Termina, este fim de semana, mais uma edição dos Encontros da Imagem, a primeira depois do afastamento de Ângela Ferreira, no comando durante os últimos quatro anos. Carlos Fontes, um dos fundadores do festival e membro da atual direção, reflete sobre a celebração dos 30 anos marcada pelo regresso a ideias originais do projeto, como a valorização da fotografia portuguesa e o alargamento a outras cidades, e as novidades, entre as quais a abertura de uma galeria permanente.

Ana Maria Dinis/ComUM

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Chegar a Braga e encontrar a cultura

“O comboio vai dar entrada na linha…”, ouve-se do outro lado da parede, na gare. As portas do antigo edifício da estação ferroviária de Braga, sem qualquer atividade há alguns anos, estão abertas desde setembro. São estas instalações que albergam a galeria oficial do festival, inaugurada este sábado, que permitirá aos Encontros da Imagem (EI) viverem para lá dos “meses da imagem”, setembro e outubro. O objetivo é, explica Carlos Fontes, que no Espaço Galeria se desenvolvam iniciativas ao longo de todo o ano, como workshops, exposições, conferências e formações.

O espaço, propriedade da Câmara Municipal de Braga, ainda precisa de algumas obras. O fundador dos EI gostava que as janelas entre a estação de comboios e a galeria tivessem apenas vidro. Dessa forma “quem chegasse a Braga de comboio e fosse turista, a primeira ligação que tinha com a cidade era com uma galeria”, diz, exprimindo o desejo de que a área se transforme numa “entrada na cidade pelo lado da cultura”.

Outro dos objetivos da galeria é promover a fotografia local. “Há muita gente em Braga a fazer fotografia e é importante terem um espaço aberto e que apoie esta juventude”, defende o diretor. No Espaço Galeria, para além das três exposições internacionais, serão mostrados os trabalhos realizados em atividades do festival – o “Instameet” e a “LomoWalk”.

Ana Maria Dinis/ComUM

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Mais fotografia portuguesa, com certeza

Um dos motes desta edição dos EI foi, justamente, a valorização da fotografia nacional, algo que Carlos Fontes considera ter sido esquecido nos últimos anos. Os números provam a aposta forte na arte criada por portugueses: 10 trabalhos escolhidos por convite e dois selecionados na Open Call, a nível internacional. No Mosteiro de Tibães, o palco é exclusivamente dos artistas nacionais, com 10 trabalhos expostos, desde os retratos íntimos de David Infante à “Clepsidra” de Tânia Cadima.

Carlos Fontes vê no festival a oportunidade de alguns artistas portugueses mostrarem o seu trabalho, pois “dificilmente conseguiriam afirmar-se” de outra forma. Ao longo desta edição, foram constantes as visitas de “escolas diversas do país, sobretudo na área da fotografia e das artes”, o que já reflete uma maior aproximação aos públicos nacionais e locais.

Estado faltou à festa dos 30 anos

Nesta edição, os Encontros da Imagem não contaram, pela primeira vez em anos, com o apoio da Direção-Geral das Artes (DGArtes). A versão que veio a público, de que a candidatura para a renovação do financiamento não teria sido realizada dentro do prazo estipulado, foi prontamente desmentida por Carlos Fontes. O diretor afirma que a candidatura, apesar de submetida, não foi aceite por haver uma irregularidade em 2013, ano “em que a anterior diretora [Ângela Ferreira] não apresentou contas”.

Ana Maria Dinis/ComUM

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Com a questão “a ser resolvida em instâncias superiores”, o fundador não tem dúvidas de que o festival será novamente apoiado pela DGArtes, “até porque os Encontros têm uma capacidade bastante para serem apoiados pelo Estado”.

Curso de fotografia na UMinho? Não é para já

A boa relação entre a Universidade do Minho e os Encontros da Imagem é conhecida. Carlos Fontes destaca o papel da instituição em “criar uma dinâmica de novos públicos” com a cedência de vários espaços. “Temos exposições no Museu Nogueira da Silva, no largo do Paço, na própria biblioteca geral e também em Guimarães”, enumera.

A ideia de ir mais longe na colaboração com a universidade, com a criação de um curso superior de fotografia, é antiga, mas não parece concretizável. Pelo menos, não num futuro próximo. Carlos Fontes admite, no entanto, que se possa “inserir a fotografia no âmbito dos cursos já existentes”, como no de Arquitetura ou de Ciências da Comunicação.

“Encontros” nas cidades vizinhas

Apesar da quebra no orçamento, os Encontros da Imagem repetiram, nesta edição, uma experiência dos primeiros anos do festival: o alargamento às cidades vizinhas de Barcelos, Vila Nova de Famalicão e Guimarães. Este ano, também o Porto recebeu algumas exposições. Para a nova direção dos EI “o alargamento é fundamental para criar raízes e estruturar esta ideia da fotografia noutras cidades”, especialmente agora que estas “têm as condições físicas para que isso aconteça”.

A edição dos 30 anos, sem tema definido, marca também “uma abertura a outras expressões artísticas que vão para além da fotografia, do vídeo e das instalações”, com exposições “que entram um bocado nas artes plásticas”. Até porque, já em 1987, Carlos Fontes e os restantes fundadores consideravam a imagem “muito mais que a fotografia”.

Texto: Ana Maria Dinis e Ana Rita Martins

Vídeo: Mariana Prata e Mónica Sampaio