A série de Mike Flanagan, atualmente com uma temporada e dez episódios, vem hospedar-nos na icónica Hill House do livro de Shirley Jackson, mas numa nova história em que o terror principal é o mesmo: os nossos medos.

the house of hauntil hill

“Na maioria das vezes, um fantasma é um desejo.”, diz uma das personagens imediatamente no primeiro episódio. Mas, nesta altura, a personagem quer apenas dizer que os fantasmas são aquilo que desejamos ver. Será? Não será? Ao longo da temporada, somos confrontados frequentemente com fantasmas. Reais. Imaginários. Talvez, por vezes, algo entre ambos. A série aborda o terror naquilo que geralmente é: uma banda sonora desconcertante, cheia de suspense e repleta de imagens arrepiantes que tememos ver. Mas usa o terror também de uma forma mais incomum: para nos entristecer, desanimar e nos arrancar a esperança. A nós e às personagens com que lidamos durante os dez episódios.

A série é inspirada no livro de Shirley Jackson com o mesmo nome. No entanto, distancia-se deste quase completamente no seu enredo e personagens. A base é a mesma: uma casa com poderes sobrenaturais que “devora” os seus habitantes pouco a pouco. Mas a história é diferente. No livro de Shirley Jackson, 4 indivíduos ficam alojados numa mansão como cobaias de uma experiência cujo objetivo é encontrar provas de atividade paranormal na casa que, por sua vez, demonstra ao longo da história ser mais poderosa do que se pensava.

the haunting of hill house

Na série televisiva os habitantes provisórios do casarão são a família Crain, que pretendem vender a propriedade no fim do verão. É aos poucos que começamos a descobrir que esta não é uma mansão “normal”, mas sim um local com poder para consumir, aterrorizar, manipular e prender. Um inferno obscuro, que afetará para sempre a vida desta família. E é isso que vemos na série: a tentativa desta família de lidar com o seu passado e vamos descobrindo, aos poucos, o que realmente aconteceu na noite em que, abruptamente, deixando para trás um dos membros da família, tiveram de abandonar esta casa que, como todas as casas, tem “…olhos, e ossos, e pele, e um rosto. (…) um coração, um estômago.”

O terror que emana das histórias provém, essencialmente, do medo, do trauma, da memória e da forma como isto influencia o ser humano e a maneira como cada pessoa é, individualmente, afetada pela casa.

A série é especialmente uma série triste. Faz-nos simpatizar com a dor de uma família marcada pelos acontecimentos trágicos do seu passado e perseguida pelos fantasmas que a seguem até ao presente. Triste é uma característica evidente da série, na minha opinião, mas, também, uma característica fascinante. A cada episódio que passa, tudo se vai tornando cada vez mais profundamente triste.

the haunting of hill house

Há algo de genial na composição dos episódios. A história vai-se formando em fragmentos que vão, gradualmente, compondo “um quadro”. Pormenores a que não prestámos atenção revelam-se cruciais e surpresas aguardam-nos a cada episódio. A organização cronológica da série é uma “desorganização organizada” extremamente bem conseguida, pois não se torna confusa. Alguns aspetos do desenrolar da história são previsíveis, outros, surpreendentes. Mas, globalmente, a composição da narrativa, o seu desenrolar, prende o espectador: a cada episódio vamos descobrindo mais um pouco, e simpatizando mais com as personagens.

Os elenco foi muito bem escolhido. Quer os atores que representam as personagens no presente (nomes como Michiel Huisman, Carla Gugino, Timothy Hutton, Henry Thomas, Victoria Pedretti, entre outros), como os que representam as personagens no passado (os jovens atores Lulu Wilson, Julian Hilliard, McKenna Grace, Violet McGraw e Paxton Singleton entre os centrais no enredo). Penso que a série não nos prende tanto às personagens em particular quanto nos prende à sua dinâmica como um todo: explora as características individuais de cada uma, mas, talvez, não o suficiente para nos fazer apaixonar por elas, apenas perceber cada uma e, até, simpatizar com algumas. Mas penso que certas personagens ficaram por explorar, como a maioria dos fantasmas da casa, e até, os empregados da mesma.

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Os diálogos entre as personagens deixam-nos presos ao ecrã pela sua composição, pela sua beleza, por serem, muitas vezes, intrigantes e, outras, profundamente crus na sua honestidade, e até comoventes. Prende-nos também o trabalho assombroso que é feito com a câmara e os seus ângulos que, juntamente com a decoração e a organização da casa (a casa mantém o aspeto da mansão do livro e o seu caráter de um quase labirinto) trazem para o ecrã o suspense.

Os sustos são bem conseguidos na grande maioria das vezes. E a banda sonora da sequência de abertura (como toda a banda sonora da série, da autoria de The Newton Brothers) é de uma beleza imensa, tal como toda a sequência em si. Eu reparo sempre nas sequências de abertura, porque penso que  há algo de extremamente belo e artístico em muitas delas e esta, com certeza, tem essa qualidade.

the haunting of hill house

Na realidade, toda a banda sonora é magnífica, combinando perfeitamente na sua melancolia trágica com a imagem promocional da série. É triste. As próprias cores da série são tristes: escuras e sombrias nas cenas atuais e mais vivas, com um tom de saudade, nas cenas do passado. Tudo nesta série é essencialmente triste. A série destaca-se nisso. É melancólica do início ao fim, carrega um desânimo, um mistério fragmentado nas incertezas e infortúnios de cada personagem.

No entanto penso que, no final, desanima, por tornar certos aspetos do mistério pouco inovadores. Enquanto nos surpreende, em constantes revelações, também conduz o enredo para um fim pouco original em certos aspetos.

the haunting of hill house

Mas é uma série que, no fim de contas, vale a pena ver, é uma composição à qual se torna amável assistir, pela sua abordagem do amor, da família, do que é ser mãe, pai e irmão. Aborda estas temáticas, na realidade, como um dos elementos centrais de toda a história, e ainda bem que o faz, porque o faz bem. Explora os vários pontos de vista, os vários receios, as várias injustiças que formam uma família, a solidão, mas, também, os elos que nos ligam uns aos outros.

A série aborda, também, algo crucial no ser humano: o ceticismo. É mencionada a célebre frase de Hamlet, na peça, com o mesmo nome, de Shakespeare, mais do que uma vez: “Há mais coisas no Céu e na Terra, Horácio, // Do que o que é sonhado na tua filosofia.”.

A própria forma como a série é construída, como já foi antes mencionado, mostra-nos isto: vemos por vezes as mesmas cenas ao longo de vários episódios e só da segunda ou da terceira vez que as vemos é que elas fazem sentido. A série agarra e explora o conceito de perspetiva, abre-nos portas e pouco a pouco, revela-nos novas divisões do enorme labirinto, tanto físico como mental, que é a mansão de Hill House.