O grupo de percussão IPUM comemora duas mãos cheias no dia 25 de abril. E é com a liberdade, própria dos cravos, que se afirma um grupo cultural único e com ideias para os próximos dez anos.

“Em cada esquina, um amigo”, diz o mês de Abril. Os sons dos bombos e das gaitas fazem eco num teto, com dois buracos que absorvem algumas das vibrações. O teto cobre doze amigos que ensaiam às 21h45 de todas as terças-feiras. O grupo encontra-se numa das salas da Associação Académica de Braga, depois de umas esquinas, mesmo por baixo do Bar Académico (BA). Cada elemento do grupo pega no seu instrumento musical, é tempo para afinar e começar mais um ensaio do grupo cultural IPUM.

IPUM

Hélio Carvalho/ComUM

Três gaitas de foles dão o mote inicial. A dúzia de estudantes apenas comunica por gestos durante o ensaio, ninguém pára a música e quando algo está mal repete-se desde o início. A IPUM é um grupo académico que nasceu, em abril de 2008, para ensaiar uma melodia única, tal como a gaita mirandesa. “A IPUM foi fundada por pessoas que acharam que a oferta que existia na universidade não era suficiente”, explica a presidente da IPUM, Ana Cristina Silva.

Não é fácil ser gaiteira e marcar o ritmo na fila da frente. E é tarefa difícil ensaiar na última fila e prestar atenção ao contratempo que os bombos requerem. Além disto, os elementos do grupo cultural devem ser todos bem humorados, segundo os exemplos avistados no ensaio, mesmo por baixo do Bar Académico (BA).

E, por isso, o recrutamento para a IPUM não tem sido tarefa fácil. “As pessoas ouvem falar em percussão e a reação é sempre: ‘que seca’! Mas, a maior parte das pessoas novas que temos entrou porque nos ouviram ao vivo. Para se gostar da nossa percussão é preciso que as pessoas nos ouçam”, diz Ana Silva, música atenta e versátil.

O som das gaitas de foles leva qualquer um a memórias de antepassados em danças e trovas medievais. Os bobos da corte atiram piadas durante os ensaios da IPUM e os tocadores de gaita de foles reclamam a atenção de todos e voltam ao início em 1,2 e 3. “As pessoas passam e vão ficando cá porque gostam desta sonoridade, porque é uma coisa diferente e porque não encontram isto em lado nenhum”, explica Ana.

“A Universidade do Minho, cada vez mais, tem coisas novas para oferecer aos alunos. E os cursos também são cada vez mais exigentes. E o nosso tempo é cada vez menos. E, por isso, a maioria dos alunos acha que não consegue conciliar os estudos com um grupo de percussão, por exemplo. E nós explicamos sempre que é possível conciliar. Até porque são muito valorizadas as experiências que tens fora das aulas durante o período em que frequentas a universidade”, explica a presidente da associação cultural IPUM, conhecida pela percussão.

Uma chave e quatro paredes

Os bombos e os outros instrumentos da IPUM ficam armazenados durante a semana na sala, até à noite de terça-feira, momento em que pelos corredores da Associação Académica de Braga se sente o estremecer do som dos bombos. E os vidros dos expositores da sala de ensaios estremecem até as 23h.

“Já ensaiamos no pavilhão desportivo da Universidade do Minho. Já ensaiamos no parque da Rodovia. Já ensaiamos na Escola de Educação da Universidade do Minho. E agora estamos nesta sala”, afirma a presidente da IPUM. A sala que a IPUM invade às terças-feiras é um protótipo de pequeno auditório que não absorve a força dos bombos e multiplica os sons estridentes das gaitas de foles.

A acústica não é a melhor, mas a sala cedida pela Augustuna é, para já, a única solução da IPUM.  “Nós já ensaiamos em tantos sítios. Somos um grupo com dez anos e trezentas e tal atuações e, infelizmente, não temos uma sede. Nós até já tivemos um ano sem ter onde ensaiar. Até já chegamos a ir para o Bom Jesus. Já pedimos o empréstimo de uma sala em algumas juntas de freguesia. Já falamos com todos os reitores que passaram por nós. E não há solução. Como não há solução? A situação é frustrante e é triste”,  explica Ana.

IPUM

Hélio Carvalho/ComUM

O grupo académico sonha há dez anos com um espaço próprio onde conseguisse pendurar fotografias ou guardar os instrumentos musicais sem preocupações. “Durante três anos os nossos instrumentos estiveram guardados numa garagem. E nós nunca tivemos um sítio onde pudéssemos guardar os nossos instrumentos e ter, pelo menos, uma chave”, explica a presidente.

A IPUM, um grupo com mais de trezentas atuações a representar a Universidade do Minho, continua sem local próprio para os ensaios das terças às 21h45. Ana admite que o próximo grande passo da associação IPUM será o estabelecimento do grupo num espaço para, em seguida, se conseguir formar mais alunos nas artes da percussão.

Macau chega à IPUM

Jéssica, nome português escolhido pela estudante de Macau que pertence à IPUM, espreita pelo canto do olho os acordes que a colega do lado toca na gaita de foles. Quando chegou a Portugal já sabia tocar o instrumento musical e procurava aliar a gaita de foles a uma experiência com sonoridades portuguesas. A IPUM foi a solução. “A Jéssica quando chegou cá já sabia tocar alguma coisa, e quando entrou para a IPUM as nossas gaiteiras mandaram-lhe uns vídeos e, neste momento, já está completamente integrada no nosso grupo”, afirma Ana, enquanto recorda outros estudantes de Erasmus que já pertenceram ao grupo cultural.

“A melhor maneira de convencer alguém a entrar na IPUM é falar-lhe do espírito que nós temos. Nós damo-nos todos muito bem. E nós, musicalmente, ouvimo-nos uns aos outros e conseguimos rapidamente colmatar os erros. Aqui toda a gente tem um papel a desempenhar”, conclui a presidente do grupo cultural.

O ensaio termina. Os bombos tocam uma última vez. Está na hora de arrumar os instrumentos musicais no local emprestado e Ana, a presidente da IPUM, confessa o futuro: os próximos dez anos já começaram a ser sonhados. “Quero um dia passar o testemunho para um próximo presidente e quero que o grupo continue sempre vivo”.

A associação cultural IPUM procura novos elementos para os ensaios de terças-feiras. O local ficará a desejar e a acústica não é a melhor. Mas, a IPUM é particular na forma como acolhe: exige, a qualquer um, que experimente o bombo ou que, pelo menos, bata o pé ao som do batuque.