Decorreu na noite da passada sexta-feira o que se pode considerar ter sido uma verdadeira telenovela ecológica, em pleno Theatro Circo. “Amazónia” juntou de uma forma perspicaz o humor à crítica, especulando sobre como todos procuram lucrar com os problemas ambientais, apesar de eles estarem a agravar-se cada vez mais.

Sofia Summaville/ComUM

Sofia Summaville/ComUM

“O plano é ir para a Amazónia gravar uma telenovela ecológica. O planeta precisa, as pessoas interessam-se, é ético, é urgente, vai ter audiências”, ouve-se uma voz recitar na apresentação do espetáculo, já com as luzes desligadas. A narrativa é composta por três partes, que se interligam entre si – a história dos empreendimentos que têm vindo a ser feitos na Amazónia, uma família que quer fazer lá uma telenovela e as consequências que ela provoca.

Tudo nesta peça era “reciclado” de outras obras…incluindo as personagens, como afirmou Tânia Alves durante o espetáculo. Repetiram-se os protagonistas de outra peça da Mala Voadora – “Moçambique”, vencedora do prémio de Melhor Espetáculo da Sociedade Portuguesa de Autores. Jorge Andrade, encarregue do texto e da direção do espetáculo, foi novamente uma das personagens. Bruno Huca, Isabel Zuaa, Jani Zhao, Jorge Andrade, Marco Mendonça, Tânia Alves e Welket Bungué completaram este elenco.

O cenário é o mesmo de “Hunting Scene” (2007), de Cláudia Gaiolas e Daniel Worm, composto por árvores artificiais e uma mesa com cadeiras onde a família passou sentada durante grande parte de “Amazónia”, dialogando. Foi também a primeira vez que a companhia de espetáculos Mala Voadora utilizou uma máquina de fumo numa das suas peças. A banda sonora foi recolhida de outros espetáculos, incluindo trechos musicais criados por Rui Lima e Sérgio Martins para o “Hamlet”, que acabaram por não ter sido utilizados. A luz ficou a cargo de Rui Monteiro, que aproveitou desenhos de luz de Nuno Meira. Jogou-se com um sistema de luzes que subia e descia focos brancos e vermelhos. Juntamente com a música, ambos criavam uma certa inquietude e suspense quanto ao que poderia vir a acontecer na ação. As cenas foram inspiradas numa longa lista de outras peças e de filmes, que inclui “Apocalypse Now” de Francis Ford Coppola (1979) e o “Último Tango em Paris” de Bernardo Bertolucci (1972).

Rabos debateram com Tânia Alves sobre como se conseguiria realizar a telenovela ecológica na Amazónia. Sim, leu bem…rabos, que eram falantes e assumiram o papel de investidores, para surpresa dos espectadores do Theatro Circo. Três personagens da família aproveitaram uma mudança de cena no escuro para colocarem os seus rabos em cima duma mesa, encarnando desta forma novas personagens.

Este foi um dos vários momentos caricatos desta peça. Houve incesto, completamente inesperado, entre pai e filha. Também se falou de passar smartphones a índios americanos ou pulveriza-los com pesticidas. Índios estes que poderiam entrar em confronto com imigrantes do Bangladesh, destruindo a floresta amazónica, mas deixando a família de artistas de vanguarda endinheirada. Imaginaram-se conversas entre protestantes da Green Peace, a ONU e o Estado Islâmico.

A crítica à sociedade retratou todos os jogos disfuncionais de interesse que ocorrem diariamente nos bastidores. Como se ouviu o speaker dizer: “Amazónia… a vida tal como ela é”.