Se a existência de regulamentos é uma ferramenta importante para a organização de qualquer tipo de evento/competição, a verdade é que a forma como estes são contornados na sociedade portuguesa (e, neste caso em concreto, no futebol português) é um fenómeno digno de estudo.

A alínea 16 do artigo 10 do regulamento da Taça de Portugal define que “na terceira eliminatória, os clubes da I Liga jogam todos na qualidade de visitante”. Até aqui, tudo normal. A condição de “visitante” pressupõe a existência de um “visitado” e torna-se claro que as equipas de divisões inferiores devem receber os conjuntos da Liga NOS nos seus estádios.

Apesar deste pressuposto, nem sempre este facto se verifica. No sorteio da terceira eliminatória da Taça de Portugal, fase da competição que decorreu durante a última semana, ficou definido que o SL Benfica defrontaria o Sertanense, enquanto o Sporting CP mediria forças com o GS Loures. Seria expectável que a Sertã e Loures recebessem as partidas, mas os jogos acabaram por se realizar no Estádio Municipal de Coimbra e no Estádio do FC Alverca, respetivamente.

Passar um Sertanense – SL Benfica para Coimbra ou um GS Loures – Sporting CP para Alverca é tirar credibilidade à prova rainha do futebol português. O relvado pode não estar nas melhores condições, a transmissão televisiva pode não sair totalmente favorecida, mas, esquecendo a vertente financeira do futebol, não vejo por que motivo os jogos não se podiam disputar no Campo Dr. Marques dos Santos e no Campo José da Silva Faria, respetivamente.

Não quero aqui apresentar uma visão totalmente purista do caso. Sendo estudante de Ciências da Comunicação, tenho ainda mais noção de que os interesses económicos se sobrepõem muitas vezes àquilo que é o jogo dentro das quatro linhas. Mas Taça de Portugal é sinónimo de festa. Taça de Portugal é dar a conhecer ao país a senhora que trabalha há mais de 20 anos no bar de um qualquer clube das divisões inferiores. Taça de Portugal é dar a conhecer ao país o adepto de um qualquer clube dos distritais que vê os fora-de-jogo pelos postes de iluminação.

Se uma situação como aquela que foi verificada nesta fase da Taça de Portugal veio realçar problemas desta índole, certo é que outro tipo de contrariedades acontece todas as semanas em competições como o Campeonato de Portugal (terceira divisão nacional). Num campeonato com 72 equipas, apenas duas conseguem subir à Ledman Liga Pro (segundo escalão do futebol português) no fim da temporada.

Por outro lado, são 20 (!) os clubes que são despromovidos aos campeonatos distritais aquando do término do campeonato. Números absurdos e que só demonstram o quão “ingrato” é disputar esta competição.

A Federação Portuguesa de Futebol, enquanto entidade organizadora do Campeonato de Portugal, tem feito um trabalho insuficiente naquilo que é a promoção da competição. Para além de atividades como transmissões televisivas serem escassas ou até mesmo inexistentes, são cobradas taxas de participação insuportáveis para a realidade de muitos clubes. Assim, acabam por surgir casos de clubes que conquistam o direito de jogar no Campeonato de Portugal, mas que, por restrições financeiras, acabam por desistir da prova e regressam aos distritais.

Quem acompanha o Campeonato de Portugal (e quem não acompanha tem na página de Facebook “Campeonato Portugal – Campeonato das Oportunidades”, um projeto amador mas com muita qualidade, uma excelente forma de o fazer) sabe que o problema não é a falta de qualidade dos intervenientes.

Desde o golo de antologia de Telmo Castanheira, jogador do Trofense, à forma como o FC Felgueiras 1932 se bateu contra o SC Braga na Taça de Portugal, são várias as provas que demonstram que o ‘futebol do povo’ está vivo e recomenda-se. Basta haver uma aposta com critério, centrada naquilo que são os clubes e os jogadores.