Os Jogralhos rimam e mandam as suas piadas desde 1990, e continuam com a promessa de se manterem sempre em pé. Os “amarelos” reúnem-se mais esporadicamente, mas ainda assim, as piadas secas e a ironia continua sempre pronta a disparar.

“Uma piada seca? Ui, é difícil escolher uma”. Entramos na sala dos Jogralhos, no piso inferior do Bar Académico (BA) de Braga. É das mais pequenas das muitas salas de ensaio aqui, mas é também das mais arrumadas. Algumas cadeiras dispostas numa secretária, um computador, e o símbolo pintado na parede.

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Hélio Carvalho/ComUM

O humor dos “amarelos” está presente desde a chegada ao BA até à saída; desde os finais de 1990 até agora. E se quem os conhece, os define como um grupo de comédia, não andará longe disso. “Os jograis eram grupos que existiam antigamente, e basicamente iam de povoação em povoação fazer um tipo de espectáculo que nós fazemos agora numa era mais moderna. Eram pessoas que tinham conhecimento das situações na sociedade na altura, como nós procuramos ter do que a nossa tem hoje, e fazemos rábulas, fazemos textos, fazemos rimas e apresentações para públicos”.

Marco Freire está sentado atrás da mesa, ao centro, a contar a história. Ao seu lado está Carlos Pereira, ou “Flash”. Marco, ou “IP5”, tem 41 anos, é o presidente e está nos Jogralhos desde 1996. À sua frente, do outro lado da mesa, senta-se Alexandre Pinto, 23 anos, que entrou em abril de 2017. Pegam nos copos de plástico de cerveja mas enchem de água; hoje é um dia sério.

Para apanhar uma actuação dos Jogralhos é preciso, normalmente, ir a um festival de tunas. É o “ganha-pão” do grupo, que não esconde as mudanças que têm passado pelos festivais académicos e que têm mudado a sua forma de actuar. “Ao longo de todo este percurso, houve várias formas de apresentar festivais que foram mudando, e é natural que as pessoas queiram ter espetáculos diferentes, e daí que de há uns tempos para cá nós não tenhamos tido tanta presença na universidade como já tivemos”, diz Marco.

Explica que, se continuam a ter muita atividade, não é bem graças dos grupos minhotos. Com os membros das próprias tunas a resolver fazer a sua própria apresentação, “IP5” explica que ir uma vez ao palco não compensa, e assim os Jogralhos acabam por estar menos presentes na academia. “Nós temos por vezes as atuações alinhadas com um tema, um fio condutor, e esse fio condutor não tem impacto se for feita, por exemplo, uma só entrada em palco com uma apresentação. Portanto, quando as pessoas nos convidam, nós temos todo um alinhamento preparado para ir cinco ou seis vezes a palco; se nos pedem para ir só uma vez, só para dizer que estivemos lá, não vai de acordo com tudo aquilo que nós estivemos a trabalhar e com o todo o planeamento que fizemos. Já houve casos que acabamos por ir, mas não é de todo o que nos satisfaz”.

Ainda assim, a diminuída presença dentro da academia não se propagou para outros sítios. Carlos interrompe entusiasmado a sobriedade de Marco. “Também acontece irmos a um festival de tunas, pessoal de outras tunas ver-nos lá a atuar, achar piada e convidar-nos para o festival deles. Já nos aconteceu, mas é um ciclo. Deixamos de atuar ali, mas vamos atuar noutro sítio. São fases”.

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Sara Cunha/ComUM

Os Jogralhos neste momento estão em fase de sair da cidade. Por aí andam. Mas com membros que ainda continuam a apresentar festivais, depois de 28 anos como jogral, as piadas ainda têm muita estrada para andar.

Esticar as cordas às páginas de rimas

Bruno Saraiva entra a meio da entrevista. Tem 23 anos, como Alexandre, e entrou há quatro meses no grupo. Vai dando as primeiras passadas no grupo, que conta com estes dois “escravos” (nome dado aos membros antes de passarem a jograis).

As duas caras relativamente novas (Alexandre já entrou em abril de 2017) são das poucas que têm surgido nos Jogralhos nos últimos tempos. Um problema que, para Marco, é comum a todos os outros grupos. “A mentalidade de hoje em dia de quem entra para a universidade é acabar um curso e ir embora, e isto consome tempo. Hoje em dia é tudo muito rápido, e damos por nós a entrar, já estamos no segundo ano, e amanhã vamos embora. E já não vou ter tempo para estar aqui. As coisas aqui demoram tempo, as pessoas que entraram para aqui demoraram tempo a ter estofo para ir a palco, serem capazes de tratar de um espetáculo todas sozinhas, de apresentar um espectáculo, e isso demora tempo”.

