The Miseducation of Lauryn Hill é o primeiro e único álbum a solo da cantora norte-americana Lauryn Hill, lançado em agosto de 1998. O projeto é uma verdadeira panóplia de géneros, entre eles o Hip-Hop, Soul e R&B.

Após uma pequena introdução onde um professor faz a chamada dos alunos presentes na aula, “Lost Ones” mistura uma batida de Hip-hop e um refrão bem mais soul. As harmonias, muito características da cantora, conferem à faixa uma sonoridade que nos fica na cabeça como um bichinho. No fim, ouve-se um pequeno trecho duma aula, onde o debate é o amor e filmes relacionados com ele.

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Segue-se “Ex-Factor”, tema que foi utilizado como sample pelo artista Drake, na canção “Nice For What”. O original, muito bem conseguido pela cantora, é um misto de emoção e groove que nos deixa de boca aberta. A linha do baixo, o solo de guitarra e as harmonias, que recentemente ficaram tão famosas, tornam esta faixa num dos melhores momentos de todo o álbum.

A colaboração com Carlos Santana, em “To Zion” é um hino à vida e ao filho, na perspetiva da cantora. Quando ficou grávida, a artista foi avisada de que, caso decidisse ter o bebé, a sua carreira poderia ficar gravemente afetada. Porém, ela decidiu ter o filho e chamou-lhe, precisamente, Zion. A guitarra de Carlos Santana acende, quase que automaticamente, uma luz que nos lembra do som tão característico do artista.

“Doo Wop (That Thing)” é uma faixa com uma vibe muito otimista, pelo facto de todos os segundos transmitirem alegria, jovialidade e qualidade. A linha do baixo, mais uma vez, é quase demasiado groovy para o ouvido destreinado que temos. As harmonias, propositadamente dessincronizadas, criam uma dinâmica incrível. Esta é certamente mais uma obra prima do disco, porque não conseguimos ficar imóveis ao ouvi-la.

“Superstar” acaba por ser uma crítica à indústria da música, visto que todos os artistas estão mais preocupados em chegar ao topo do que a fazer boas malhas. É de destacar os runs da cantora ao longo do tema, bem como a progressão harmónica e melódica, que nada têm de previsível.

“Final Hour” demonstra muito bem a influencia do Hip-Hop em Lauryn Hill, já que a letra é cantada em jeito de Rap. Nada de extraordinário, mas necessário para que as peças do puzzle se juntem todas neste projeto.

O oitavo tema, “When It Hurts So Bad” é uma canção sobre amor não correspondido, quando somos confrontados com uma paixão que já morreu, pelo menos, de uma das partes. Pena é que nem todos consigamos cantar desgostos amorosos com graves e runs da qualidade de Hill. No fim da faixa, a aula de fundo volta ao debate sobre amor.

“I Used To Love Him”, mais uma canção de amor crua e pura da norte-americana. Em colaboração com Mary J. Blige, a dupla criou uma bela obra motivada pela nostalgia que fica quando alguém especial vai.

A crença religiosa da cantora mostra-se bem presente em “Forgive Them Father”, uma frase bíblica que deu o mote para o décimo tema. Entre harmonias, baixos, e guitarras, a cantora tenta consciencializar os ouvintes para estarem mais atentos ao próximo e para espalharem alegria e bondade.

“Every Ghetto, Every City” fala-nos de como é a infância e adolescência no bairro em que a cantora cresceu. É uma música agridoce, já que percebemos as dificuldades pelas quais a artista passou, sendo a própria vibe da faixa um bocado escura. Contudo, ao mesmo tempo, a felicidade de saber que a artista singrou na indústria acaba por balancear o tom da canção.

Quando juntamos dois cantores cheios de Soul obtemos “Nothing Even Matters”. A colaboração com D’Angelo é uma bela surpresa no projeto, já que a qualidade vocal dos dois artistas é absolutamente explosiva. Conseguimos notar perfeitamente o género de música que se fazia nos anos 90, bem como os traços característicos dos dois cantores.

“Everything Is Everything” tem uma vibe mais sombria, ainda que se enquadre dentro do género que Lauryn Hill nos tem mostrado. Com um Rap usado como interlúdio, a faixa aborda muito a ordem natural das coisas. O que tem que acontecer acontecerá, tal como a primavera segue o inverno e a mudança é inevitável.

Chegamos ao tema que dá nome ao álbum, “The Miseducation Of Lauryn Hill”, que é bem mais calmo e diferente do que ouvimos anteriormente, tanto pelas cordas, como pelo jogo de teclas entre pianos e teclados. O que brilha é, de facto, a incrível voz de Hill, pelo que o timbre, a tessitura, os runs e a técnica da cantora se aliam a uma letra que mostra uma reflexão interior. A artista decidiu deixar de ser o que os outros queriam, para seguir o que ela sentia que era.

Lauryn Hill resolveu incluir, como penúltima faixa, uma versão mais  R&B de “Can’t Take My Eyes Off Of You”. Apesar de ser totalmente diferente da versão original de Frankie Valli, pode ser bastante agradável ao ouvido para os que gostam do género.

“Tell Him” fecha o álbum de uma forma muito calma e romântica, dentro do que o estilo permite. Os coros são a prova perfeita disso, pois operam como se fossem suspiros de uma mulher que está irremediavelmente apaixonada e que nada consegue fazer em relação a isso.

Estas 16 canções compõem um projeto especificamente elaborado para o fim dos anos 90, mas que continua a ser muito bom nos dias de hoje. The Miseducation of Lauryn Hill é perfeito para quem gosta deste estilo por ser muito fácil de se ouvir e transbordar imenso groove.