Sexo, violência e drogas. Quentin Tarantino embrulhou num filme todos os tabus e montou-o com acontecimentos inesperados, a melhor banda sonora de todos os tempos e diálogos originais. Misturou tudo para sair uma narrativa cronologicamente desordenada, mas unida por assassinos da máfia, um lutador de box reformado, dois violadores, um casal de assaltantes e uma mulher bonita. O resultado foi uma das grandes obras cult do cinema.

Pulp Fiction

Com um filme raro para a época, pela forma como aborda os seus temas, Tarantino conseguiu vários prémios e ganhou inclusive o óscar de Melhor Argumento Original em 1995. Não surpreende. A storyline é feita de violência sem conta-gotas e diálogos sem filtro. A melhor maneira de descrever a obra é mesmo dizer que se trata de uma sucessão de acontecimentos improváveis e caricatos.

Para ser um sucesso, faltava só inovar na montagem e Tarantino fê-lo. A narrativa de Pulp Fiction não é linear, mas antes apresentada de forma cronologicamente desordenada, num formato em que as várias histórias se vão unindo pelas personagens que as frequentam. Naquela que é a narrativa principal, dois assassinos da máfia tentam recuperar a mala do chefe, deparando-se com uma série de peripécias pelo meio, numa autêntica abordagem ao consumo de droga e ao mundo do crime. Aqui merece que se abra um parênteses, para mencionar os fantásticos close-ups da overdose de Mia Wallace, interpretada por Uma Thurman, que funcionaram muito bem em ecrã, naquilo que à estética visual do cinema diz respeito.

Pulp Fiction

Os diálogos, esses, são o melhor dos dois mundos: surpreendentes e hilariantes. O atrevimento criativo é visível tanto na cena em que os assassinos discutem o teor erótico de uma massagem aos pés, como nas recorrentes citações bíblicas por Jules (Samuel L. Jackson). Parece que os atores não estão em personagem, não há urgência em ir direto ao assunto ou em dizer o mais relevante: as banalidades (ingredientes do realismo e da aproximação ator-espectador) estão presentes e a conversa flui ao nível da personalidade de quem fala.

E porque se falamos em diálogos falamos em atores, não posso deixar de mencionar o facto de Pulp Fiction ter juntado John Travolta e Uma Thurman numa só tela de cinema. E ter proporcionado a intemporal cena de jazz dance entre os dois, num café em que carros eram bancos e a empregada de mesa era a Marilyn Monroe. Claro que a atmosfera antiga e os cenários pitorescos dão toda a atmosfera de charme de que o filme também goza.

Pulp Fiction

Não podia terminar de falar da obra-prima que venceu inclusive a Palma de Ouro do Festival de Cannes sem mencionar a sua banda sonora. É uma das mais gabadas da história da sétima arte e por muitos considerada a melhor de todos os tempos. Temas como Girl, You’ll Be A Woman Soon e You Never Can Tell , viveram muito além do ecrã  juntamente com outros temas de nomes como Kool & the Gang, Al Green e Dick Dale, que trouxeram o rock e a surf music à longa-metragem.

Em suma, Pulp Fiction é algo bizarro na sua improbabilidade, provoca choque e excitação. Foi muito criticado, analisado, e depois muito imitado nos anos que lhe seguiram. Hoje é, sem dúvida, um dos filmes que mais influenciou a sétima arte e uma referência do cinema a rever frequentemente.