Este ano, cantam-se os parabéns à Gatuna. A tuna feminina comemora 25 anos, e prepara um ano inteiro de comemorações, depois de tempos mais difíceis na vida do grupo.

“Caloiras, ir buscar os instrumentos ao carro da vice-presidente!”. As vozes vão aquecendo. Pela sala clara espalham-se símbolos da presença da Gatuna, e muitos caracóis desenhados. Os bandolins afinam-se. Vai-se gozando antes do ensaio, enquanto chegam todas. “O Hélio vai sair daqui com uma página inteira de merdas que dizemos!” Riem-se. Está tudo pronto.

Soam as vozes da “Braguesa”, e o computador em cima da cadeira, verde, pois claro, ajuda. “Braga / mulher de verde no olhar / ouro no peito / voz de encantar”. Faltam acertar algumas notas, mas vai melhorando. Voa o estandarte verde garrido pela sala. A Gatuna faz 25 anos, um número redondo para uma das tunas femininas da Universidade do Minho, que será celebrado durante todo o ano.

Gatuna

Hélio Carvalho/ComUM

Uma Gatuna que se levanta

“Nós temos aí umas surpresas para os 25 anos que não posso relevar nesta entrevista!”. Marina Mendes, conhecida na Gatuna como “Loune”, é diretora de comunicação da Gatuna. Junto a ela está Maria Valada, “Muffin”. No café ao lado do Bar Académico, já fora do ensaio, ouve-se o moinho da máquina, e “Loune” e “Muffin” antecipam um ano cheio de novidades para as gatunas. Há que celebrar.

(Pode consultar a entrevista à Gatuna na íntegra aqui)

“A nossa ideia é comemorar durante os 12 meses, ou seja, um ano de comemorações, não só para a comunidade, mas também para nós”. Para Maria Valada, é importante o juntar de gerações, de uma das tunas mais emblemáticas do Minho, especialmente no universo das vozes femininas. E importante também é um aniversário de comemorações, depois de um ano bem complicado para a Gatuna.

Em fevereiro do ano passado, faleceu um dos membros mais emblemáticos da Gatuna, Susana Correia, conhecida como “Caracol”. Pelo Minho fora, em cada atuação e cada espetáculo, os grupos culturais prestaram a sua homenagem a “Caracol”, e à tuna das meias verdes. Algo que não passou indiferente a “Muffin”. “Quando as pessoas se lembravam da Gatuna, lembravam-se de uma data de pessoas, e uma delas era a ‘Caracol’. Era muito associada como uma das caras da Gatuna”.

A perda de uma das pessoas mais queridas do grupo afetou a atividade da tuna, mas o espetáculo continua, e a motivação está precisamente na sua memória. “Quando relembras a ‘Caracol’, e relembras o que ela faria pela Gatuna naquela situação, seria segurar o grupo, e que subíssemos e levássemos sempre a Gatuna para a frente”, conta a emocionada “Loune”.

Gatuna

Hélio Carvalho/ComUM

O ano passado foi, assim, um ano de reunir forças e de levantar queixos. De aclarar a garganta, respirar fundo, e pôr as mãos ao trabalho. Os caracóis espalhados pelas salas veem o ensaio. “Numa cidade de uma porta aberta / pronta a receber / vive uma alma inquieta / com vontade de ser”. A música não parou, e a Gatuna voltou a vestir as meias verdes para o seu aniversário.

Há espaço para tudo e para todos

O verde da Gatuna está bem presente na cultura académica minhota, mas não é a única cor. Outra tuna feminina, a Tun’Obebes, de Guimarães, celebra também 25 anos, e a Tun’ao Minho, bem mais nova, cresce a passos largos na sala em frente daquele corredor escuro. Escuro mas cheio de sons diferentes, e para a Gatuna, quantos mais, melhor.

“Eu acho que toda a iniciativa cultural é bem-vinda, e não devemos ser nós, os grupos mais antigos da universidade, que vão ser uma barreira a que ela não exista”. Maria Valada é directa no assunto, não há dúvida. Cultura nunca é demais. Aqui no café Gulbenkian, nome do conservatório ao lado, pede mais música. Até brinca, de forma séria, com o assunto: “nós temos um grupo de teatro, mas podíamos ter um grupo de gaitas de foles da universidade. Porque não?”. Marina completa-a. Sugere “cavaquinhos”. A aprovação é unânime.

