Em Portugal, a produção de séries é escassa em termos de originalidade. Muitas não passam de meras adaptações de produções estrangeiras. Não pretendo, com isto, pôr em causa a sua qualidade. Na verdade, algumas até são bem-sucedidas, como é o caso de “Sim, Chefe!” ou “Ministério do Tempo”. Contudo, os tempos modernos obrigam os argumentistas a inovar nas suas criações. Posto isto, Nuno Markl decidiu fazer algo diferente do habitual.

Lançada no inicio de março, 1986 é uma série original portuguesa (!) produzida pela Hop Televisão que busca relembrar os mais adultos da adolescência vivida nos anos 80 e divertir os mais novos com perspetivas de uma realidade um pouco diferente da atual.

1986 é palco da segunda volta de uma das eleições presidenciais mais intensas de sempre em Portugal, evidenciando o fanatismo vivido na época. Num lado, Mário Soares, o “Bochechas”, e do outro, Freitas do Amaral, o “Facho”. No meio disto tudo, aparece a história de Tiago, um jovem tímido, filho de Eduardo, um comunista ferrenho. O grande amor de Tiago é Marta, uma rapariga que sonha em ser astronauta, mas que por oposição de Fernando, seu pai, apoiante de Freitas do Amaral, está destinada a gerir um videoclube.

O ambiente que a série proporciona é simplesmente “contagiante”. Quem assistir 1986 sem ter experienciado a extravagante década de 80, vai sentir inveja dos mais velhos. O Portugal da altura, tal como qualquer outro país, era menos evoluído em termos tecnológicos. No entanto, a vida parecia mais fascinante. As pessoas atribuíam maior valor às coisas e divertiam-se com o pouco que tinham. As roupas que vestiam eram tendencialmente coloridas e a música que ouviam era menos artificial. Tudo parecia genuíno.

Gostei bastante do elenco da série. De facto, os atores assentam que nem uma luva nas personagens que, por sua vez, foram muito bem caraterizadas. Cada uma delas corresponde a um diferente estereótipo da sociedade retratada. Tiago é o típico “cromo” vitima de bullying; Sérgio, por sua vez, é o “metaleiro” fã de Iron Maiden; Patrícia é a “gótica” que não suporta um raio de sol a atingir-lhe a pele; e Marta e Gonçalo são os “betinhos” ricos.

Outro aspeto relevante são as inúmeras referências à época que surgem ao longo dos episódios. Os acessórios característicos dos 80s, a vulgarização das rádios piratas, a tecnologia “moderna” que encantava os mais novos e as expressões de vocabulário utilizadas nas conversas entre adolescentes são algumas delas. Os cenários também ajudam a transmitir a imagem de como as ruas e as casas eram há mais de 30 anos atrás. Por último, uma nota para a banda sonora composta por João Só, extremamente cativante e fabulosa.

Concluindo, a série está boa. Adorei a maioria dos episódios. O “piloto” não me convenceu muito, mas decidi dar uma segunda oportunidade a 1986 e não me arrependi. Está fantástica e merece certamente uma segunda temporada.