Noventa e nove por cento das séries que assistimos são faladas em inglês. Comercialmente, é mais lucrativo criar conteúdo em inglês do que em “estrangeirês”, pois o alcance que uma língua global proporciona é muito maior. Ainda assim, há quem arrisque na diversidade. Depois de produzir a série mexicana Club de Cuervos, de 2015, e a série brasileira 3%, de 2016, a Netflix aposta em Dark, uma série original alemã.

Lançada no final de 2017, Dark é uma série dramática que retrata as viagens no tempo de forma inovadora. Quem assistiu a trilogia Regresso ao Futuro ou Dr. Who, vai encontrar em Dark uma nova maneira de viajar no tempo. A série é repleta de simbologia e, em certos aspetos, de ocultismo.

Dark retrata o desaparecimento de duas crianças na cidade de Winden (Alemanha), que vai afetar a vida de três gerações de famílias que vivem na região. A série aborda o tema do entrelaçamento temporal, uma vez que passado, presente e futuro estão conectados entre si e influenciam-se mutuamente através das ações das personagens.

É impossível deixar de comparar Dark a Stranger Things. Ambas envolvem o desaparecimento de crianças, a nostalgia do passado e uma banda sonora extraordinariamente cativante. Porém, Dark é uma série muito mais adulta do que Stranger Things. Em Dark, não relembramos o passado com tanto carinho, mas de forma sombria e aterradora. No final de cada episódio, as nossas dúvidas sobre os personagens multiplicam-se, o que aumenta a ansiedade de visualizar o capítulo seguinte.

Como já referi, Dark recria as viagens no tempo. Na verdade, a maneira como as personagens se deslocam no tempo é que é inovadora. No mundo criado por Baran bo Odar e Jantje Friese, produtores da série, não existem carros que nos transportam para o passado, ou muito menos uma máquina do tempo disfarçada de cabine telefónica da década de sessenta. Em Dark, há todo um simbolismo que cresce com o avançar dos episódios.

Outro aspeto relevante é a fotografia da série. A forma complexa com que foi filmada amplifica a conexão entre o espectador e as personagens. Muitas vezes, nos momentos mais dramáticos, por exemplo, a troca de planos torna-se constante. O cuidado na caraterização dos cenários também nos ajuda a situar a ação no passado, presente ou futuro.

O elenco foi muito bem escolhido. Destaco a eleição de atores parecidos fisicamente para representar o mesmo personagem em épocas diferentes.

Viajar no tempo é um tema frequentemente adotado em séries e filmes. A diferença está na forma como o assunto é retratado. E Dark certamente se diferencia nesse aspeto. Para além disto, a série envolve outros assuntos igualmente complexos, como filosofia e ocultismo.