Um ano depois da criação da Liga Allianz, o ComUM volta aos campos ocupados pelo futebol feminino. O que trouxe o novo formato? O regresso das melhores jogadoras portuguesas ou a bipolarização de um campeonato dominado por dois clubes?

Uma época termina, uma nova principia. O jogo da Supertaça entre SC Braga e Sporting CP abriu portas para o regresso de uma competição que apareceu no ano passado de cara lavada. A partida não marca apenas o arranque da época 2017/2018, é também um espelho do que se passou no campeonato transato.

Fomentar a prática da modalidade, criar uma liga mais competitiva e levar mais gente ao estádio foram algumas das bandeiras da reformulação da Liga Allianz em 2016. Concluída a temporada, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) acabou por colher o que plantou. Dentro das quatro linhas, o campeonato foi discutido entre dois estreantes (SC Braga e Sporting CP acabaram acima dos 70 pontos, com vantagem para o clube lisboeta) e os jogos entre as duas equipas, transmitidos por canais televisivos, bateram recordes de audiência.

A liga portuguesa, antes esquecida e a operar num regime amador/semiprofissional, serviu de palco a atletas internacionais que voltaram a Portugal para representar um dos “grandes”. Mas a verdade é que, se contarmos a história do que se passou no futebol feminino no último ano, acabamos por repetir o nome dos mesmos clubes – aqui ficam novamente: Sporting CP e SC Braga.

5 de Junho de 2015, Barcelos. A Casa Povo de Martim defronta o CAC Pontinha. Em jogo está a subida – disputada em formato liguilha – à recém-formulada Liga Allianz. A expectativa reinava em Martim e não era só consequência do jogo. No dia a seguir, o SC Braga inicia os treinos de captação para formar uma equipa que desse garantias na nova montra que a FPF criou. Na cabeça das atletas do Martim já havia quem decidisse tentar a sorte a poucos quilómetros de distância da vila de Barcelos. Um peso pesado ia entrar numa competição até à altura dispensável para graúdos. E ganhava entrada direta para a liga principal.

Meses mais tarde uma nova liga, uma nova era. A Sporting e SC Braga juntam-se outros habitués da Liga NOS, nomeadamente Belenenses e Estoril Praia – ambos com equipa a competir no Campeonato de Promoção, mas que subiram de patamar diretamente. No entanto, nestes dois casos, a estadia não foi tão proveitosa. A classificação, que agora conta com 14 equipas, deixou o conjunto canarinho precisamente a meio da tabela. No Restelo, o lugar abaixo da linha de água e o reconhecimento por parte da direcção de não se tratar de “um projeto desportivo sustentável” não deixou outra solução: um ano depois de competição ao mais alto nível, o clube fecha portas.

“Acresce que os custos significativos e as dificuldades inerentes à modalidade, desde logo o número de praticantes, o campo de recrutamento inexistente, o manifesto desequilíbrio competitivo (…)”, explicava a direcção do Belenenses em comunicado aquando da decisão. Na verdade, todas estas motivações eram panorama conhecido de quem seguia a modalidade, apenas o desequilíbrio foi acentuado se tomarmos em conta a diferença de orçamentos e décalage pontual – recorde-se que o CAC Pontinha, que disputou o acesso à liga principal com o Martim, acabou a época com zero pontos.

Dois clubes batem à porta

A FPF tentou e vem tentando equilibrar os pratos da balança. Por exemplo, na estreia do novo formato da competição os estreantes só podiam contratar duas jogadoras a cada equipa do campeonato.

Talvez pela presença dessa condicionante, aliada a uma estrutura mais robusta, SC Braga e Sporting esticassem a área de recrutamento além-fronteiras nas duas épocas de feminino. Ana Borges (Chelsea), Tatiana Pinto (Bristo), Patrícia Morais (ASPTT Albi), Solange Carvalhas (Anderlecht), Ana Leite (Bayer Leverkussen), Rita Fontemanha (Atlético de Madrid) trocaram clubes estabelecidos pelo projecto do Sporting CP. O clube, que até tem por hábito contratar a clubes nacionais, tem nos quadros para este ano a primeira jogadora americana a jogar em Portugal: Carlyn Baldwin chega do Young Boys da Suiça.

