Lançado em vinil em maio de 1978, 10.000 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte, de José Cid, tem a capacidade de nos transportar para o espaço. As variações rítmicas e o uso de sintetizadores, próprios do estilo a que se prende, juntamente com a alteração entre instrumental pesado e suave, são as principais características que nos fazem sentir em fuga para o espaço.

10.000 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte é o primeiro álbum de Rock espacial português, desenvolvido por José Cid em colaboração com Zé Nabo, um dos mais conceituados baixistas portugueses, o galego Ramon Galarza e Mike Sergeant.

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Inesperadamente ouvimos, em “O Caos”, oposições de teor, ao ser cantada a descrição geral da situação de forma agressiva, e a descrição em detalhe da destruição do planeta de forma suave, quase que melancólica. A sensação de caos é acentuada ainda pelas mudanças de ritmo sentidas durante toda a faixa, o que permite afirmar que, apesar de experimental, é uma faixa pautada por uma lógica quase que extrema.

“A partir do Zero”, marca o retorno ao planeta, mostra-nos a vontade de reconstruir o ar, o mar, a terra, o sol, o amor e a paz. De uma forma muito ritmada e enérgica, José Cid passa a positividade inerente ao renascimento de algo.

Importante também referir que Cid foi o primeiro a chegar ao planeta fantástico do teclado Mellotron e a fazer experiencias com o instrumento, o que marcou o auge do estilo psicadélico, sendo toda a faixa “Mellotron o Planeta Fantástico” uma não tão clara metáfora.

Termina o álbum com a canção bónus designada “Vida (Sons do Quotidiano)”. Nela, o artista faz combinações que, parecendo aleatórias, de aleatório pouco têm. Trata-se de uma mistura de sons quotidianos com o que se assemelha ao som de um parto, se este pudesse ter uma banda sonora associada.

Ouve-se a descrição do parto de forma quase poética, pelo choro de um recém-nascido, o que reforça a ideia do repovoamento da Terra e relata o caminho da vida, do nascimento à morte. Ouvimos uma criança “universal” que fala de amor, liberdade e de paz entre os homens numa pequena frase que termina com um simples “Até amanhã”. Esta é a faixa mais lírica e política do álbum, até pela época histórica que se vivia na altura, do pós-25 de abril.

O projeto conceptual conta, assim, a autodestruição da humanidade e a história de quem regressa à Terra para a repovoar, explorando um tema e um estilo que estavam em alta na época. É notável a influência de bandas como Pink Floyd ou Moody Blues e, apesar de ter ganho grande notoriedade no estrangeiro, este álbum em Portugal passou ao lado.

Talvez por ser algo tão diferente e inesperado para a altura em que o país se encontrava, 10.000 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte foi bastante desvalorizado, apesar de poder ser facilmente interpretado como uma metáfora para o que se passava na altura.

Em 2018, 40 anos após o lançamento, o projeto continua a conseguir ser atual e aberto a múltiplas interpretações, passando sempre uma mensagem de reconstrução e esperança.
Talvez agora estejamos prontos para uma viagem desta dimensão.