Fazia filmes desde miúdo. Em criança era assombrado por muitos demónios e por uma lista infindável de medos, que o fizeram desejar ser capaz de despertar emoções nas pessoas. Um dia infiltrou-se nos estúdios da Universal e ocupou um escritório durante seis meses, até ser descoberto e mandado embora. O documentário fala-nos de Spielberg.

Amantes de cinema saberão este nome de cor e reconhecê-lo-ão facilmente em tela, pelo modo como orquestra as imagens no ecrã. Mas outros mais leigos na área, talvez não saibam que foi este o homem por trás de títulos tão grandes e variados como “Indiana Jones”, “E.T” e “A lista de Schindler”. Os que desejam prosseguir a produção cinematográfica, têm no documentário o testemunho da vida e carreira de um dos maiores génios da área. Para os restantes, não deixa de ser uma óptima referência cultural sobre um homem que manifestou o seu sonho, percorrendo um caminho tudo menos convencional.

As mais de duas horas dirigidas por Susan Lacy intercalam brilhantemente excertos de produções de Spielberg no conto da história da sua vida pessoal, o que não poderia deixar de ser feito. Isto por estarmos a falar de um cineasta e, particularmente, de um cineasta que marca as suas obras com uma carga emotiva muito forte, que é derivada da vivência dos seus próprios demónios. Esta descarga de emoções para a arte é enviada para primeiro plano no documentário. É realçada a forma como todos os seus filmes, de alguma forma, tratam a separação e a reconciliação humana – tema que lhe é muito familiar pelo divórcio dos pais que, percebemos, afetou tremendamente a sua forma de produzir filmes.

Mais interessante ainda é conseguirmos acompanhar a evolução da carreira deste génio do cinema, com direito a comentários do mesmo acerca do que criou e de alguns dos seus maiores sucessos. Temos inclusive acesso a imagens inéditas das suas primeiras produções caseiras. Muitas pessoas são entrevistadas – as irmãs e os pais do próprio, mas também outros directores de cinema e atores de renome, como Leonardo de Caprio e Daniel Craig – no entanto, os comentários mais valiosos, continuam a vir de Spielberg ele mesmo.

Há uma vontade assumida do cineasta em mostrar-se vulnerável e de muitas das suas palavras podem ser feitos concelhos para novos entusiastas. Afirma que em set muitas das vezes não sabia o que estava a fazer, mas que nunca deixava uma só pessoa aperceber-se de tal ou perderia o respeito de todos. É o próprio que admite a incerteza e o medo que ainda o assombram antes de filmar cada cena e que é desse estado de pânico que melhor emerge o seu génio criativo.

Também não existiu relutância em abordar as críticas. Conhecido por ultrapassar sempre o orçamento e o tempo de realização dos seus filmes, os rótulos que mais lhe são atribuídos são os de “sentimentalista” e “crowd-pleasing” e há uma clara intenção do cineasta em se justificar no documentário. Acaba por fazê-lo, nomeadamente através das palavras de outros que elogiam a sua visão.

Também no meu entender, arte é emoção. Acredito que apelar às massas nunca tenha sido tanto a intenção de Spielberg como de apelar ao sentimento e, essa intenção pode servir tanto a própria arte como os valores comerciais, mas nunca prejudicará a primeira.

Em suma, “Spielberg” era precisamente o filme que faltava para imortalizar ainda mais o legado de alguém que dedicou a vida a fazer filmes. Ele não só entendeu a linguagem do cinema, como contribuiu para a sua criação e ficará para sempre na memória como um brilhante contador de estórias que transformou palavras em imagens como ninguém antes de si.