Os martelos e os balões no São João são bem conhecidos. Mas em Nogueira, Viana do Castelo, a tradição passa por "roubar" para encantar.

São muitas as tradições de S. João e por todo o país Porto e Braga são conhecidos como os anfitriões deste Santo Popular. Habituamo-nos aos balões de ar quente, às iluminações e às sardinhadas acompanhadas de um bom vinho, mas em algumas aldeias os costumes são outros.

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Cátia Barros/ComUM

Nogueira, em Viana do Castelo, é uma dessas aldeias. É na mesma que se percebe o porquê de São João ser conhecido como “o santo dos casados”. Na noite de 23 para 24 de junho as tradições são diferentes.

Os mais novos não sabem o porquê de as cumprir, afirmam sempre “foi o que a geração anterior fazia, é o que faço hoje”. Contudo, os mais velhos sabem como explicar. “Antes de santo, o São João era muito maroto. Quando ia à fonte com as mulheres, partia-lhe os cântaros com pedras e assim podia namorar com elas”. Rosa Ribeiro partilhou um dos ditados populares que lhe contavam em criança: “São João era bom Santo, se não fosse tão maroto, levava as moças p’ra fonte, levava quatro e vinham oito”.

É véspera de São João, e apesar de coincidir com III edição da “Feira Medieval – Por Terras de São Cláudio”, a velha guarda no café da aldeia discute as tradições da terra. “A verdade é que naquele tempo não tínhamos mais nada”, comentam entre eles. “As moças estavam sempre guardadas pelos pais. Acompanhavam-nas para todo o lado, na lavoura, e só as encontrávamos em tempos de festas”.

Juntavam-se à volta das míticas fogueiras de São João, conhecidas por “lavarem” os males de quem as saltava. Daí o ditado que passa de geração em geração “S. João comprou um burro, para saltar a fogueira, anda burro, salta burra, mas não queimes a cabeleira”.

Junto com as sardinhadas, os moços solteiros aproveitavam para conhecer as pretendentes, isto é, as mulheres “namoradeiras” ainda por casar. Depois do convívio, as moças regressavam a casa junto com os pais. Contudo, os moços ficavam juntos e tinham uma longa noite pela frente.

Sozinhos, já com a lista das raparigas de boas famílias que estavam por casar, planeavam um pequeno assalto. De madrugada, as casas dessas moças eram invadidas e sem ninguém notar (ou fingir não notar). Carros de bois, enxadas e outros materiais de trabalho eram retirados às moças. De manhã, quando acordavam para mais um dia de trabalho, davam conta que algo lhes faltava.

Partiam, então, para o cruzeiro da aldeia e descobriam quem era o moço que a andava a namorar. Cruzavam-se no cruzeiro e a magia acontecia. “Eram coisas de antigamente, mas esta malta nova não deixa esquecer”, conta Joaquim Cerqueira, dono do café Claufili.

Joaquim recorda alguns incidentes, um dos quais fê-lo deixar de continuar com a tradição. “Um ano, ia com os meus amigos e trazíamos um carro das vacas com mais de dez vasos. Éramos rapazes novos e um deles decidiu fazer um peão com o carro. Partimos dois vasos, foi aí que parei de ir roubar”, recorda com saudade.

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Cátia Barros/ComUM

A saudade amarga das recordações

Na pequena aldeia, todos têm histórias para contar. Os mais novos, com a memória fresca, e os mais velhos repletos de nostalgia. Umas são recordadas com carinho, outras com alegria, mas a maior parte delas têm um travo amargo de saudade.

Os mais velhos dizem que quem mais se gabava que ninguém o conseguia assaltar, eram os primeiros a serem assaltados. Recordam a história de Carlos Figueira, o sacristão da altura. Contam que ficou a noite toda sentado no carro dos bois e, eventualmente, acabou por adormecer. Os rapazes transportaram o carro, com o sacristão, até ao cruzeiro. “Só se deu conta de manhã quando acordou no meio do nada”.

As histórias continuam, como o ano em que a aldeia ficou em pânico devido às marotices dos jovens. Apesar da tradição ter nascido para pedir a mão das adolescentes aos pais, muito rapidamente tornou-se “na noite mais divertida do ano”.

