Depois das Serenatas Velhas, a Receção ao Caloiro continuou esta quarta-feira com a atuação de Toy.

Boa disposição, espontaneidade e convívio destacaram o primeiro dia da Receção ao Caloiro. Toy marcou presença no Multiusos de Guimarães pelo segundo ano consecutivo e animou todos os que por lá passaram.

Num ambiente descontraído, o cantor interagiu com os estudantes da academia minhota. Rimas, trocadilhos e improvisos sobre os cursos mantiveram a boa disposição durante toda a noite. Foi também Toy quem anunciou o curso vencedor da Latada de 2018: Engenharia Eletrónica Industrial e Computadores.

Em entrevista ao ComUM, o músico falou sobre o seu modo descomplicado de viver a vida e o processo de criativo.

 Quais são as suas expectativas para esta noite?

Toy: Já é a minha terceira ou quarta vez na Receção ao Caloiro aqui. Acho que vai correr super mal [risos]. Tem tudo para correr bem, na verdade. Principalmente porque acredito muito nestas gerações entre os 20 e os 30 anos. São gerações peculiarmente muito divertidas e eu gosto disso.

São essas gerações que participam mais nos concertos?

Toy: Sim, mas não é só por isso que gosto delas. Eu tenho quatro gerações em casa: a minha mulher e o meu filho mais velho da mesma idade – que é a geração dos 30 -, tenho a minha filha do meio na geração dos 20 e tenho a minha filha mais nova na geração entre os 10 e os 20, que tem 16 anos. E para além disso, tenho uma neta com quase dois meses. E o facto de conviver e viver diariamente com todas dá-me a possibilidade de entender que cada vez mais há um interesse pela cultura neste país. Tirando a cerveja e a erva, a cultura e a educação são o mais importante.

O público nortenho tem a fama de ser muito participativo e caloroso nos concertos, é isso que tem sentido?

Toy: Sim, é isso que tenho sentido. Já agora, vou aproveitar para contar uma história. A maioria dos jogadores de futebol do Norte que vão jogar para a minha terra (Setúbal) dizem uma frase muito engraçada: “a terra do Sul mais nortenha que eu conheci foi Setúbal”. Ser nortenho é receber bem, tentar agradar, ser participativo. Não quer dizer que no Sul não o sejam, no Alentejo normalmente é tudo mais parado e calmo. Mas eu, sinceramente, não tenho razão de queixa.

Estamos nos bastidores do Multiusos de Guimarães, antes do concerto, tem algum ritual que costuma fazer nestas alturas?

Toy: Não, por acaso não tenho nenhum hábito. Curiosamente, tenho aqui uma garrafa atrás de mim aberta que já cheirei, mas não bebo porque o vinho não é do meu agrado. Também não é costume beber antes dos concertos. Antigamente, era sexo antes dos concertos. Agora não… Mas não é por falta de vontade!

No que toca às suas músicas, qual é a sua favorita?

Toy: As minhas músicas favoritas, curiosamente, não canto nos concertos. Tenho 4 ou 5 que realmente me fascinam muito, uma delas é a “Pássaros de Amor”, outra é a “Mariquita”. E isto tem a ver com os meus filhos e com a minha mãe. Só me senti capacitado para escrever sobre eles em determinada altura da minha vida, em que achei que estava suficientemente inspirado para valorizar o suficiente as pessoas mais importantes da minha vida. E não foi fácil escrever essas canções. Cantei-as apenas uma vez ao vivo no Coliseu dos Recreios em 2007. A minha mãe não estava fisicamente presente e como estava o meu pai e toda a família, cantei a “Mariquinha” em homenagem à minha mãe. Chama-se Maria Leonor, é filha de espanhol, surgindo assim o nome da música. A canção “Pássaros de Amor” está noutro álbum com vários acontecimentos pessoais da minha vida. Foi o álbum mais caro em termos de produção, cerca de 50 mil euros, e o que menos vendeu de todos os que já fiz.

A música “Coração Não Tem Idade” foi lançada no ano passado e tem agora um enorme alcance. Inspirou-se em alguém quando a escreveu?

Toy: Há duas formas de fazer canções: ou com inspiração ou com transpiração. Podem-me dizer assim: “Vai haver uma nova novela da TVI, está aqui a sinopse, faz algumas canções para a banda sonora sobre esta história”, aconteceu quarto vezes. Eu também sou inspirado pelo universo e quando surgem estes convites para fazer uma coisa grande, o entusiasmo da transpiração faz com que surja algo de inspiração. Outra coisa é levantares-te de manhã, teres uma canção na ideia e não perceberes o porquê. É uma coisa que me surge, que me nasce.

O “Coração não tem idade” foi escrito quando voltei das Maldivas, estive lá 15 dias a escrever canções de amor. Fui a uma danceteria cantar o álbum romântico que tinha escrito e vi senhoras de 60, 70 e talvez 80 anos muito bem arranjadinhas, com mini saias e calças justas. E apercebi-me que já não estamos no tempo da minha avó, em que uma mulher levava pancada do marido e vivia agarrada a ele a vida toda. Os tempos mudaram, a mulher emancipou-se e hoje é igual ao homem. E quando eu digo “solta-te, liberta-te, abres as asas do sonho que tens todo o futuro para saborear”, é um antidepressivo, na minha opinião, para mulheres que deixaram o marido e continuam a viver. A vida continua e nunca é tarde para amar!

Quer deixar alguma mensagem aos estudantes minhotos?

Toy: Sim. Quero dizer aos estudantes da Universidade do Minho que há horas para estudar, há horas para o lazer, há horas para fumar e há horas para beber. E hoje é um dia de festa, portanto, há que esquecer os estudos. Eu sou apologista de que a vida não é feita só da explicação e da escola e do estudo e disto e daquilo… Isso é importante, é um facto. Mas também é importante que nos sintamos (fisicamente e mentalmente) com a disponibilidade suficiente para quando voltarmos ao trabalho estarmos sãos para poder trabalhar. E para isso é preciso uma boa bebedeira, uma boa ressaca e depois, então, um bom estudo. Há tempo para tudo. Não exagerem no beber e no fumar, mas também não exagerem no trabalhar. A vida não é feita só de divertimento. A palavra fundamental da vida é o equilíbrio. Nunca se esqueçam disto.

 

As festividades da Receção ao Caloiro continuam até à noite de sábado. Esta quinta-feira, véspera de feriado, vão atuar o trio Karetus e vários grupos culturais da Universidade do Minho.