O Braga também foi lá fora, mas preferiu outro sotaque. A vizinha Galiza e o Brasil foram os alvos escolhidos, mas a política de contratações parece ter revertido para a época que agora começa. Das cinco galegas oriundas do El Olivo ficou uma (Pauleta), que faz “companhia” ás brasileiras Gabi Morais e Jana no lote de estrangeiras. No total, são dez caras novas para fazer frente às 17 saídas. Uma limpeza no balneário, colmatada com caras conhecidas do campeonato nacional.

A força dos dois clubes é notória nos campos das contratações e das convocatórias para a seleção. O Valadares foi quem ficou mais desfalcado. Seis atletas saíram no mercado de verão para os dois grandes do campeonato: cinco rumaram a Braga e a defesa Mariana Azevedo acabaria por rubricar contrato com o Sporting .

Desta forma, o futebol que a seleção portuguesa apresenta lá fora é cada vez mais nacional. Na convocatória de 5 de Setembro para o amigável com a Finlândia, 18 das 23 convocadas por Francisco Neto atuam em Portugal – duas do Estoril Praia, sete do Braga e nove do Sporting.

Os dois clubes podem ter mais “aliados” na importação de talento nacional. No início do mês de Agosto, pela altura da final da Taça de Portugal masculina, SL Benfica e Vitória SC equacionavam a hipótese de criar clube. Mas isso já não será para esta época. Para a temporada que começa já são conhecidas as jogadoras e também já se tem ideia de como as fichas estão distribuídas no relvado.

Aos 55 anos, Rosa ainda calça as luvas no Martim

Há muito que sente que é inscrita na liga para fazer número. A idade e a vontade andaram sempre de mãos dadas mesmo quando começou a sentir que já não era uma mais-valia para o futebol. Depois de passar pelo Cabreiros, Nogueirense e Esposende, chegou a vez do Martim. Não foi uma venda milionária até porque no futebol feminino nada se faz por milhões, tudo se faz por tostões.

Foi em 2002, no clube de Barcelos, que calçou as luvas pela primeira vez. Chegou com 40 anos para reforçar o ataque. A idade obrigou-a a recuar no terreno. Por ser menos cansativo, assumiu a baliza do Martim, depois de toda uma carreira como número 9. Enquanto esteve no “auge”, nunca deu entrevistas. Agora é diferente. Os média batem-lhe à porta, graças ao reconhecimento que a modalidade tem tido.

Aos 55 anos, sente as luvas como se fosse a primeira vez. A primeira vez foi lá atrás, na década de 80. Mas só desde 2015 é que começou a viver grandes experiências no futebol. Pelo segundo ano consecutivo que o sonho de Rosa “morreu na praia”. O Casa Povo de Martim, que milita no Campeonato Nacional de Promoção, disputou a fase de subida à Liga Allianz na época 2015/2016 e 2016/2017, mas “faltou uma pontinha de sorte” para atingir esse feito histórico. “Fiquei mesmo triste. Pensei que ia deixar o clube na primeira”. Esta foi a última época de uma vida ligada ao futebol. “É o último ano. A seguir a Junho deixo. Tem que se dar a vez aos jovens”. Mas se a deixarem, a ligação ao Martim continuará, nem que seja para ajudar nos treinos.

Depois de uma época em que o principal objetivo bateu no poste, a meia-final da Taça de Portugal dita um confronto com o vizinho SC Braga.  “Até nisso temos azar. Pelo menos deu para encher a casa e conseguir receitas”. Das duas mãos da eliminatória ficariam lembranças que Rosa não quer esquecer. Para a posteridade ficará o minuto 91 no Estádio 1ª de Maio. “Foi bonito. Jogar contra o SC Braga durante dois minutos com toda a gente a aplaudir, jogadoras e tudo. Já viu?”. O jogo estava perdido e decidiu pedir ao treinador para que a deixasse fazer alguns minutos. Quando ouviu o “vai lá Rosa” nem queria acreditar. A gratidão é notória em cada palavra. “Ele deixou-me ir. São estas coisas que eu levo do futebol”.

