Um estudo feito pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual revela que em 2018 as salas de cinema portuguesas perderam quase um milhão de espetadores. O dado não é tão surpreendente se considerarmos a tendência que já se vinha a verificar desde 2017, mas o decréscimo de menos 920 mil bilhetes vendidos neste ano que acabamos de fechar, em relação ao ano anterior, não deixa de me fazer levantar questões e de propor algumas respostas.

Lendo isto numa esporádica conversa de café, muitos comentariam que “a culpa é da internet e das novas tecnologias”. No entanto, não acredito que o funeral do cinema deva ser anunciado desta forma tão insuficiente de discurso, tão repetitiva nos seus argumentos e tão prematura no seu tempo.

Não é raro decretar-se a morte de um meio de comunicação quando um mais novo (e que se crê, por isso, mais avançado) lhe aparece à porta. Ao longo da história já se anunciou a morte da televisão, das cassetes, do telemóvel, do telégrafo, da rádio e do cinema. Alguns deles, se não morreram, efectivamente reformaram-se. Há ainda outros que ainda se apresentam diariamente ao trabalho, adaptando-se aos novos desafios e fazendo florescer novas maneiras de comunicar.

A Rádio Comercial fez 40 anos há pouco tempo. É líder de audiências em Portugal e isso só é relevante porque significa que a rádio tem audiência. Se disséssemos isto no fim dos anos 50, quando a televisão apareceu em Portugal, qualquer jornalista, estudioso ou comum cidadão, nos diria que estávamos a enlouquecer. Como se explica então o fenómeno de sobrevivência da rádio e de que forma podemos extrapolá-lo para outro meio de comunicação, em particular, para o cinema?

Em primeiro lugar, a sobrevivência da rádio justifica-se pelas singularidades do seu canal de comunicação. E é esta justificação que permite amenizar os ânimos de quem acredita e decreta a morte do cinema. Cada canal de comunicação tem ao seu dispor diferentes ferramentas, quase que microcanais, que estimulam singularmente os nossos sentidos da visão, da audição, quem sabe, do olfacto, do paladar ou mesmo do tacto. Cada canal interage com o espectador de uma forma que nenhum dos seus concorrentes consegue, por funcionar com ferramentas audiovisuais exclusivas nas suas próprias circunstâncias.

No caso do cinema, as suas vantagens singulares vão residir sempre no grande ecrã suportado pela brilhante composição de cor e de luz, que nos submerge na imagem (as mais recentes televisões têm tentado igualar, mas ainda sem sucesso); no sistema de som surround, que torna débil a distinção entre o que se passa ao nosso redor e o que se passa meramente à nossa frente; e, claro, no próprio espaço onde o cinema comunica: aquela sala, que, não sendo um lugar qualquer, é a especialíssima sala de cinema.

Não há dúvida que, em termos de comunicação por imagem, os maiores rivais do cinema, que mais se aproximam em termos de conteúdo e de ferramentas, são a internet e também a televisão, estando a morte da caixa mágica também a ser decretada pelos invisíveis (mas poderosos na formação da opinião) agentes funerários da sociedade audiovisual.

A meu ver, o que deve conferir ao cinema uma certa autoestima em relação à televisão ou à internet, ou a qualquer tipo de ecrã familiar ou portátil, que seja presente nas nossas vidas quotidianas, é o facto de o cinema não ser, precisamente, quotidiano. O espaço onde ocorre marca-se pela evasão de tudo o que temos como rotina, tornando-se a sala de cinema a sala do escape, a sala do mistério ou a sala do refúgio. É um portal para um outro mundo. É a única sala no mundo onde o mundo real não existe. E essa é a verdadeira magia de ir ao cinema. Uma magia que suplanta a proximidade, a conveniência ou o conforto de ver em casa, de ver na internet ou de ver no telemóvel.

Acredito que quem verdadeiramente ama o cinema (e esses amantes, garanto-vos, estão a multiplicar-se como vespas, e muito longes da extinção) não procura proximidade, conveniência ou conforto. Quer antes viajar para longe, onde os desafios tornam o pay off mais prazeroso e o espectro de emoções, que vai da ansiedade ao terror, ultrapassa em sensação o banal que é o conforto.

Aparentemente, um milhão de pessoas ainda não teve tempo para refletir nesta premissa. O único motivo pelo qual essa ausência de reflexão não me preocupa, além da esperança que ela venha a ser estimulada por meio deste editorial, é todas as razões que mencionei acima e que tornam o cinema difícil de morrer, por ninguém querer que ele morra. Num mundo em que estamos sempre todos ligados, o cinema é aquele botão off que cada vez mais nos parece um pecado prazeroso para o qual não encontramos disponibilidade, tempo, dinheiro ou desculpa.

O cinema terá necessidade de incorporar novas tecnologias que o tornem uma experiência mais abundante capaz de chamar mais audiências? Talvez. O cinema terá de aprender a articular-se com outros meios, à semelhança do que fez a rádio, para garantir mais do que a sua sobrevivência na sociedade actual? Certamente. Mas a minha previsão para um futuro que se prevê cada vez mais cheio de ecrãs é que o da sala de cinema será o único que vamos verdadeiramente gostar.