James Blake assume o papel de narrador, guiando-nos numa viagem longa, sincera e arrebatadora ao seu lugar mais pessoal e vulnerável. É tão bom quando um artista nos surpreende desta forma, e, subconscientemente, nos deixa mergulhados nas nossas próprias emoções, medos e frustrações. É algo raro de se conquistar neste mundo musical, repleto de fingimentos e de modas passageiras despidas de significado.

Fonte: standard.co.uk

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Após o álbum vencedor do Mercury Prize 2013, “Overgrown”, surge “The Colour In Anything”, lançado a 6 de Maio deste ano. É o terceiro álbum de estúdio do músico londrino que contou com a colaboração direta de Justin Vernon (mais conhecido como Bon Iver) e do músico Frank Ocean, que foi também uma grande influência para Blake.

Radio Silence” é a faixa de abertura que dá início à história que James Blake nos quer contar. Caracterizada por um ambiente escuro, harmonias simplistas que nos envolvem e melodias crescentes e repetitivas, representa a frustração de uma relação perdida (“but in my heart, there’s radio silence going on”). “Love Me In Whatever Way” retoma esta lamentação, quase como uma imploração.

A voz fantástica, cheia de soul e com o vibrato e timbre perfeitos de Blake destaca-se, mais uma vez, em “f.o.r.e.v.e.r”, uma balada ao estilo familiar do músico, e que, pela qual, os fãs de longa data agradecem, certamente. Esta faixa é marcada por um jogo de cores e tonalidades menores e maiores, e por pontuais acordes diminutos. A solo ou ao piano, com uma simplicidade vulnerável, é uma metáfora a um novo começo após todo o sofrimento do passado.

A oitava faixa, “Waves Know Shores”, transporta-nos para um local imaginário e transparente. O naipe de metais que acompanha a faixa concede-lhe romantismo e beleza. É uma declaração de amor, de esperança por parte do compositor, que escreve numa tonalidade maior para representar uma felicidade e amor emergentes (“I suggest you love like love’s no loss”). Segue-se “My Willing Heart”, peça em que Blake se mantém fiel a ele próprio e dá continuidade à declaração exposta anteriormente. Obviamente influenciado pelo gospel surge “Choose Me”. É uma faixa fantástica que vai desde o post-dubstep à eletrónica, passando pelo PBR&B e pela música experimental de John Cage (com, por exemplo, o uso pontual do auto-tune).

Nasce, então, a reconciliação com o passado e a coragem de se aceitar a si mesmo. “Noise Above Our Heads” é isso mesmo, crescimento pessoal. “The Colour In Anything”, faixa que dá nome ao álbum, é mais uma balada calma com uma harmonia imperfeita, que pode ser vista como uma metáfora à vida de Blake: não sendo perfeita, é sempre realista e transparente.

O álbum termina de forma sublime com “Meet You In The Maze”. À cappella, perfeitamente sincronizado, é uma carta aberta ao novo amor da vida de James, mais um tema muito pessoal, dando uma ideia de ciclo perfeito a “The Colour in Anything”.

Um dos pontos negativos deste trabalho é a sua duração. 76 minutos de música, 17 faixas ao todo, podem tornar-se cansativas. Isto pode dar lugar a músicas que não são propriamente más, mas que podiam ter sido deixadas de lado, como “Timeless” e “I Need A Forest Fire”, que são um pouco redundantes, repetitivas e desinteressantes. É de notar, no entanto, o interesse de Blake pela música experimental e pela exploração de sons, pelas dinâmicas e novas harmonias em “Points”, “Put That Away And Talk To Me”, “I Hope My Life – 1-800 Mix”, “Two Men Down” e “Always”.

The Colour In Anything” é um trabalho surpreendente, inovador e emotivo. Após escutar os álbuns de James Blake por ordem cronológica, a evolução dele como músico é evidente. Cada vez mais experimental, criativo e com influências diversas, James Blake é um compositor, cantor e produtor muito completo e único, que construiu à sua volta uma sonoridade própria fácil de identificar.