Barcelos continua em festa e refrescado, tanto pela piscina, como pela chuva.

No segundo dia de Milhões de Festa, os palcos multiplicaram-se, assim como as atuações, que duraram desde o início da tarde até à madrugada tempestuosa. Num dia que teve os clássicos de Lena D’Água acompanhados pelo Primeira Dama e pela banda da Xita Records, a hipnose chegou com Squarepusher – artista que elevou a fasquia dos visuais para um patamar mais elevado neste festival.

 

[Acompanhe a cobertura o primeiro dia, aqui]

Foram as sonoridades irregulares e bicudas que atrelaram aquelas projeções impressionantes de Squarepusher, ou então é completamente o contrário. Ambos os elementos complementam-se como se se estivesse a assistir a um duelo solitário de Tom Jenkinson, mentor do projeto e pessoa por trás da máscara de esgrima que produz toda a parafernália de sons que vão desde o drum’n’bass ao dubstep sem que haja tempo para pensar na origem da cavalgada rítmica de determinado som.

O facto de não se ver a cara de Tom Jenkinson não tornou a batalha cósmica menos pessoal. Sempre que podia, o artista interagia com o público, ora através de gestos, ora até mesmo com a própria voz que, sem microfone, se fez ouvir entre músicas. Afinal, não era apenas o público que se estava a divertir com todo aquele espetáculo que estava a acontecer.

Não só de eletrónica se fez o segundo dia de Milhões de Festa, onde, mais uma vez, a música portuguesa teve o seu espaço. A estrear o Palco Lovers, Lena D’Água recordou alguns dos clássicos que a tornaram uma das figuras da década de 1980 em Portugal, com uma atuação acompanhada pelos temas do álbum homónimo de Primeira Dama e interpretados em conjunto com elementos da Xita Records. A alternância entre repertórios não permitiu que a sede por certas músicas intemporais fosse saciada. No entanto, “Carrossel”, “Dou-te Um Doce”, “No Fundo Dos Teus Olhos de Água” e “Perto de Ti” foram alguns dos temas cantados em palco e também na plateia.

Nesse mesmo palco, os Warmdusher esfriaram o restante da pop portuguesa e transformaram-na num rock saído do western. Apesar das sucessivas confusões entre as cidades de Barcelos e do Porto, foi com a banda londrina detentora do prémio de melhor artista de 2015, segundo a revista Pitchfork, que soltou o primeiro mosh do festival, acompanhado por croudsurfing. O vocalista parecia ter saído diretamente de um concerto de country para o Milhões de Festa, dado o chapéu e o casaco alusivos a esse género, mas isso ainda tornou a atuação mais especial.

Mais cedo, o Palco Taina recebeu as Decibélicas, banda bracarense originária do Projéctil – covil cultural que já viu nascer grupos como Ermo e Bed Legs. Com um punk sarcástico combinado com palavras de ordem e sempre com um tom humorístico, talvez não seja por acaso que o grupo, quase na totalidade feminino (apenas o baterista é do sexo masculino), venha do mesmo burgo dos Mão Morta. No final do concerto, o vira minhoto embalou uma música dedicada aos pelos, que terminou com sabor a cachupa.

Logo depois, num crescendo de agressividade, os Sereias ditaram uma das maiores enchentes do Palco Taina. Com muita distorção, tal como pede o punk, o headbanging era inevitável ao ouvir-se a banda que reitera ver “o país a arder”. Esta foi a “tainada” de umas sereias loucas no segundo dia de Milhões de Festa.

Ao início da noite e tal como no primeiro dia, o Palco Principal recebeu mais um artista de Barcelos. Desta vez foi Pedro Oliveira com o projeto a solo intitulado Krake. Para esta performance, o baterista de Dear Telephone e Peixe Avião apresentou-se em formato ensemble, contando com a participação de quatro músicos divididos pelos sintetizadores, harpa, guitarra e sopros. Tratou-se de um concerto introspetivo, em contraste com as restantes atuações.

O segundo dia contou ainda com os Circle. Os vikings do rock aliaram a música à teatralidade, demonstrada pela cumplicidade entre os elementos da banda. Na piscina, apesar dos problemas técnicos, os Grabba Grabba Tape lutaram contra o calor que sentiam dentro dos fatos que faziam lembrar os caretos de Trás-os-Montes e terminaram o concerto da única forma possível: dentro de água.

No final da noite, Scúru Fitchádo manteve o ritmo elevado com um drum’n’bass temperado pelo funaná – mistura improvável, mas que resulta com sucesso. Prova disso foi a espontaneidade dos movimentos corporais do público, que só foram atenuados pela chuva.

Hoje é o terceiro dia de Milhões de Festa, onde atuarão artistas como Electric Wizard e Gazelle Twin.