Fala-nos de abandono, remorso, amor e morte. O realizador é mestre na arte de retardar a informação para criar suspense. Quando finalmente é relevado o motivo do estranho pedido, o final dói ao espectador e também por isso, satisfaz e não desilude.

Anabel abandonou a filha Chiara quando ela era ainda uma criança. Trinta e cinco anos depois, Chiara aparece para lhe fazer um pedido invulgar de tão simples: quer que a mãe passe 10 dias com ela. Anabel aceita. O motivo deste pedido é a incógnita assombrosa que paira durante todo o filme. E ao longo da viagem o plano de Chiara vai-se revelando, colidindo numa razão perturbadora e num fim épico.

O que mais gostei na abordagem de Ramón Salazar a “La enfermedad del domingo” foi a forma como escolheu contar esta história em ecrã. O sofrimento é tratado de forma silenciosa, sem grandes prantos sonoros, sem grandes planos gráficos. Não há o típico espalhafato de Hollywood. O realizador apresenta-nos uma dor de grande elegância visual, na qual acreditamos profundamente, talvez porque nos apercebemos dela sem que nos seja anunciada que ela lá está.

As duas actrizes principais, que constituem a grossa maioria das cenas do filme, contribuem para este aspeto com excelentes representações que derivam também de uma boa construção psicológica. Por elas, o suspense está presente até quase ao último minuto. Passamos o filme a tentar compreender o interior daquelas duas personagens, mãe e filha, e a procurar perceber os motivos que as movem, especialmente no que respeita a Chiara e ao seu estranho pedido cuja motivação só percebemos quase no último minuto.

Não diria que o argumento, na sua vertente isolada, é o que de mais inovador e original se tem feito no cinema. Mas a maneira como Salazar joga com o que não sabemos e a forma como domina a linguagem audiovisual e se serve verdadeiramente dela para nos contar a história tornam este filme numa referência.

Tudo nos dá informação e não apenas os canais óbvios de a transmitir, é por isso uma peça digna de ser visualmente apreciada.

A construção que vemos em ecrã é uma obra de arte com os planos que fogem ao óbvio, os duplos enquadramentos em janelas e afins e o uso narrativo de luz – especialmente na cena em que Anabel revela ao marido a aparição da filha. Todo o posicionamento dos elementos em cena é bem orquestrado, criando uma estética bela que o nosso olhar aprecia e agradece.

Agradece principalmente porque “La enfermedad del domingo” é uma espera ansiosa de coração aos saltos, em que o suspiro de alívio só nos é permitido quase no fim.  É inevitável sentir empatia por um ou outro sentimento e a dor do final é nossa também. Quando as peças se encaixam na nossa cabeça e o ecrã volta a preto fica o pensamento: “acabei de ver uma obra de arte”.