É uma frase repetida por quase todos os grupos, como se o corredor do BA de Braga fizesse eco. Falta gente. E nos Jogralhos a situação não melhora. Os ensaios também não são tão regulares como os de outros grupos culturais, embora por necessidade própria. Há muitos textos para ensaiar, mas com a grande maioria dos jograis já está fora da universidade, só se reúnem mais frequentemente antes dos festivais.

“Se fossemos convidados para um festival daqui a três meses, era muito difícil preparar qualquer coisa até lá, só mais perto da data. É aquela coisa do ‘não somos todos engenheiros, mas é quase como se fossemos, porque deixamos tudo para a última’. Normalmente, quando temos festivais, eu diria que estamos perto de sete, oito a correr bem. Se dissermos que há cerveja, se calhar chegamos aos dez”, diz Carlos. Os outros riem-se, e concordam enquanto bebericam a água a partir do copo de plástico da Sagres.

Mas se é quase só de festivais que os Jogralhos vivem, as deslocações para as atuações são outro obstáculo. Atualmente, existem verbas distribuídas pelo Plenário dos Grupos Culturais da Universidade do Minho (PGCUM), com financiamento dos Serviços de Ação Social da Universidade do Minho, sendo que esse dinheiro é depois distribuído pelos diferentes grupos culturais que pertencem ao Plenário. “Flash” comenta sinicamente o método: “é um bolo, e quanta mais gente for à festa, mais pequena é a fatia”.

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Hélio Carvalho/ComUM

Os dois mais velhos na sala mostram-se mais descontentes, explicam que com a entrada de mais grupos, os Jogralhos ressentiram-se financeiramente. “Os grupos que haviam eram alguns, e de repente começaram a aparecer imensos grupos. E a verba que já era escassa e que nos permitia subsistir, porque nós não temos qualquer lucro nas atuações onde vamos, está-se a atrofiar”, explica Marco Freire, que ainda assim não questiona a existência dos grupos. “Não está agora aqui em causa se eu acho que eles deviam pertencer ou não, mas o que é certo é que nós existimos praticamente porque não pagamos aqui uma renda e não pagamos água e luz, porque o que nós recebemos cobre praticamente o gasóleo para irmos a uma atuação, nos nossos carros. Temos uma verba para um carro alugado que dá basicamente dá para duas atuações – nós fazemos 12 ou 13. Ou seja, é apertado. Andamos sempre aqui a esticar a corda”.

Não há instrumentos aqui, há folhas de papel. Não há guitarras, há rimas. E assim os custos também saem menores aos “amarelos”, que vão cortando onde podem.

A vítima do costume está uma “seca”

Um grupo da academia minhota que manda umas piadas terá sempre um alvo previsível: a Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM). É a fonte de gozo e de críticas dos estudantes quando algo corre mal. Durante a última Receção ao Caloiro, em outubro de 2017, choveram críticas nas redes sociais perante problemas com autocarros; e o cartaz do Enterro da Gata foi recebido com fortes críticas pela ausência de Quim Barreiros.

Mas fora isso, os Jogralhos acham que a sua maior vítima anda a comportar-se “bem demais”, ao ponto de se tornar uma “seca”, segundo Carlos Pereira. “Claro que aqui da universidade são quem faz mais asneiras, mas o presidente atual está a ser um bocado desilusão porque não está a fazer nada de especial, estou a ficar um bocado triste”.

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Sara Cunha/ComUM

Marco comenta o facto de a crítica a AAUM ser uma constante para os Jogralhos por uma questão de proximidade. Além disso, como são alunos como eles, a crítica será sempre mais fácil e construtiva. “É mais fácil porque para o dia-a-dia toca a mais gente, e é mais fácil ver os erros quando uma pessoa está perto deles, não é? Ainda para mais ao longo do tempo fomos sempre batendo em certas coisas que ainda hoje se mantêm. A AAUM tem erros que insiste, quanto a nós, em perpetuar ao longo do tempo, e nós vamos continuar a dizer que não está bem”.

Alexandre quer esclarecer que os Jogralhos não têm nada contra a AAUM. O humor é “sofisticado” ou “inocente”, mas nunca do contra só porque sim. “Acho que não temos sempre um ponto de vista negativo, tanto sobre a AAUM como outras entidades. A AAUM este ano está especialmente paradita, não há nada assim a acontecer, não há muita coisa para pegar, mas não acho que seja um ponto de vista negativo querer apontar falhas, porque obviamente se as pessoas trabalham, nós também trabalhamos e podem-nos apontar falhas também”.

