Em Braga mora uma equipa que só conhece o sabor da derrota na presente temporada. Apesar disso, o Arsenal C. Devesa encara a segunda fase do campeonato com otimismo.

O relógio do Pavilhão de Maximinos está prestes a marcar as 21 horas quando os primeiros jogadores do Arsenal C. Devesa começam a chegar. É mais um dia de treino para o clube minhoto, que vive o pior momento da sua história. São 27 derrotas em 27 jogos oficiais – 26 no Campeonato Andebol 1 e uma na Taça de Portugal – na presente temporada. As marcas no plantel são visíveis.

“A motivação não é das melhores”, afirma Bruno Bessa, um dos capitães de equipa. O Arsenal ainda não venceu e o capitão assume as “dificuldades em levar as coisas até ao fim de uma maneira boa”, uma vez que “a sensação de perder sempre é má”. Na ótica do guarda-redes de 31 anos, as alterações no plantel também não ajudaram: “Mudar 14 elementos é difícil para um treinador e para o grupo, em termos de entrosamento”.

Mariana Oliveira/ComUM

“Tive jogadores que chegaram à minha beira e disseram que não podiam ir porque, se faltassem ao trabalho, não recebiam. Se o clube pudesse assegurar esses dois dias, eles podiam ir. Mas não existe essa possibilidade e tive que abdicar deles. A realidade é esta”. O testemunho é de Gabriel Oliveira, treinador da equipa, e refere-se às semanas que antecederam o jogo com o SC Horta.

O encontro, disputado às 21 horas de uma quarta-feira nos Açores, mostrou ao técnico, regressado em dezembro ao clube, que as dificuldades iriam muito para além da mudança de plantel. A segunda fase vai implicar uma nova viagem aos Açores e o treinador revela que a intenção passa por “levar apenas 12 atletas” porque, “apesar do Arsenal estar numa primeira divisão, não tem orçamento para mais do que isso.”

Carlos Saraiva é o homem que coordena todo o andebol do clube, que junta os 137 jovens dos vários escalões de formação aos 17 atletas que constituem o plantel sénior. A preocupação do dirigente é sobretudo para com os mais novos, que “treinam em pavilhões espalhados pela cidade”.

O aluguer das infraestruturas exige, no final da temporada, um investimento de cerca de cinco mil euros (6,25% do orçamento de 80 mil euros do clube). Hoje, a secção de andebol do Arsenal, criada no verão de 2013 e desde a época 2016/2017 no Campeonato Andebol 1, está “barrada a pagamentos de pavilhões”, afirma o coordenador da secção.

 

 

Para além dos motivos que explicam o insucesso na temporada, Carlos Saraiva revela, “sem querer atribuir culpas a ninguém”, terem existido “cinco atletas da época passada que estavam no planeamento desta época, que já se tinham comprometido”, mas que, “no dia em que saiu o sorteio, roeram a corda e saíram do clube”.

Com um problema em mãos perto do arranque do campeonato, a formação bracarense não teve escolha. “Tivemos que ir buscar atletas que estavam a participar na terceira divisão, sem experiência, sem tarimba de andebol”, lamenta o dirigente. Recuperar uma equipa que ainda não venceu qualquer jogo não é fácil. Gabriel Oliveira reconhece ter encontrado um plantel “desmotivado” aquando da sua chegada, mas tem no capitão Bruno Bessa o ‘braço direito’ para recuperar animicamente a equipa.

O experiente guarda-redes, que fez carreira no CCR Fermentões e que teve uma breve passagem pela Póvoa de Lanhoso antes de envergar as cores arsenalistas, recorda uma conversa que teve com o treinador: “O mister pediu-me para puxar pelos meus colegas para que compareçam aos treinos, para lhes perguntar o que se passa e para ajudar cada um a dar o seu melhor”.

Arsenal C. Devesa

Ludgero Brito

Porém, a moral do plantel sofreu recentemente um novo golpe: o Arsenal C. Devesa foi castigado pela Federação de Andebol de Portugal (FAP) com a derrota em 11 encontros da primeira fase, devido ao uso irregular de alguns atletas. O erro deveu-se a uma “má interpretação da lei”, revela Carlos Saraiva, que vai deixar o clube com apenas oito pontos no arranque do Grupo B. Teria 13 sem o castigo.

Sendo assim, o penúltimo classificado, AC Fafe, tem mais nove, e o 12º, antepenúltimo e primeiro conjunto acima da zona de despromoção, CCR Fermentões, mais dez. Nesta competição, as derrotas valem um ponto – o empate dois e a vitória três – e os emblemas transitam para a segunda fase da prova com metade da pontuação obtida na primeira.

O responsável pela secção de andebol do Arsenal estranha o facto de “os miúdos terem sido utilizados desde a 1.ª jornada e só à 15.ª alguém se ter lembrado de dizer que eles estavam irregulares”, apontando também o dedo à FAP pelo facto do “delegado da 1.ª jornada não ter dito nada”. O órgão máximo do andebol nacional, contactado pelo ComUM, recusou-se a comentar quaisquer declarações proferidas pelo dirigente minhoto.

O treinador Gabriel Oliveira, por sua vez, reforça a vontade em “apagar a má imagem” deixada pelo clube e tenta manter o grupo focado na manutenção, que está agora ainda mais longe. “Disse aos jogadores que pior do que ir lá tentar e não conseguir, era não ir, não tentar e desistir”, afirma, antes de revelar a imagem que o plantel quer passar aos adeptos: “É uma equipa que está aqui porque gosta de andebol. Estamos aqui porque esta é a modalidade que escolhemos para jogar e não porque vamos ganhar dinheiro”.

Na luta pela manutenção, o guarda-redes Nuno Brito, de 18 anos, é o espelho da vontade do plantel em dar a volta à situação.

 

 

A cumprir a primeira época enquanto sénior, o atleta formado no ABC/UMinho destaca a aprendizagem com o mais experiente Bruno Bessa e com o próprio técnico Gabriel Oliveira, que outrora ocupou também as balizas dos pavilhões nacionais.

Os dois prometem um Arsenal C. Devesa a lutar até ao fim, ainda que o treinador tenha desabafado que esta luta “dava um filme do Tom Cruise, uma missão impossível”, uma vez que o clube precisa de uma segunda fase praticamente perfeita para sonhar com a permanência.

Por agora, o emblema minhoto continua a preparar o arranque da segunda fase – o primeiro jogo é este sábado, em casa, frente à AA Avanca -, e Gabriel Oliveira deixa uma garantia para o que resta da época: “Tenho a certeza absoluta que iremos conseguir uma vitória e que estamos cada vez mais perto dela”.

 

Imagem e Edição: Diogo Rodrigues e Sofia Vieira