Júlio Magalhães pronunciou-se acerca do estado atual do jornalismo em Portugal. Do papel dos jornalistas na sociedade à solidariedade nas redações, passando por outros temas como as ameaças a que estão sujeitos e os interesses a que se subjugam, o jornalista assegura que existe jornalismo de qualidade e “as pessoas confiam na informação”.

O ComUM esteve à conversa com o atual diretor-geral do Porto Canal, na passada quinta-feira, no âmbito da conferência “O segredo de justiça e o poder da comunicação social”, realizada na Escola de Direito, da Universidade do Minho.

ComUM: Para haver pleno acesso à informação, os jornalistas devem intrometer-se e esmiuçar determinados assuntos?

Júlio Magalhães: Isso é que é investigação jornalística. É obrigação do jornalista, a partir do momento em que tem em mãos um caso que considera que deve ser denunciado, intrometer-se e esmiuçar o mais possível, tendo sempre a consciência de que não pode ir para além daquilo que é o seu código deontológico e ético. Não se pode estar a esmiuçar por vingança ou por voyeurismo, mas sim para investigar e perceber que aquele caso tem utilidade pública. A partir do momento em que um jornalista se propõe a uma investigação e tem consciência de que aquilo é interesse público, deve fazer tudo o que puder.

ComUM: É preciso ter coragem para enfrentar as fontes? 

Júlio Magalhães: No que diz respeito à coragem é mais no jogo da investigação que isso acontece. É muito difícil porque recebemos ameaças de todo lado. Com muita facilidade a família é ameaçada, a pessoa é ameaçada, sabem onde moram, sabem quem são… Uns jornalistas têm medo, outros têm muita coragem. Perdeu-se, assim, a especialização do jornalismo, enquanto antes existiam as secções de cada uma das áreas, hoje não há.

ComUM: Sente que o cargo de jornalista ou o seu trabalho estão ameaçados?

Júlio Magalhães: Hoje, os jornalistas estão mais vulneráveis e chegam a cargos de direção mais facilmente. Por serem vulneráveis também são sujeitos a pressões, sobretudo da própria administração. Assim, deixam de ser companheiros da redação para serem parceiros da administração porque sabem que vão ter um prémio que é serem líderes ou chefes de qualquer órgão de comunicação social. Isso acontece em muitas áreas e no jornalismo também.

ComUM: Considera que há uma má imagem dos jornalistas?

Júlio Magalhães: Não. Não há uma ideia má do jornalismo, há uma generalização do jornalismo. Fazemos boa informação em Portugal. Olhamos para os telejornais e vemos que são bons telejornais, as pessoas confiam na informação. Estes são os programas mais vistos da televisão, portanto as pessoas querem estar informadas. O que acontece é que há variadíssimos canais de televisão sobre informação e nem todos são bons. Uns diferenciam-se numas coisas, outros noutras e o telespectador tem a oportunidade de escolher aquilo que acredita ser melhor. Há canais para todos os gostos mas as pessoas consideram que são todos iguais e isso não é verdade.

ComUM:Para além de interesses públicos o jornalismo serve também interesses privados?

Júlio Magalhães: Claro. O jornalista e os órgãos de comunicação social estão nas mãos de grandes grupos económicos e são condicionados por isso. Isto é uma luta permanente. O jornalismo e os órgãos de comunicação social tentam manter independência mas estão sujeitos a um novo perfil dos órgãos de comunicação que estão nas mãos de grandes grupos económicos. Temos de ser rentáveis e isso torna a nossa atividade mais difícil. Não perdermos independência por causa disso, podemos é omitirmo-nos ou demitirmo-nos de alguma coisa que queiramos fazer. Essa decisão parte do jornalista.

ComUM: Como é que uma redação reage, perante o jornalista, a uma notícia alvo de manipulação por parte da fonte?

Júlio Magalhães: Reage mal. Não perde a solidariedade pelo próprio se souber que ele fez um grande esforço. Nas redações, quando alguém está a investigar alguma coisa, é dever do jornalista partilhar com os colegas aquilo que está a fazer, dando-lhes a conhecer os diferentes passos do processo. Um jornalista que não ouve ninguém e está convicto que só ele é que tem a razão, depois tem de arcar com responsabilidade do que acontecer. Quando, pelo contrário, a investigação só vai para o ar quando o jornalista ouviu opiniões de colegas e todos disseram para avançar, o jornalista terá a solidariedade dos colegas. Não podemos ser individualistas. Para termos sucesso temos de ser solidários, partilhar.

Daniela Soares e Márcia Arcipreste