Escrito em apenas 20 dias, A Metamorfose de Franz Kafka reúne em si um enredo mirabolante, que nos põe em contacto com cenários de pura ficção. Apesar de ser um livro que encerra em si um surrealismo típico do escritor, a mensagem que traz consigo não passa, certamente, despercebida.

Publicado em 1915, este é o livro que nos conta a história de um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, que, embora não lhe agrade o seu trabalho, tem a responsabilidade de sustentar os seus pais e a sua irmã mais nova, Greta. No entanto, algo acontece a Gregor que vai mudar a vida de toda a família Samsa.

Franz Kafka

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso inseto”. Com esta transformação, os restantes membros da família veem-se obrigados a enfrentar uma série de problemas, levando-os a alterar as suas rotinas. Que destino lhes espera se o ganha-pão da família é agora, nada mais nada menos, que um inseto gigante?

É neste contexto absurdo que Kafka, metaforicamente, nos apresenta algumas problemáticas relacionadas à condição humana, aos dramas sociais e à facilidade com que alguém passa de bestial a besta. Todas estas questões recaem e são visíveis na situação de Gregor.

Inibido de qualquer capacidade humana, o caixeiro-viajante passa a ser encarado pelos seus pais como um objeto de repulsa, um ser desprezível que para nada serve. A pessoa que dava o corpo ao manifesto para manter a família em pé torna-se num foco de problemas, causador de infortúnio, e um autêntico peso morto para aqueles a quem tanto deu e gosta. Greta, durante algum tempo, ainda vai demonstrando alguma preocupação com Gregor, alimentando-o. No entanto, até a própria irmã acaba por lhe virar as costas.

Desta forma, vemos que o livro também arrasta consigo questões sobre a solidão humana, tal como o desprezo, humilhação e exclusão. Gregor, impossibilitado de sair do seu quarto e de usufruir da companhia de alguém, vai-se sentindo cada vez mais rejeitado. Isto traz à personagem um desgosto tão grande que acaba por perder a pouca humanidade que ainda tem dentro de si.

Dado o exposto, podemos concluir que a obra oculta uma crítica a uma sociedade puramente de interesses, que nos leva a pensar que apenas somos realmente importantes enquanto formos úteis. Infelizmente, essa é uma mentalidade que ainda se encontra vincada nos nossos dias, o que torna este livro intemporal e ótimo para nos questionarmos sobre os valores humanos.