Diving é a evolução natural do som dos Grandfather’s House. O segundo álbum dos bracarenses deriva num tom mais gótico e obscuro do que o predecessor e apresenta um resultado muito mais denso.

Tiago da Cunha © Grandfather's House

Tiago da Cunha

Os Grandfather’s House não são nenhuns desconhecidos na cena musical portuguesa. Skeleton, o primeiro EP da banda, saiu em 2014. Slow Move, o primeiro longa-duração, saiu em 2016. E agora, Diving é realmente um mergulho num mar pop negro, onde um grosso nevoeiro sonoro pinta todo um cenário obscuro na tela deste álbum.

O primeiro single “You Got Nothing to Lose” foi uma excelente escolha como apresentação do álbum. Notou-se, desde logo, a evolução do som Granfather’s House. A sonoridade envolvente do teclado preenche toda a base sonora por onde os outros instrumentos caminham. A voz assume a dianteira, as batidas eletrónicas vão marcando o tom e o sentimento da canção e a guitarra contida enriquece e joga muito bem com a voz.

Diving abre com a longa, envolvente e assombrosa “Nah Nah Nah”. Um verdadeiro festim de ambience tenebrosa que nos transporta diretamente para o meio da densa bruma sonora que é o segundo projeto da banda. A base é um ruído de sintetizador que traça paralelos com ondas de um oceano. Ouvimos rangeres metálicos que quase lembram um barco à deriva. A guitarra começa e logo a seguir o lendário Adolfo Luxúria Canibal, no seu tom spoken word tão característico e emblemático, diz o poema de “Nah Nah Nah”. As suas palavras tocam-nos, “Hoje tenho tanto frio”. Tudo isto contribuiu para uma atmosfera negra que paira sob Diving. Realça-se uma também uma vibe inspirado no jazz, que volta a aparecer ao longo do álbum e que é especialmente bem conseguidas nesta música de abertura ao culminar num solo de saxofone invejável. Estamos agora no mundo que os Grandfather’s House nos deu. Estamos num mar sinistro, num barco no meio do oceano – no meio da viagem que é Diving.

As colaborações deste trabalho trazem muita força às canções. Não só temos a lendária voz do vocalista dos Mão Morta emprestada na primeira canção e o saxofone de Mário Afonso a aparecer bem destacado em canções como “Nah Nah Nah” e “Nick’s Fault”, como também se acrescenta um segundo teclado por Nuno Gonçalves. Esta adição liberta Rita Sampaio de carregar todo o peso dos sintetizadores, o que acaba por se traduzir não só numa maior força da voz, mas também em teclados mais espessos e robustos que vão preenchendo todas as canções.

Hélio Carvalho/ComUM

Hélio Carvalho/ComUM

“She’s Looking Good” é um excelente exemplo destes teclados bem vincados. A quinta canção arranca com a voz que acrescenta ao som eletrónico do sintetizador e à bateria. Na primeira metade, a guitarra vai marcando presença. Estes “sinais de vida” das cordas vão-se intensificando até explodir num solo de Tiago Sampaio que funciona como o refrão da canção. Destacam-se ainda as leves paragens no som e o repentino recomeço sonoro que dão uma identidade que demarca esta faixa das demais.

Um outro ponto a realçar deste trabalho é o uso de efeitos na voz. “Drunken Tears” é uma das melhor conseguidas a este nível. A segunda música de Diving engata da aura sinistra de “Nah Nah Nah” e intensifica-se pelo efeito na voz que relembra a rádio e microfones antigos. Refiro ainda “I Hope I Won’t Die Tomorrow”. A faixa que encerra o álbum faz uso de efeitos similares na voz antes da catarse do refrão. O silenciar progressivo no final, até a voz de Rita não ser mais do que murmúrios cantados. contribui para prender o ouvinte à despedida do álbum.

Diving é um grande passo para a banda bracarense. A evolução do som dos Grandfather’s House soa bastante natural. Apesar de “Sorrow” e “In My Black Box” serem canções que não se destacam tanto, não são más. Nota-se sobretudo um amadurecimento do som do trio. Os teclados estão mais carregados, a guitarra bem presente, as batidas bem vincadas e a voz mais forte que nunca.