Respondem ao mesmo tempo, com as mesmas ideias. Bebem o chá ao mesmo tempo. E há a notória concordância com outros grupos da academia: falta gente. E não é por falta de informação ou escolha. Para Valada, “as pessoas vão, experimentam, mas não se querem comprometer. ‘Olha, gostei, vocês são fixes, eu até gosto do ambiente, mas eu não me quero comprometer, isto dá trabalho’. Pronto. E isso é uma coisa que se sente”.

Há também que combater o típico estereótipo das tunas. Não o bom estereótipo, das músicas à saudade, das serenatas ao luar, e do amor deixado por onde passam. “As tunas estão sempre associadas a um estereótipo do ‘fartam-se de beber, depois é só comas alcoólicos’, e não é isso!”. Marina ri-se com a piada da colega, mas até num simples eufemismo, tem histórias para comprovar: “já houve situações até que chegamos a falar com os pais das nossas caloiras, para explicar o que é um festival”.

Assim se faz o dia-a-dia de uma tuna. Tomara ser só cantar. Com uma sala de ensaios que podia estar mais preenchida, e festas à porta, a Gatuna estendeu os braços à academia, em papel e nos nossos “feeds”.

Recentemente, por todo o campus vemos cartazes da Gatuna. Vemos a funcionária da biblioteca analisar um. E agora o Spotify já conta com o “Coisas Simples”, o CD das gatunas de 2000. Segundo “Loune”, estas são oportunidades “para mostrar à comunidade e à própria academia o nosso trabalho, e para o poder divulgar com melhor qualidade”.

Chamam as raparigas do Minho aos ensaios. À sala clara falta-lhe mais som, e há meias verdes para dar. Para já, voltam à sala de ensaios, que vem aí festa.

Haja novo sangue verde

De festivais vivem as tunas, femininas ou masculinas. O Minho está cheio deles, e é no maior da terra ao lado que encontramos a Gatuna. Vamos a Guimarães, ao XII Cidade Berço. E debaixo das arcadas do Largo da Oliveira, protegidas da chuva, estão as meias verdes a cantar nas serenatas do festival.

É um festival dos homens, certo. Mas não estão deslocadas, e fecham uma noite de serenatas passada com rosas de Viseu, e chuva. Pelo meio, estrearam uma nova música. Nova, mas na versão da Gatuna; já o público imediatamente reconhece, e canta a “Cavaleiro Andante” de Rui Veloso com as raparigas de Braga.

Margarida Pereira fica com o solo da música popular. Ser solista é uma responsabilidade e uma honra, seja em que grupo for, e Margarida (ou “RPN” como caloira da Gatuna) reconhece a oportunidade: “foi uma excelente oportunidade, ainda por cima como caloira. Se há alguma coisa que gosto mesmo muito é de cantar, e ter essa oportunidade foi espetacular para mim”.

“RPN” não é a única que está de parabéns. “Nuntouços”, “Pêssegos” e “Santa Marta” vão à frente, fazem a vénia, e mostram a nova cor no traje. Há mais verde no negro. São as novas gatunas de uma tuna que já passa das 70. “Pêssegos”, ou Jacinta Santos como consta no cartão, não esconde o sorriso e o brilho nos olhos, só de recordar o momento. “Foi muito especial passar a gatuna. Foi um momento que queria há muito tempo, e também me senti muito orgulhosa porque finalmente consegui alcançar o que sempre quis aqui na tuna”.

Na atuação, há ainda outra surpresa: Brigite, uma das fundadoras da Gatuna, sobe a palco. Demora a acertar com as notas; mas entrar nas músicas é como voltar a andar de bicicleta. Não estão a competir para nenhum prémio, isso fica para os homens esta noite, mas a diversão é notória.

