A primeira sequência de Get Out mostra-nos o rapto de um negro perdido nos subúrbios. Por não conseguirmos fazer a ligação imediata com as cenas seguintes, ficamos curiosos para perceber o que aconteceu.

De seguida, vemos um casal interracial, Chris (Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams), e a partir daqui, o escritor e realizador Jordan Peele apresenta um suspense muito misterioso, com uma pitada de comédia.

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Chris está inseguro por conhecer os sogros, e pergunta a Rose se ela alguma vez mencionou à família de que ele era negro. Ela defende os pais dizendo que eles não são racistas e que isso é desnecessário, afirmando que, se pudesse, o pai votaria outra vez no Obama. Neste momento percebemos que o filme retratara uma crítica social enorme: o racismo. Assim que Chris chega a casa dos sogros, Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener), é bem recebido por todos, o que nos leva a pensar que ele será aceite na família. Imediatamente, Dean fala sobre os seus pais, e destaca que o pai ficou em 2º lugar nas eliminatórias das Olimpíadas em Berlim de 1936, perdendo apenas para o negro Jesse Owens. Chris mostra saber da história dizendo que foi onde Owens venceu Hitler. Dean demonstra que pensa que a raça ariana não é assim tão perfeita quanto Hitler afirmava.

A família dá uma festa para os seus vizinhos brancos e ricos, e, ao longo do filme, vemos claras valorizações sobre a genética afro de Chris, comparando-o a Tiger Woods, e elogiando o seu físico, acariciam os seus músculos, e até perguntam a Rose se ‘’é verdade?’’ referindo-se ao desempenho sexual dos negros. Toda essa atenção acaba por ser incómoda. Ainda na festa, Chris encontra Logan, o rapaz negro da sequência inicial, e é aí que ficamos inundados de dúvidas,que causam emoções fortes.

O filme de Peele é tão bom quanto dizem por aí, consegue alternar na perfeição entre o suspense e a comédia, desperta aquele riso nervoso, e não de algo forçosamente engraçado. O realizador consegue criticar a sociedade atual americana de forma leve, mas bem direta. É um guião simples e inteligente, fácil de perceber e passa a mensagem que pretende. A história é fluída, e todos os detalhes estão interligados: só percebemos isso no fim, desde o bingo, que na verdade é um leilão, e onde o prémio é o protagonista, até ao estranho comportamento de Walter (Marcus Henderson), um dos empregados negros da casa, a correr pela noite dentro.

Film Title: Get Out

Mergulhamos assim num ambiente estranho que nos leva a suspeitar do que está a acontecer, ficamos desconfortáveis, e incomodados, com as cenas que mesclam o abuso de poder com agressão psicológica. A música e os sons escolhidos são muito bem encaixados, principalmente o simples barulho da colher na xícara de chá de Missy, provoca-nos um inquietação fora do normal. Há uma mistura de sentimentos acompanhadas por imagens e planos excelentes, onde destacam o pânico, o medo, e a angústia que sentimos nas personagens.

O elenco atua perfeitamente, desde a aflição de Chris ao encontrar-se paralisado a chorar de olhos abertos, a uma das cenas mais arrepiantes de Georgina (Betty Gabriel) em que ela ri para acalmar  Chris mas chora ao mesmo tempo dando a entender que nada está bem, dando a sensação que ela é uma simples marioneta. A atriz que interpreta Rose também consegue enganar-nos completamente ao ser a namorada carinhosa e meiga, revelando-se no fim como alguém completamente diferente. Já a mãe, Missy, adequa-se na perfeição ao papel de psiquiatra misteriosa. Dean tem um ar superior que atiça a nossa imaginação, é um médico bem-sucedido e tem orgulho disso. Jeremy (Caleb Landry Jones), o irmão de Rose, é a personagem mais espontânea, mostrando ser um pouco louco e provocador. A personagem que, aparentemente, é a menos importante acaba por ter um papel fundamental: Lil Rey Howery interpreta Rod, o melhor amigo de Chris que, desde o início, sempre tem uma piada na ponta da língua para aliviar a tensão, dizendo coisas cómicas que no fim percebemos que tudo faz sentido.

Assim, penso que a premissa do filme é espetacular. Recomendo o filme a todos, não apenas pela perfeição técnica, mas pela abordagem que faz acerca do papel social de cada um.