Momento solidário raro dos “amarelos” para com a AAUM, abre-se o espaço à crítica. O livro de reclamações está aberto. Mas não está vazio.

Piadas são piadas dependendo de quem as ouve. E se piadas sobre a AAUM trazem sempre sorrisos, outros assuntos podem cair em saco roto. Os sacos rotos no humor são públicos calados, o que é o menos preferível para quem tenta fazer rir.

Marco dá um exemplo mais recente, em que uma piada na cidade vizinha não teve propriamente os efeitos desejados. “Houve uma piada uma vez que se contou em Guimarães que pronto, tinha a ver com homens homossexuais, mas tocava num humor um bocado mais negro. E de facto, foi aquele tipo de piada que quando acabas de contar, está aquele silêncio. Tu percebes que algo não correu bem”.

Os restantes riem-se. De organizadores de eventos, nunca houve quem lhes viesse dar um puxão de orelhas. Mas do público sim. Carlos conta a história.

“A única situação que aconteceu de virem falar connosco não foi no final do festival, da actuação, foi durante a actuação. Uma vez estamos a ir pela primeira vez a Costa de Lavos, um sítio onde costumamos ir atuar, e um dos nossos mais velhos estava a apresentar o grupo e a explicar o traje. E estava um ‘escravo’ connosco, e ele disse: ‘este jovem aqui, ele não é gente’. Mas quando dizemos isso, dizemos num tom de brincadeira. Só que quando ele disse isso com tom sarcástico, houve uma senhora na plateia que disse: ‘Ele é gente, sim senhora!’. E nós ficamos um bocado a olhar uns para os outros”.

Riem-se. Alexandre, o “escravo” de agora, faz a piada. “Era uma pessoa que estava indignada com a terminologia da escravatura”.

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Hélio Carvalho/ComUM

Como diz o português, iguais a si próprios

Como muitos grupos com décadas de experiência, esperamos uma mudança de ares na evolução dos Jogralhos ao longo do tempo. Algo que “IP5” é rápido a desmentir.

“Se falarmos para uma pessoa que conhece os Jogralhos há 20 anos, falar com os jograis na altura e falar com os jograis de hoje, vê que somos um grupo que se mantêm fiel à forma como foi fundado. É a nossa identidade que se preservou ao longo do tempo”. Marco entrou em 1996. Com 41 anos agora, continua a entrar em palco com jograis que entraram também nos anos 90, e assim os ideais do grupo vão-se mantendo inalterados.

É o elevar de um orgulho pelos “amarelos” que acende os olhos de Marco. As pessoas novas preservam o que os velhos deixaram. Para os Jogralhos é bom. Esclarece o que cada pessoa já pode esperar do grupo. E há uma inesperada piada política. “Isto é um bocado como o Partido Comunista. O Partido Comunista de agora parece o Partido Comunista de há 40 anos, porque o Comité é o mesmo!”.

Os quatro à mesa, os dois jograis e os dois “escravos”, são o espelho de um grupo que continua a crescer às gotas e nunca a perder elementos. Levantam-se. Preparam-se para sair, mas primeiro mostram a inovadora sala. “Repara nisto”. Carlos coloca a “Careless Whisper” de George Michael no computador e desliga as luzes da sala.

Um feixe amarelo aponta para uma bola de cristal no tecto, que ilumina as caras dos Jogralhos. Piadas de cariz sexual que não podem ser repetidas, debaixo dos espelhos da bola de cristal, são um final digno de um grupo de comédia.

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Hélio Carvalho/ComUM

Marco aproveita as luzes e lança o apelo às mentes mais criativas, que gostarem de mandar umas piadas, e não só. “Quem for o tipo de pessoa que quer criar, que quer fazer umas coisas fora do normal, que não quer chegar, pegar numa partitura e tocar a ‘Madalena’, quem quer ser ‘out-of-the-box’, aqui é bem-vindo. Usando uma metáfora: uns gajos gostam de ir à pesca, uns gajos gostam de caçar, uns gajos vão aos ursos, pá, aqui há malta de tudo!”.

Quanto ao ir aos ensaios só para dar duas de treta, “IP5” tem um nome “eclético-social” que define as sessões que se passam todas as segundas e quintas. “Fazemos aquilo que em linguagem empresarial se chama ‘team building’”.

Conta-se mais uma piada seca. Outra que não pode reproduzida. Quem quiser saber, terá de lhes perguntar a eles, sempre com a brincadeira pronta a disparar. Os “amarelos” assim vão andando, com os seus livros de rimas editados e publicados. Só se calam quando não houver mais papel.