São 21h30 e a azáfama dentro da primeira sala à direita já se faz sentir. Afinam-se instrumentos, toca-se um pouco em jeito de aquecimento e põe-se a conversa em dia. Em breve começa mais um ensaio da Gatuna – Tuna Feminina Universitária do Minho.

Pela tuna que se formou em abril de 1993 (a segunda tuna feminina a surgir no ambiente académico do Minho), já passaram muitas pessoas, mas gatunas efetivamente consagradas serão à volta de 80. É assim que se designam as estudantes que decidem fazer parte desta “família”, como a caracterizam.

Neste ensaio de terça-feira, prepara-se o XXI Trovas, Festival Internacional de Tunas Femininas, organizado pela Gatuna. Este ano acontece no dia 22 de outubro, no Theatro Circo. A contagem decrescente está marcada num quadro de giz da sala de ensaios e tudo deve estar em ordem. Afinal de contas, é um evento que começa a ser planeado desde janeiro e que abre a época de festivais de tunas na cidade de Braga.

Desafios e responsabilidade

À semelhança de outros anos, o festival tem um tema. E o desta edição é o acontecimento a que a Gatuna se quis associar: Braga Capital Ibero-Americana da Juventude. As quatro tunas a concurso têm o desafio de trazer ao palco a música e cultura ibero-americanas. A associação de um tema ao festival permite a reinvenção, como explica Ana Pereira, diretora de comunicação da Gatuna: “Torna cada ano único. Assim não é sempre a mesma coisa, todos os anos é diferente. E também dá outro gostinho à tuna ir lá mostrar uma coisa totalmente diferente!”.

Apesar de organizar um festival com a dimensão do Trovas ser uma tarefa trabalhosa, a divisão de responsabilidades torna tudo mais fácil, conta Ana Pereira. Os principais desafios prendem-se com a questão económico-financeira, pois têm de assegurar alimentação e alojamento das tunas convidadas e outro tipo de despesas: “O Trovas é extremamente caro e nós andamos o ano todo a tentar angariar o máximo de patrocínios para conseguir suportar o Trovas, mas, de ano para ano, têm diminuído bastante”. Patrocínios esses que, além dos apoios da Universidade do Minho e da Associação Académica da Universidade do Minho, são a forma de suprirem as necessidades. Mas têm vindo a encolher, como consequência do crescente número de tunas que têm surgido.

“O Trovas é extremamente caro.”

As dificuldades financeiras são também o entrave que impede a Gatuna de fazer obras de reparação na sala de ensaios, que há dois anos sofreu uma grande inundação, danificando vários instrumentos e instalações da sala, como o teto e iluminação. Pelo mesmo motivo, já não realizam qualquer digressão há alguns anos, mas continuam a passar tempo em grupo, aquando dos retiros – fins de semana passados num local, a tocar e a conviver – que vão realizando ao longo do ano e nas participações em festivais, para os quais são convidadas.

Além da preparação do Trovas e destes momentos mais dedicados à confraternização, a Gatuna é responsável pela organização anual do Jantar do Caloiro, uma oportunidade de acolhimento e conhecimento dos grupos culturais que tentam proporcionar aos novos alunos. Também participam noutros eventos da Academia, como o 1º de dezembro, o Sarau Cultural e as festas do Enterro da Gata. Esta ligação à universidade é imprescindível, pois só alunas da Academia podem fazer parte da tuna. Há sempre uma responsabilidade acrescida porque a Gatuna “leva o nome da universidade a vários pontos do país”.

Amizade e lições

A Gatuna começou por ser um grupo de amigas que se juntava em cafés e usava os seus próprios instrumentos. Apesar das vagas noções musicais, tinham vontade de criar algo diferente e foi com esse desejo e o auxílio de elementos de outras tunas que definiram o seu estilo, que assumem como distinto. “Uma das coisas que nós, na Gatuna, sempre prezamos é termos um estilo musical que é diferente daquilo que é costume ver noutras tunas femininas. Por isso é que a Gatuna tem aquela maneira muito própria de ser. Mesmo a maneira como interagimos umas com as outras e nos comportamos nos festivais é muito diferente das outras tunas, nós somos diferentes e prezamos muito isso”, explica Ana Pereira.