O jogo em Braga leva-a a pensar em outras coisas que já questiona desde a restruturação da liga: o fosso entre grandes e pequenos clubes. “Começam a aparecer equipas com dinheiro. Uns com tanto, outros com tão pouco”. Refere-se ao SC Braga e ao Sporting CP que vieram mudar o paradigma do futebol feminino nacional. Não duvida que agora “fala-se mais do feminino”, mas que a entrada dos dois clubes veio acentuar a diferença. “Há dois anos lutavam cinco equipas pelo campeonato. Agora lutam duas. Se eu tivesse dinheiro também fazia uma equipa para pôr o Martim na primeira, mas não há”. As únicas receitas do clube chegam dos poucos patrocinadores e do sorteio da bola em dias de jogo. A solução encontrada por Rosa para acabar com a desigualdade passa por “cortar nas ajudas aos grandes e dar mais um bocadinho aos pequenos”.

PedroGoncaloCosta_Rosa_Martim_13

Mas nem a capacidade de compra de outros clubes a leva a crer que há por aí melhores jogadoras do que as do Martim. “Temos aqui raparigas capazes de jogar na primeira divisão. Se elas jogassem num clube melhor talvez chegassem à seleção. É como tudo: se você andar num carro ‘pobrinho’ ninguém lhe passa cartão, se andar num Ferrari toda a gente gosta de si”. O dinheiro nunca foi tudo no feminino, mas assim como no masculino, “os milhões começam a aparecer”.

Recorda o Montra de Talentos, – equipa que tinha uma parceria com o AC Milão – um clube de Guimarães que “apareceu com dinheiro e que, de um dia para o outro, fechou”. Lembra-se de muita coisa, de muita gente. Afinal são 32 anos de carreira, com passagens por muitos clubes, “todos da zona”. Sente que está a chegar ao fim uma carreira que não merecerá ovações por parte do público. O “momento duro” que Rosa adiou, “não tarda em chegar”.

Aos 13 e 14 anos, Leonor e Sofia vão à bola no Vilaverdense

Os treinos começaram há cerca de três semanas. A manutenção conquistada na primeira edição da Liga Allianz foi feita com poucos recursos. Voltamos atrás. 12 de março de 2017, o Vilaverdense recebe o “Fofó” em casa. No dia seguinte, Domingos Estanislau, presidente do Futebol Benfica, realça as três jogadoras dos juniores que levaram até ao Minho, para poderem ter as 18 atletas na partida.

Não é caso único e deverá continuar a acontecer esporadicamente entre as equipas femininas, mesmo falando do escalão principal. O relatório da UEFA sobre futebol feminino entre as diversas federações mostra o estado da modalidade na Europa. Apenas seis países apresentam mais de 100.000 jogadoras, as profissionais não chegam a 1.500 e as camadas jovens ainda são poucas nas seleções nacionais. Por outro lado, entre a época 2012/2013 e a temporada passada, o número de profissionais e semiprofissionais, nas federações que pertencem à UEFA, mais que duplicou.

E Portugal acompanhou o crescimento. Em 2016/17, existiam já 61 equipas profissionais, 7.000 atletas e um orçamento da federação perto dos três milhões de euros, de acordo com os dados do relatório. A entrada em cena de patrocinadores e de clubes mais cotados na versão masculina do desporto trouxe também as jogadoras profissionais – seis de acordo com o relatório.

O convite para a Liga Allianz, a nova liga nacional, foi feito a todas as equipas do principal escalão de futebol masculino, mas só Sporting CP, SC Braga e Belenenses aceitaram (com este último a descer na época passada, num conjugar de falta de capacidade financeira e de atletas). A temporada 2018/19 pode trazer novos emblemas ao campeonato, com Benfica e Vitória SC a estarem na calha para integrar a Liga Allianz.

Mas nem todos arranjam orçamento para ter um plantel vasto ou que responda às lesões ou castigos que surgem. O Vilaverdense é um desses casos. Apesar de ter sido o “Fofó” a levar juniores ao jogo, os treinos da equipa minhota já há muito contam com “miúdas de escola”: Leonor e Sofia, de 13 e 14 anos.

Sofia veio por convite do professor de Educação Física e mantém-se entre as seniores e as juniores, mostrando-se atenta à diferença entre as equipas com maior poder financeiro, como Braga e Sporting, e as restantes. E viver do futebol não lhes foge ao pensamento porque, como diz Sofia – médio de posição -, “quem gosta de futebol quer fazer disto vida”.

Leonor joga mais ao ataque e é mesmo este o “sonho” da jogadora que recentemente renovou com o Vilaverdense. Gosta de estar entre as mais velhas – “ajuda a evoluir” – e é outra cara que vai ajudando a equipa técnica a ter um plantel mais vasto antes dos jogos.