Num ano, decidiram que era a vez de pregar uma partida ao padre da aldeia. “Naquele tempo quase ninguém tinha mota ou bicicleta, por isso o padre andava numa burra. Quando o padre estava a dormir, os rapazes novos que faziam muitas marotices foram buscar a burra ao curral e prenderam-na na torre do sino, no badalo do sino, e quando a burra se mexia o sino tocava. A pobre burra estava ali presa e de tempo a tempo ouvia-se o sino tocar. Ouvir o sino de tempo a tempo assustou-nos a todos”, recorda Rosa Ribeiro.

Hoje, já não há tantas enxadas ou carros de bois para levar de madrugada. Os vasos, mangueiras e decorações de jardim enfeitam o cruzeiro. São tempos diferentes, mas com tradições antigas.

Os mais novos enchem-se de secretismo e impedem as mulheres de participar na tradição. “Afinal, é uma tradição de homens e mesmo que já não andemos a namorar no portal queremos uma boa tradição”, admitem.

Júlio Parente, um jovem de 17 anos que mantém a tradição viva, conta algumas histórias que guarda para mais tarde recordar. Motivado por ver os amigos mais velhos a cumprir a tradição, sabe que lhe cabe a ele continua-la. “Não tem assim tanta importância o que fazemos, mas não queremos deixar isto cair no esquecimento. É divertido, juntamos um grupo de amigos e criamos histórias para contar e incentivar que isto continue”.

Os jovens recordam que um dia, já de madrugada, sentiram “um carro a passar na estrada, e para que ninguém nos descobrisse atiramo-nos de um muro abaixo”, e caíram direitinho nas silvas. Contudo, riem-se da situação.

Outra história, que lhes enche o coração foi o roubo à casa da Rosa Maria, a auxiliar na escola primária que frequentaram. “Quando a estávamos a roubar abriu a porta e disse: “Então os meninos,andam a roubar os vasos? Tenham cuidado e não estraguem nenhum. No final passam aqui e comem um caldinho verde, está bem?”.

“As moças são ainda mais bonitas na noite de S. João”

É madrugada de S. João, e onze rapazes vestidos de preto misturados com a noite, preparam-se para sorrateiramente roubarem as raparigas ainda por casar. Admitem que é “uma noite cheia de nervosismo e ansiedade. Não querem ser descobertos”.

“Sabemos quem é que alinha na tradição e quem não. É uma forma de nos divertirmos e queremos também divertir os outros”, conta um dos veteranos da tradição. Distinguem facilmente o que mudou na tradição. “Antes, trazia-se o que era mais valioso para a família. Hoje, trazemos coisas velhas e sem valor”.

A noite foi atribulada. “Temos de ser discretos, ao mínimo barulho escondemo-nos. Somos apanhados, mas não deixa de ter piada. Este ano foi a Dona Isabel que nos viu, mas nós escondemo-nos e demos a volta”, contam eles.

É por volta das seis da manhã do dia de S. João que começam a enfeitar o cruzeiro. As luzes de rua ainda estão ligadas e está na hora de trabalhar, sem ninguém os ver.  “É mais divertido se mantivermos o secretismo. Escondemo-nos e ficamos a observar as pessoas a virem buscar”.

O sino já deu as sete badaladas e está na hora dos “ladrões” se esconderem. Aproveitam e reúnem-se no café da aldeia. Convivem e recuperam as energias de uma noite toda a trabalhar, alguns olham para o relógio e pensam em voz alta nos compromissos que têm marcados para o dia.

O sol já nasceu e os mais curiosos aparecem para ver como ficou tudo este ano. A pouco e pouco aparecem mais pessoas. Umas para recuperar o que lhes foi levado emprestado durante a noite e outros só para se certificarem que nada lhes falta.

As raparigas mais tímidas mandam os pais e as mães. Ainda assim, as destemidas vão juntas recuperar o que é seu. O cruzeiro enche-se da população, alguns até autores do crime. O convívio é bom e recordam-se histórias. Algumas moças lembram-se: “um ano fomos nós roubar aos moços. Nem era pelo roubar, era para nos divertirmos e ter uma noite diferente”.

Santo António já se acabou e S. João está-se a acabar. Mas por esta aldeia, canta-se algo diferente. “Que bonitas que elas são, são ainda mais bonitas, na noite de São João; Não escapa um só rapaz, o que o santo lhe faz, vai tudo no balão”.