Depois da luz ténue das serenatas em Guimarães, a Gatuna lá voltou para Braga. Mas não foi por muito tempo, já que uma semana depois foram ao centro, a Almada, para o festival “As Marias”.  Há muitos mais festivais onde ir, e lá vão elas espalhar a boa palavra de Braga pelo país fora. Da margem Sul, saíram com o prémio de Melhor Porta-Estandarte, e Marina Mendes recorda “uma experiência muito boa”.

O prémio já está em exibição na sala de ensaios, junto a tantos outros. Mais hão-de vir. São 25 anos sempre a somar, e apesar de tempos menos verdes, a Gatuna já prepara o seu próximo espetáculo. Falta muito, claro está, mas o Trovas não é uma festa qualquer. Já tem data marcada: 20 de outubro.

“O Trovas vai para a 23ª edição, ou seja, vamos fazer 25 anos e vamos para essa edição, foram logo dois anos depois a abrir”, diz Maria Valada. A sala é o emblemático Theatro Circo, palco da maior parte das edições. Mas até lá, mais novidades virão. Há festival no Porto dia 21 de abril, o BemMeQuer’18, preparemos as vozes para esse primeiro.

Uma casca podre para a cultura

A porta de entrada para a música académica minhota não é agradável. Imediatamente passamos pelo piso gasto, sujo e mal tratado, subimos as escadas em pedra, e entramos no corredor escuro. Das salas, à esquerda e à direita do corredor para o Bar Académico, soa a música. Mas as salas onde ela é feita há muito não estão prontas a recebê-la.

O estado das salas de ensaio dos grupos culturais é sempre tópico de conversa. Em janeiro, na tomada de posse da nova direção da Associação Recreativa e Cultural da Universidade do Minho (ARCUM), André Marcos, o novo presidente, e o reitor da Universidade do Minho, Rui Vieira de Castro, comentaram as condições. “Conheci esta sala há 43 anos. Tive aulas aqui. E é óbvio que reconhecer esta sala como estava há 43 anos não é bom sinal”, apontou o reitor.

A primeira dessas salas, à direita, é a da Gatuna. Tal como outras, o espaço não é o melhor, mas Maria Valada é otimista: “Eu acho que nós devemos ser as mais beneficiadas. Temos luz, direta”.

Apesar da degradação no corredor, Marina Mendes não sente desconforto no interior da sala. Aqui já houve mudança, e ao passar do corredor já sentimos outro ar. “Recordo-me que quando entrei para a Gatuna, a nossa salinha era toda muito escura, também não tínhamos grande luz, e as paredes eram muito cinzentas. E nós também tivemos a própria iniciativa de restaurar a nossa salinha”.

Maria completa, diz que não são as únicas a tomar a iniciativa. Tanto as salas da esquerda, dos grupos pertencentes à ARCUM, como as da direita, de restantes grupos culturais fora da associação, vão tomando conta das suas salas. O problema, segundo a gatuna, não é o interior.  “O pior de tudo nem são propriamente as salas, é o corredor, que está super degradado, não tem uma porta de vidro para não dar aquele vento frio. Não temos casas de banho… Acho que as áreas comuns estão em muito pior estado, porque os grupos acabam por as [salas] manter”.

Entretanto, a Gatuna, na sua sala branca, vai trabalhando. A sala, clara e decorada, não precisa de mudanças urgentes. Tirando talvez um aquecedor. “Nós temos uma história de um aquecedor em que cada uma deu um euro para comprarmos um aquecedor para a salinha!”, lembra Marina Mendes.

Mas antes do aquecedor, faltará à Gatuna algum calor humano. Já disseram as gatunas; e a caloira, Mariana Pereira, lembra o problema de sempre, apesar do espírito do grupo. “O espírito é muito de entreajuda. Neste momento, não somos tantas caloiras, mas como se costuma dizer, somos poucas mas boas, e conseguimos manter o ritmo. É amizade, antes de mais nada, é isso que mexe a Gatuna”.

Por Marina Mendes e Maria Valada, fica a mensagem. “Venham aos ensaios! Acho que já deu para ver que somos raparigas simpáticas!”. Recado dado. Fechamos a porta da sala. Atravessamos o corredor para o frio de Braga. Atrás de nós, continua a soar a música dos estudantes minhotos, e a Gatuna tem planos para que soe mais alto.