Em 1994, The Notorious B.I.G. apresentou ao mundo o seu primeiro projeto, Ready to Die, que revitalizou o Hip-Hop, tanto nos Estados Unidos como a nível mundial. O álbum conta com raízes e inovações muito fortes que ainda se materializam nos dias de hoje.

Estávamos na década de 90 quando o Hip-Hop norte-americano explodiu com nomes como Tupac Shakur ou até o ambicioso Wu-Tang Clan, muito por força das mudanças sociais que se davam nessa altura. Foi também neste perído que Christopher Wallace, conhecido como Biggie Smalls ou The Notorious B.I.G. lançou o seu primeiro álbum, Ready to Die, em 1994.

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O rapper proveniente de Nova Iorque utilizou este projeto quase como uma autobiografia, cobrindo a sua vida desde o nascimento à “morte”. Coincidentemente, acabou por ser o único álbum que foi lançado enquanto estava vivo, tendo sido assassinado três anos depois.

O projeto destaca-se na multiplicidade de géneros embutidos numa fórmula clássica, com um perfeito complemento das samples e estilo do rapper, que o projetou a novas alturas. Essa qualidade permitiu que Ready To Die fosse criticamente aclamado como um dos melhores álbuns de Hip-Hop de sempre e uma jóia que continua a influenciar a música moderna.

Biggie começa por relatar a sua passagem de miúdo para adulto em faixas como “Things Done Change” e “Respect”, e até conta pormenorizadamente as suas primeiras más experiências com o sexo oposto em “Friend of Mine”.  O rapper aborda também o seu lado mais criminoso em faixas como “Machine Gun Funk” ou “Gimme the Loot”, tendo esta última um ad-lib na popular canção “Sicko Mode”, de Travis Scott, uma das provas mais diretas da influência deste álbum nos dias de hoje.

No entanto, à imagem da realidade, em “Warning” Wallace apercebe-se dos perigos envolvidos neste estilo de vida e, em “Ready to Die”, declara estar pronto para morrer para a sua antiga vida, renascendo através do sucesso como artista. E, por falar em artistas, temos uma presença de um dos mais relevantes da época, Method Man, que aparece em “The What”. Aqui, o membro do grupo Wu-Tang Clan garante o selo de aprovação e, juntamente com Biggie, exibe os seus dotes líricos numa dualidade sonicamente fatal.

Em “One More Chance”, The Notorious B.I.G. demonstra a sua perícia lírica, através de referências, com versos longos, entregues de forma rápida e impactante. Este estilo ainda pode ser encontrado nos dias de hoje em faixas como “STAR” dos BROCKHAMPTON.

Iremos encontrar, também, momentos mais românticos como “Just Playing (Dreams)”, onde Biggie faz referência direta à sua esposa. Em “Me & My Bitch”, um conto de amor incrivelmente cru e honesto, o artista demonstra toda a sua versatilidade e salienta ainda mais a sua parte humana num registo mais suave.

A meio do álbum encontram-se grandes êxitos como “Juicy”, que elevou o músico a novas alturas, definindo-se como uma das suas obras principais. Isto deve-se ao facto de adotar muitos dos tópicos que The Notorious B.I.G. mencionava nas suas canções, como as lutas étnicas, as dificuldades de se crescer como um homem negro nos Estados Unidos e a forma como estas desvantagens o levaram a lutar ainda mais para atingir o estrelato. Da mesma forma, “Big Poppa”, que conta igualmente com influxos provenientes do Funk e do R&B, foi outra das mais valias comerciais deste projeto, com um tom bastante relaxado e descontraído que dá espaço a Biggie para brilhar.

The Notorious B.I.G. atinge o seu pico ao desafiar os seus rivais do outro lado da costa norte-americana, em faixas como “Who Shot Ya” e “Unbelievable”. A primeira foi alvo de grande controvérsia por ter sido lançada como single pouco depois de Tupac ter sido alvejado num estúdio nova-iorquino, e a segunda é uma afirmação algo egocêntrica do talento e das capacidades de Biggie Smalls.

Todavia, Ready to Die não descreve apenas a subida ao estrelato do rapper, porque também toca em pontos mais baixos. “Everyday Struggle” relata o constante desgaste que o passado continua a ter no artista, através de uma pequena narrativa sobre um vendedor de drogas que vê a morte a bater à sua porta diariamente. Esta faixa traça alguns paralelismos com a forma que Wallace provavelmente se sentia na época em que era traficante.

No fim do álbum contamos também com “Suicidal Thoughts”, um tema que muito provavelmente inspirou Eminem para a última faixa do seu álbum Revival. Biggie liga ao principal colaborador do projeto, Puff Daddy, e explica os seus sentimentos mais escuros, depreciando-se a si e ao valor da sua vida, arrependendo-se de toda a dor que causou à sua mãe e às pessoas que o rodeiam. Apesar do amigo o tentar reconfortar e salvar, ouvimos Biggie a cometer suicídio, com um tiro a concluir a sua intervenção, seguido por um batimento de coração que acaba por parar.

Não por estas circunstâncias, mas pelo clima de violência da altura, Christopher acabou mesmo por ser morto a tiro com 24 anos, uma morte demasiado prematura para um artista que poderia ter dado muito mais. O seu grande rival, Tupac Shakur, acabou por morrer ainda mais cedo, de igual forma. Contudo, aquilo que estes dois colossos do Hip-Hop trouxeram para o mundo através dos seus talentos nunca será apagado, pois o seu catálogo musical vai continuar a ser tão relevante hoje como amanhã. Apoiados nos braços de gigantes e de uma das melhores épocas para o género, estes pioneiros revolucionaram a arte para sempre, e Ready To Die é uma grande prova disso.