Green Book: um guia para a vida traz-nos a história de “Doc” Don Sherley, um brilhante e sofisticado pianista afro-americano (Mahershala Ali) que vive acima da média e Frank “Tony Lip”, um homem de descendência italiana, modesto e um pouco grosseiro. Doctor Sherley necessita de um motorista para a sua turnê pelo sul dos Estados Unidos da América e Tony está desempregado, eles encontram-se e assim começa a jornada, no outono de 1962.

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O titulo do filme é indicativo daquilo que o mesmo trata. Green Book deriva do nome de um livro publicado na época das leis de Jim Crow, leis essas que descriminavam africo-americanos não permitindo que estes frequentassem certos estabelecimentos públicos, não partilhassem dos mesmo direitos que os brancos e, nos estados mais extremistas do sul da América, poderiam custar a vida àqueles afetados por elas. É também este o livro pelo qual Frank se guia quando se encarrega de fazer Don Sherley chegar a cada um dos seus concertos.

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Green Book leva-nos numa viagem emocionante e emocional, com um eco pesado mascarado pelo humor particular dos personagens: subtil e sarcástico no caso de Doctor Sherley e descarado e um pouco imaturo no caso de Tony. É através de conversas forçadas e gestos inesperados que Tony se confronta com o seu próprio racismo e com o terror vivido por aqueles que não são tão afortunados como o seu patrão. Nesta jornada também Don é afrontado por fantasmas que o têm acompanhado pela vida, sendo um dos poucos africo-americanos da época privilegiado o suficiente para ter um homem branco a trabalhar para si, visita a realidade daqueles que não o são. Encontra-se numa crise onde sente que não pertence a nenhum dos mundo perante ele, não é “negro o suficiente” nem “branco o suficiente” para ser aceite numa das comunidades.

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São-nos reveladas as duas faces de dois homens completamente opostos, vemos a revolta de um povo num homem que não se sente incluído nele e a compaixão de um outro que não tem problemas em incluir-se. É-nos atirada à cara a crueldade do ser humano que nem sempre queremos reconhecer e o quão perigosa a descriminação é quando dada à sociedade como uma arma.

Composto por belíssimas paisagens num tom melancólico, desde as planícies do Sul até ao bairro do Bronx em Nova Iorque, acompanhados dos cenário das típicas fazendas dos homens ricos e dos pequenos bares de jazz e soul ao som de uma banda sonora que inclui artistas como Aretha Franklin, The Blue Jays e Little Richard, este filme transporta-nos diretamente para os americanos anos 60.

É de destacar o papel de Mahershala Ali, vencedor do globo de ouro de melhor ator secundário pela sua interpretação neste mesmo filme. Ali tinha-nos já tocado nos corações com o seu papel em Moonlight, mas desta vez trouxe-nos uma faceta diferente, uma faceta mais sombria e, de certa forma, mais real e crua.

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Realço também a integração de membros da família de Frank “Tony Lip” na produção e realização do filme. Tendo em conta que a história é baseada em factos verídicos, mesmo que os familiares de Sherley não tenham querido qualquer envolvimento com o filme, é de valorizar a participação de elementos que estiveram presentes no decorrer da jornada daqueles dois homens.

Green Book está nomeado para uma imensidão de prémios, entre eles, o prémio BAFTA para melhor filme, melhor ator e melhor ator secundário. E conta já com quatro Globos de Ouro, entre os quais, o de melhor ator secundário para Mahershala Ali, tendo sido também nomeado para o de melhor diretor com Peter Farrelly.

Assim, termino por dizer que Green Book não é apenas um guia para a vida, é uma lição de história sobre uma época que não se pode voltar a repetir, um abrir de olhos para uma realidade que pode não ser a nossa, mas a do nosso vizinho e, por fim, uma prova de que a nossa humanidade pode ultrapassar até os preconceitos mais enraizados na nossa cultura.