Assume Form  é um projeto que nasce como homenagem à namorada do artista, a atriz Jameela Jamil. Podemos encará-lo, portanto, como a história da sua relação, desde a fase inicial até à solidificação.

Neste processo, James Blake divaga, também, sobre os seus problemas pessoais, que poderão constituir um possível problema no seu relacionamento. Criando um antagonismo, clarifica esta situação, passando a mensagem de que o seu amor é suficiente para superar estas dificuldades.

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O novo álbum é uma travessia entre o som que já esperamos deste artista e novas melodias. O artista procurou reinventar-se mas, ao mesmo tempo, não se afasta demasiado da sua sonoridade e estilo habituais. O cantor aposta numa variedade de sons, que passam por faixas altamente melódicas em que vemos a sua inspiração em artistas como Frank Ocean e Rosalia, ou faixas mais comerciais como a que conta com Travis Scott e Metro Boomin, artistas com quem já colaborou no passado e que encaixam perfeitamente no seu estilo e na sua procura pela distinção musical.

O álbum passa por momentos altamente melancólicos e tristes, em que o artista se demonstra assoberbado pela sua depressão e inseguranças pessoais. Também existem momentos idílicos e praticamente perfeitos, de felicidade quase exagerada, em que se sente completo, ‘curado’ e em paz consigo mesmo e com o mundo, graças à sua relação amorosa, que me transmite uma imensa alegria e paz. Esta dicotomia é clara e serve como estrutura de Assume Form, sendo que normalmente estes dois sentimentos predominantes, a felicidade e a tristeza, se vão alternando.

A primeira faixa, que dá titulo ao álbum, serve de introdução e de demonstração do conceito total do projeto, e inicia-se num tom melancólico. James Blake descreve a sensação de estar fora de si, de sentir que a vida passa e que não a controla, sensações que normalmente associamos a um estado profundamente depressivo. Ele pretende quebrar com isto e tornar-se palpável e real, para conseguir ser suficiente para estar numa relação saudável, no entanto, sente-se preso a esta sensação, o que o faz duvidar se é ou não merecedor de amor. A faixa termina com o cantor a declarar a esperança por dias melhores.

“Mile High” conta com a participação de Travis Scott e com a produção de Metro Boomin, uma combinação que funcionou perfeitamente. As notas melódicas de Travis e a batida de Metro Boomin permitem-nos mergulhar no inconsciente, de transcender através da utilização de drogas e, também, de demonstração de estatuto, poder e riqueza, como Travis explicita na frase “We just be mile high clubbin’”.  A faixa demonstra o poder do prazer carnal, mas também a sentimentalidade do mesmo quando existe intimidade e algum tipo de carinho, como Blake ressalva.

Retomando a nota sombria, ouvimos “Tell Them”, uma colaboração com Moses Sumney, que conta novamente com a produção de Metro Boomin. Aqui estão expressos claramente sentimentos de evasão e uma vontade enorme de se manter emocionalmente distante de toda a gente, mantendo apenas em relações casuais sem qualquer tipo de profundidade. Brilhantemente executada, serve o propósito de mostrar o quanto os traumas passados podem afetar os relacionamentos futuros.

Num tom semelhante, “Are You In Love?” foca-se na necessidade de confiança e segurança numa relação. James Blake, numa fase inicial, debruça-se sobre haver uma necessidade premente de uma promessa tacitamente acordada entre ambos, para que, futuramente, seja possível desenvolver sentimentos. O cantor mostra-se vulnerável e, enquanto que nas outras canções se dedica a exaltar a sua parceira, aqui foca-se nas suas preocupações e medos em relação ao compromisso que está prestes a assumir.

Vemos esses sentimentos de incerteza e paranoia a serem revisitados e a corroerem o artista novamente em “Where’s The Catch?”, que conta com a colaboração de André 3000. Nessa faixa, o medo de que algo de mau vai acontecer porque a relação está a correr demasiadamente bem começa a ser demasiado, o que acaba por minar e destruir aquilo que tinham. A batida sombria confere seriedade e suspense a este tema.

