El Mal Querer, o segundo projeto da artista espanhola Rosalía, rapidamente faz os ouvintes bater o pé ao ritmo das extraordinárias batidas concebidas, com clara influência Flamenca. A cantora passa o testemunho de um romance, tão dramático e tão intenso, que envolve quem a ouve por completo nas suas palavras.

Este é um dos álbuns mais elogiados pela imprensa internacional, sendo mencionado positivamente por diversos órgãos de comunicação social. A sua menção deve-se à manutenção intencional de identidade por parte da artista. Rosalía aproveita-se dessa capacidade de envolvência intrínseca do projeto para contar a história de uma relação amorosa condenada ao fracasso.

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Essa narrativa desenrola-se por 11 faixas, que correspondem aos diferentes capítulos que a compõem, e é inspirada num manuscrito do século 13, The Romance of Flamenca. Essa obra conta a história de uma mulher aprisionada numa torre pelo seu marido, que acreditava que esta o havia traído. Contudo, ela consegue escapar e cair nos braços de outro homem.

Obviamente, esta história teve que ser transposta para os dias de hoje, e Rosalía escolheu representar a torre pela violência física e psicológica causadas por ciúmes. Todavia, esta história moderna termina de uma forma diferente, isto é, nos braços de si mesma – “A ningún hombre consiento que dicte mi sentencia”.

“Malamente”, a primeira canção do álbum, conta com a fusão de Flamenco, onde se batem palmas e existem variações de voz típicas do estilo, com Pop e Reggaeton. A artista demonstra ter a vontade clara de partir para um local melhor, sem nunca olhar para trás, “Vi’ a salir pa’ la calle, no vi’ a perder ni un minuto en volver a pensarte”. Contudo, esse desejo não é alcançado, e em Que No Salga La Luna”, é descrito um casamento por conveniência, antecipando o fracasso. “Si hay alguien que aquí se oponga, que no levante la voz”.

Todo esse fracasso se fixa em pequenos pormenores, desde o medo inicial de perder alguém que se ama, “Y si no te agarro fuerte, siento que será mi culpa”, às crescentes disputas e respostas físicas em “Pienso En Tu Mirá”, Con el revés de la mano, yo te lo dejo bien claro”.

Para além disso, também existe o reconhecimento, por parte da artista, de se ter tornado numa pessoa completamente diferente daquilo que era, e a aceitação de que a pessoa com quem está não ser quem aparentava ser. Isso pode ser ouvido em “De Aquí No Sales” “Reniego” e “Preso”.

Em Bagdad” dá-se continuidade à reflexão do inferno pessoal da personagem, ao ser utilizada uma metáfora bastante subtil, onde Bagdad, que é o nome de uma das cidades iraquianas onde acontecerem vários acontecimentos trágicos, pode ser comparada com o sofrimento da pessoa dentro da relação. Toda esta canção conta com a distorção de um excerto da canção Cry Me A River”, de Justin Timberlake, que pode representar uma busca por vingança.

No entanto, antes de partir para a vingança, Rosalía procura encontrar algo de bom no relacionamento na faixa “Di Mi Nombre”, nomeadamente as relações físicas, “Di mi nombre, pon tu cuerpo contra el mío, y haz que lo malo sea bueno”. E, em “Nana”, supõe-se que outro ponto bom do relacionamento é o filho.

Por fim, na canção “A Ningún Hombre”, a personagem reconhece que nada mais há a fazer, e assume o compromisso para consigo mesma de não permitir que outro homem assuma poder sobre a sua vida.

Sendo assim, mais de que um álbum extremamente complexo, apaixonante e cultural, Rosalía consegue transportar um exemplo de vida que deve ser exposto a todas as pessoas, para que elas possam tirar as mais diversas conclusões acerca do tema.