Sono é uma obra da autoria de Haruki Murakami que nos remete para uma viagem sem destino, onde as interrogações são uma constante. Metáforas, misticismo e fantasia são algumas das características que definem esta narrativa, contada na primeira pessoa e em tom confessional.

Numa escrita em que a mistura entre a realidade e a ficção é notória, esta é a história de uma típica e dedicada dona de casa, que passa a não conseguir dormir durante um período de 17 dias seguidos, sem menor sinal de cansaço aparente. Confrontada com o seu problema de ausência de sono prolongado, a personagem começa a tirar o lado mais proveitoso da capacidade de viver uma vida dupla. Aquilo que a rotina diária não lhe permite fazer durante o dia, a protagonista vê na noite uma escapatória possível, recheada de tempo livre.

Haruki Murakami

Inicialmente, esta experiência de pertencer a um mundo paralelo, onde as horas lhe são dadas como infinitas, faz com que a mulher sinta prazer e satisfação, com um toque de liberdade. No entanto, à medida que a falta de sono se vai arrastando, o sentimento de melancolia e estranheza perante a sua existência e a relação com o marido e filho vai progredindo. É desta forma que qualquer tipo de felicidade, vivida anteriormente, se torna completamente substituída por crises existenciais e de identidade frequentes.

As horas decorridas nos momentos solitários de escuridão continuam a ser passados às claras, o que leva a protagonista a encarar um tédio desmedido, capaz de fazer chegar ao seu pensamento a morte. Em contraste, o dia passa a ser assumido com apatia, com a incapacidade de demonstrar emoção à sua família.

O que até à data era visto como uma rotina alegre, agora torna-se numa obrigação que tem de ser vivida pela personagem, mesmo que já não se sinta enquadrada nela. Por isso, o leitor, à medida que a descrição dos episódios noturnos são relatados, pressente que o final da história não estará longe de um desfecho trágico, que foge do controlo da protagonista.

Mas pode ser que eu esteja errada, pensei. Será que a morte pode ser um tipo de situação totalmente diferente do sono? Será que a morte não seria uma escuridão profundamente consciente e infinita, como a que estou a presenciar agora? A morte pode ser uma eterna vigília na escuridão”.

Esta é uma obra que pode adquirir várias interpretações possíveis por parte de quem a lê. Será toda a história sobre o processo da morte? Terá sido a história um sonho e o final o despertar dele? Ou é possível que esteja um acontecimento dramático, como o suicídio, na origem deste enredo? Muitas são as interrogações deixadas sem resposta, no entanto, algo é imprescindível neste cerne da dúvida: a rotina causa a morte do ser humano.

É baseada nesta mensagem que a história criada por Murakami se desenrola, tendo como objetivo realçar o papel impactante que a rotina é capaz de ter na vida humana. “A rotina é o adormecer da alma. O adormecer da alma é a morte do ser”.

Despertando aqueles que o leem, por aproximar-se a uma realidade que reconhecemos e vivemos, este é um livro que nos tira o sono e nos faz tentar ler tudo de uma só vez.