunidade académica dizer se os questionários que preencheram tiveram impacto prático. Confrontada com a crítica de “redundância” que os referidos e-mails veiculavam, a responsável diz: “Se é redundante ou se não é, deixo ao critério e à análise de cada um”.

A par deste processo de recolha de opiniões da comunidade académica sobre os resultados dos questionários às UCs e aos professores, as direções de curso da UM vão discutir, no início de cada ano lectivo, as melhorias alcançadas no ano letivo anterior. Na sequência dessa discussão, os diretores de curso e os representantes dos estudantes nas Comissões de Curso vão levar a cabo dinâmicas que divulguem as medidas tomadas em cada ano.