Com cerca de 25 membros ativos, a hierarquia reparte-se em caloiras e gatunas, membros de pleno dever e membros de pleno direito, respetivamente. E quando é que se dá a mudança? “A passagem de caloira a gatuna depende unicamente da caloira, ou seja, é o empenho, o trabalho e o amor que tem à tuna”. Mas, como conta Ana Campos, ou “Nunes”, nome pelo qual é conhecida na tuna, ser gatuna é um marco importante: “A partir do momento em que nós passamos a membros de pleno direito, nunca perdemos esse estatuto, somos gatunas eternamente. Podemos depois estar ou não no ativo, que é comparecer aos ensaios e comparecer às atuações, mas gatunas nunca deixamos de ser. Gatuna é para a vida toda, a partir do momento em que se recebe umas meias verdes, é para o resto da vida”.

Este sentimento forte de pertença é algo comum a todas as gatunas. “A Gatuna acaba por fazer parte da nossa vida em tudo: nós não temos feriados, não temos fins de semana, a Gatuna introduz-se na nossa vida a 100%”, revela Ana Pereira. Contudo, realça que não sente que o tempo dedicado à tuna seja desperdiçado, explicando: “Quando se gosta, gosta-se a sério e entrega-se de alma e coração”. Ana Campos corrobora esta posição: “Mais do que amigas, nós consideramo-nos quase uma família. No final juntamo-nos todas para o mesmo e é isso que nos move, é um objetivo comum”.

“Quando se gosta, gosta-se a sério e entrega-se de alma e coração.”

Trabalhar para o mesmo fim gera entreajuda, o que possibilita a existência de uma regra para se pertencer à Gatuna: aprender a tocar um instrumento musical. Não é necessário saber cantar ou tocar algum instrumento para entrar na Gatuna, mas, a quem se junta ao grupo, começa a ser ensinado um instrumento, para que haja um “aproveitamento máximo de cada membro”. “Nós ensinamos tudo. Qualquer pessoa é bem-vinda, só precisa de ter empenho e gostar disto. É preciso muito trabalho, mas, se for feito de coração, qualquer pessoa consegue”, diz Ana Pereira. Maria Valada, “Muffin” na tuna, acrescenta: “A música é uma coisa que é dedicação. E não é preciso muitas horas, basta ser rigoroso e gostar”.

Ana Campos define o que é ser gatuna: “Nós costumamos dizer entre nós que, para ser gatuna, são precisas três coisas: amor, vontade e atitude”.

Possuir estas características permite, consequentemente, adquirir outras competências. O sentido de responsabilidade e organização de tempo é algo que nenhuma das meninas de meias verdes deixa de referir. Diana Lopes, ou “Ukekeisso”, ainda caloira na tuna, reconhece que o melhor ensinamento apreendido é esse mesmo: “É saber que tenho muita coisa para fazer, mas conseguir organizar-me de modo a conseguir fazer tudo e a conseguir cumprir os prazos todos e fazer as coisas minimamente bem”.

Ana Pereira relaciona estes aspetos positivos com uma imagem que crê ser desfasada da realidade: “Acho que as pessoas têm uma ideia errada das tunas: é só borga, é só bebidas, tu perdes-te, não fazes as cadeiras, as tuas notas diminuem… Eu acho que quase toda a gente que entrou na Gatuna pode dizer que é totalmente o contrário. Ganhas uma responsabilidade diferente, porque tens de aprender a organizar o teu tempo, de maneira a conseguir fazer tudo, ou seja, para estudar para aquele teste, em que tens uma atuação uns dias antes ou uns dias depois, tens de organizar o teu estudo e, ao fazê-lo, vais automaticamente obrigar-te a estudar”.

Ademais dessas capacidades, a resiliência e capacidade de iniciativa são mencionadas. Para Maria Valadas, é no ambiente de tuna que se começa a preparar ideias para o futuro: “O facto de estarmos aqui e fazermos com que isto se mexa e aconteça, torna-nos muito empreendedores e faz de nós pessoas ativas na sociedade e isso é muito bom para um emprego”. Não desistir e não optar pela forma mais fácil é um mandamento: “Isso é uma coisa que a Gatuna me ensinou: por muito difícil que seja o caminho, se calhar é o mais acertado e não desistir é uma coisa muito importante”.

“Por muito difícil que seja o caminho, se calhar é o mais acertado.”

Entre as paredes da sala de ensaios cabem prémios, estandartes, instrumentos e muitas amizades. Não é ao acaso que o companheirismo e a amizade são imediatamente referidos como o melhor que se leva da família Gatuna. “Amigas para a vida e uma grande aprendizagem” são as palavras de Ana Pereira, ao que “Nunes” acrescenta: “A pessoa que entra pela primeira vez num ensaio da Gatuna, que não sabe nada, não é a pessoa que um dia sai por aquela porta, de meias verdes. Leva-se uma lição de vida daqui”.

Fotografia: Ricardo Cardoso