“Into the Red” sumariza a intenção de James Blake em relação a este projeto: o de louvar a sua parceira e de demonstrar o seu amor por ela. Por cima de uma melodia calma e alegre, o cantor exalta e elogia as qualidades da pessoa por quem está apaixonado, enfatizando a sua generosidade e disposição natural para se sacrificar em nome daqueles que ama.

Prosseguindo o tom romântico e apaixonado, seguem-se duas faixas em que o artista reflete sobre a sua relação, especificamente na felicidade que ela lhe traz. Em “Barefoot In The Park”, que conta com a participação de Rosalía, é criado um ambiente quase ingénuo e feliz, extremamente cru e real, em que somos transportados para a sensação transcendental de estar completamente apaixonados e de sermos amados de volta. De tal forma que tudo o resto é ignorado e se vive focado apenas naquele amor.

Em “I’ll Come Too”, observamos novamente como o amor é capaz de tornar tudo o resto irrelevante e de nos levar a um estado próximo da loucura, que o artista cria com melodias que nos transportam para um outro espaço. De seguida, “Can’t Believe The Way We Flow” acentua, novamente, esta sensação de paixão intensa. Mas a canção também demonstra a paz e a calma que uma relação pode simbolizar.

Em “Power On”, uma canção energética de Pop, Blake reflete sobre a aprendizagem que é possível fazer-se dentro de uma relação a partir do momento em que conseguimos engolir o nosso ego e compreender que não podemos estar sempre corretos. Portanto, simboliza a abertura de portas para que o outro possa transmitir o seu conhecimento. Acompanhada de vozes doces e angelicais, esta é uma das melhores faixas do álbum, tanto pela mensagem como pela produção e execução.

Ao observamos o todo deste álbum, podemos extrapolar um clico vicioso e contínuo de tumultos, ansiedades, dúvidas, mas também de amor, felicidade e tranquilidade para qualquer relação amorosa. A força deste projeto reside na sua capacidade de nos relacionarmos emocionalmente com o que é dito, e de nos revermos nestas palavras e situações. Esta nota pessoal é comum em James Blake, que diz usar a música como forma de expressão, relatando os acontecimentos da sua vida e expulsando os seus demónios.

O artista refere isso mesmo em “Don’t Miss It”, a penúltima faixa, que contém esta dualidade que é intrínseca ao projeto. O cantor refere a sua depressão e ansiedade, e aquilo que ele perdeu durante os tempos mais sombrios da sua vida, em que se sentia desconectado da realidade e, portanto, não vivenciava verdadeiramente a sua vida. Apesar de ter melhorado e afirmar isso, há uma parte de si, primitiva e sombria, que o chama e lhe pede para voltar a este estado taciturno, por isso, apela a que outros não sigam o mesmo caminho. Também pede o mesmo a si próprio, para que, também, não se esqueça do seu objetivo, a felicidade.

Finalmente, na última faixa, “Lullaby for My Insomniac”, Blae volta à ode à sua amada, que deseja descansar, mas não consegue. Assemelha-se a uma canção de embalar, tanto na melodia, como no tom e letra. É uma carta de amor cantada, que encaixa perfeitamente como canção final, concluindo a jornada cansativa até então.

Em conclusão, Assume Form é um projeto sólido, bem conseguido e trabalhado, com participações excelentes. Apesar de tratar temas que já foram tratados milhares de vezes, traz-lhes uma nova perspetiva. As faixas estão encadeadas umas nas outras e há um seguimento lógico quando ouvimos este álbum como um todo, pois saltamos de melancolia para felicidade a cada passo. O único defeito que lhe poderá ser atribuído é a monotonia de algumas canções, mas que se justifica dado o tema principal.