Há mais dificuldades em recrutar mulheres que homens? Há. E Leonor é disso exemplo. Quando começou a jogar entrosava-se em equipas de rapazes – como a maioria das raparigas até a um escalão mais elevado. A oportunidade de jogar no Vilaverdense deu-lhe a possibilidade de jogar só com raparigas e nos juniores de uma equipa da primeira divisão nacional.

Até em casa se torna mais complicado explicar que o ídolo é o Messi ou a Marta, como é o caso de Leonor. A jogadora aproveitou para fazer negócio com o pai: “O meu pai no início não queria que eu entrasse porque achava que era um pouco violento, mas depois eu convenci-o”. Se tirasse boas notas entrava. Tirei, entrei”, remata de sorriso aberto.

A gravidez pode ser um problema para o futebol feminino?

Se há assunto de que muito se fala em relação ao futebol feminino é a questão biológica. E, sem falar sobre o jogo em si, há uma questão que salta à vista: a gravidez. São nove meses de gestação, licença e todo o tempo de recuperar a forma física. Contas por alto, pelo menos um ano da carreira das jogadoras é quebrado em caso de gravidez.

Se, em Portugal, os casos são poucos e com pouco destaque, a Liga Espanhola e a Liga Mexicana estiveram em foco este ano devido às cláusulas anti gravidez impostas nos contratos às jogadoras. O global nível amador das atletas não lhes dá direito a contratos tão profissionais em Portugal, mas esta é uma realidade que se pode apresentar no futuro.

Lá fora, a realidade é outra. A profissionalização do desporto feminino tem trazido notícias sobre estas cláusulas que, conta o El Mundo, atravessam basquetebol e futebol. “Vi, numa das minhas equipas, como uma rapariga muito jovem ia ser despedida. Ela foi para casa, ficou deprimida, abortou e poucos dias depois voltaram a chamá-la para oferecer-lhe um novo contrato”, lê-se no diário espanhol.

No México, o jornal La Jornada, através de uma fonte anónima, também trouxe a polémica até ao continente americano, alegando também a existência de cláusulas anti-gravidez na Liga MX Femenil.

E em Portugal? Os casos são raros – ou pelo menos desconhecidos. Para desvendar um caso em pleno Minho, é Rosa quem nos descobre uma gravidez do “seu” Martim. Isabel Silva, professora de música e com dois cursos tirados na Universidade do Minho, jogou naquele tempo em que tudo era amador.

Ainda estudava Música na Universidade do Minho quando a, agora, professora recebeu o convite para ir jogar futebol. “Na altura, tinha uma colega de Martim que jogava lá e depois o treinador foi lá a casa e convidou-me”, recorda. E assim começa a aventura de Isabel pelo futebol feminino, onde jogou sempre pelo Atlético de Martim, uma equipa “normal” como refere, que não era das melhores, mas que dava luta.

Paulo Costa

Paulo Costa

O “bichinho” pela bola existia desde criança. Os primos jogavam todos, ela não queria ficar de fora. “Então ao fim-de-semana o nosso passatempo preferido era ir para casa dos avós e jogar em família, tios e sobrinhos”, conta. Depois chegou o desporto escolar, até chegar aos cinco anos que passou no Martim, enquanto futebolista federada.

Aos 40 anos, lembra que na altura não havia contratos, nem profissionais. Engravidou e ainda jogou cerca de dois meses grávida, “sem saber”. Depois disso, não voltei a calçar as chuteiras naquele estádio onde agora quem joga é o filho de 12 anos.

Sendo a voz de quem passou por uma gravidez enquanto jogava, não se pode deixar de perguntar a opinião. E se fosse agora? “Sei que a nível profissional, e se pensarmos na parte financeira dos clubes, acredito que seja complicado para uma jogadora engravidar no pico da carreira”, atesta. “Mas uma coisa não implica a outra, porque dentro do futebol há várias coisas que podem ser feitas estando a jogadora de licença de maternidade”, defende.

Isabel Silva dá soluções: suspender contrato, ajudar nas camadas jovens, trabalhar como preparadora. No fundo, qualquer coisa que não retire o emprego a uma modalidade que se quer profissionalizar.

 Reportagem: Paulo Costa, Pedro Esteves, Pedro Gonçalo Costa e Tiago Ramalho