Lançamentos póstumos são sempre um risco, tanto para o legado dos artistas como para os fãs. Embora seja sempre bom ouvir algo novo de intérpretes que gostamos muito, principalmente após as suas mortes, há que ter em conta que muitas das canções lançadas postumamente apenas são tornadas públicas pelo interesse financeiro e não pelo respeito à arte.

É sempre trágico quando artistas morrem, sobretudo em idades tenras, pois começamos a questionar e a imaginar a boa arte que esses artistas conseguiriam fazer no futuro. Casos mais recentes são os de Mac Miller, Avicii, XXXTENTACION e Lil Peep. Todos morreram no último ano e poderiam ter carreiras impressionantes à sua frente.

Os dois últimos, por exemplo, colaboraram numa canção, “Falling Down”, que foi lançada após a morte de Lil Peep. Para além disso, há cerca de duas semanas, foi tornada pública uma nova música de XXXTENTACION, intitulada “Arms Around You”, cinco meses e meio após ter morrido.

Outros casos incluem o lançamento, este ano, do álbum “Piano & A Microphone 1983”, de Prince, o de Michael Jackson, em que se ouvem sempre rumores de mais álbuns novos a caminho, e o de Kurt Cobain que, 21 anos após a sua morte, foi lançado o documentário “Montage of Heck”, tornando públicas várias canções e gravações nunca antes ouvidas.

Todos estes são projetos que claramente não teriam sido aprovados para lançamento pelos artistas, seja por não terem gostado da qualidade, por terem feito as canções numa má altura das suas vidas e não quererem torná-las públicas ou por serem faixas de teste ou de ensaio. Existem imensos possíveis motivos para tais decisões.

A nível nacional, há o caso de Amália Rodrigues, que, apesar de ter falecido em 1999, surgiram este ano dois álbuns em seu nome. Um deles, intitulado “É ou não É?”, contém 69 faixas, sendo que a maioria delas nunca foi antes ouvida ou são meros ensaios.

Porém, os casos mais graves são de Jimi Hendrix, Elvis Presley, 2Pac, The Notorious B.I.G., e Frank Sinatra, que faleceram em 1970, 1977, 1996, 1997 e 1998, respetivamente. Para tornar evidente o poderio financeiro por detrás dos lançamentos póstumos destes artistas, todos têm mais músicas lançadas desde que faleceram do que quando eram vivos. Discos de duetos, de Natal, ao vivo, de remixes, entre outros, que claramente não foram e não seriam permitidos pelos artistas, sendo que alguns desses projetos deixam marcas negativas nas suas carreiras.

Mas, se a arte é feita pelos próprios artistas, não deve ser divulgada? Sim, quando o foco é mesmo na arte, tendo em conta os desejos dos artistas de lançarem músicas após a sua morte. No entanto, a resposta é não quando claramente esses lançamentos afetam o seu legado, quando não querem que sejam tornados públicos e, principalmente, quando as editoras usam os nomes dos intérpretes para chamarem a atenção dos fãs e para obterem retorno financeiro.

O que torna tudo mais triste é que já se consegue prever que, assim que artistas ou bandas de grande nome faleçam, como os restantes membros dos Xutos e Pontapés, U2, Metallica, Elton John, Eminem, Beyoncé, Madonna, entre outros, vão ser lançadas imensas músicas novas, nunca antes ouvidas. Quer sejam boas ou não, quer os artistas queiram ou não, ou quer sejam positivas para o legado deles ou não.