É um dos humoristas mais acarinhados pelo público português e, além de marcar presença em programas de televisão e projetos que ele próprio organiza, surpreendeu o público com uma abordagem incomum ao stand-up comedy.

Braga recebeu este sábado duas horas de comédia por parte de António Raminhos, que esgotou o Espaço Vita e surpreendeu o público com um espetáculo que foi muito mais do que anedotas e gargalhadas.

António Raminhos

Beatriz Duarte/ComUM

A sessão teve início com um voice-over baseado naqueles que se ouvem antes da descolagem dos aviões e fez, posteriormente, uma breve referência ao limite de idade do evento. Dirigiu-se aos mais novos defendendo que “o que vocês não perceberem, a vossa mãe explica-vos depois”, e começou desde cedo a interagir com o público.

Convidou todos os presentes a ouvir as suas aventuras e desventuras, num tom marcadamente autobiográfico. “Não era suposto eu estar aqui neste palco! Eu já trabalhei, sabem? Nunca quis fazer isto.” Foram estas as frases que deram início ao seu background profissional, onde referiu que trabalhou num bar e conquistou, com uma greve, o seu lugar no quadro de um jornal onde estagiou e que negava empregá-lo. Acontece que o jornal faliu, pouco tempo depois.

A falência levou-o à comédia e reflete aqui o sentido de resiliência que o stand-up comedy lhe trouxe: ensinou-o a encarar as coisas com uma leveza que já lhe era um pouco natural, pois sempre se considerou “um gajo pacato”.

Em modo de reflexão, fez uma retrospetiva aos sítios que já percorreu graças à carreira que nunca antecipara e que começou em 2006. Parou para fazer um reparo especialmente dedicado à região onde atuou: “Tenho algumas reservas em atuar no norte do país.”

O público, incrédulo, aguardou pelo continuar da história, que Raminhos explicou de seguida: “É que eu tenho que vir cá e viver a experiência à norte! E isso implica comer à norte, beber à norte, viver à norte e festejar à norte!”

Retomando os locais onde foi, serviu-se das festas de aldeia onde já atuou, dos transportes, das companhias low-cost, dos hotéis e do processo de escolha dos mesmos para chegar a uma conclusão: “Não vivemos as coisas no momento”. Queixou-se da capacidade que os seres humanos têm de reclamar do que é hoje tão cómodo, comparado a tempos antigos. Como exemplo, demorar três horas a chegar a Londres quando antigamente se demorava três dias para chegar a Lisboa, “o problema está nas pessoas.”

António Raminhos

Beatriz Duarte/ComUM

O palco, iluminado por holofotes de luz azul e decorado por não mais que um banco e dois cartazes, com cada metade da cara de Raminhos, imagem de marca do espetáculo, deu lugar a, mais do que um show de comédia, um espaço de reflexão e sinceridade.

Após caracterizar o ambiente da noite, “uma sala simpática, cheia de pessoas simpáticas, quase parece uma reunião de condomínio”, seguiu em tom de ode à família e às suas raízes, caracterizando o pai como o “Rambo de clarinete” e, além das peripécias da família, contou também os sarilhos em que se metia.

Das peculiares histórias que engendrava, chegou à vida pessoal que tem hoje, com quatro mulheres em casa e a azáfama que lhe proporcionam, que Raminhos tenta comedir com “espetáculos de três em três dias”. Assusta-se de tal modo que quando teve de ir comprar um teste de gravidez e a farmacêutica lhe perguntou quais queria, ele respondeu: “Quero dos negativos, pois então!”

Em transição para um tom mais íntimo, procedeu com a explicação do nome do espetáculo: “O Melhor do Pior”. O título baseia-se na capacidade de tirar aquilo que há de bom nas situações mais negativas da vida. As histórias que contou a partir dali eram apenas contadas em palco, confessou Raminhos, agradecendo a quem “gasta tempo e dinheiro” para ouvir o que o humorista tem para dizer.

A plateia, com quem interagiu durante todo o espetáculo e a quem ia colocando questões, embarcou numa viagem sob o imersivo tom de voz de António Raminhos, que se aliava a histórias de cariz pesado e a uma análise do modo de pensar das pessoas.

A seriedade ganha um sentido ambíguo aos olhos de Raminhos: as imprevisibilidades, que compara às surpresas dos ovos kinder, “porque dali nunca sai boa coisa”, conduziram-no a uma nova maneira de olhar e pensar as coisas.

“É impressionante como a Natureza é perfeita nas suas imperfeições”, repetia Raminhos a uma plateia completamente submersa nas suas palavras.

Para terminar, relembrou a mãe que falecera em 2015, numa perspetiva que comoveu todos os presentes. Para Raminhos, o stand-up comedy é mais do que rir, é retirar de uma história – boa ou má – uma lição que ensine a olhar a vida na desportiva, com alegria e, acima de tudo, perseverança, como veio a confessar durante o espetáculo.

Passando pela azáfama da vida familiar, pelas oportunidades da carreira, pelas conturbadas peripécias da infância e dos momentos mais negativos que o marcaram, Raminhos tornou o Espaço Vita num lugar íntimo, onde partilhou, com toda a sinceridade, a maneira como encara a vida.