Lançado em 1992, Rage Against The Machine foi o primeiro álbum da banda norte-americana que serviu de passaporte para o reconhecimento do grupo a nível mundial. Distinto por ser um álbum homónimo, destacou-se como o projeto musical que definiu, desde logo, a forte identidade do grupo.

Reconhecíveis pela agressividade sonora com que tocam e pelo violento teor lírico com que cantam, Rage Against The Machine canalizam neste álbum toda uma mensagem imponente dirigida ao Estado americano da época. Críticas à sociedade capitalista e à política são as principais temáticas que levaram a banda a orientar-se para as letras das suas músicas tornando-se, estas, um autêntico protesto ofensivo ao sistema, algo que o nome da banda deixa bem claro. Foi baseada nesta espontaneidade focada em não ter medo de expressar o que lhes ia na alma, que o primeiro álbum de Rage Against The Machine atribuiu à banda o rótulo de um grupo intervencionista, carregado de revolta e com um cariz político que marcou a sua geração.

Contudo, e no que toca ao seu registo musical, a banda também adquiriu um estatuto especial no panorama da música por fundir na sua “arte” Hip-Hop e Metal, algo fora do comum na época. Mantendo um registo à base do som cru, inspirado no Punk Rock pesado, foi assim que Rage Against The Machine se deu a conhecer aos ouvintes, permitindo que a banda ficasse associada a um estilo hardcore muito próprio. A maneira mais correta para descrever estas características só é possível com os auscultadores no volume máximo, pois só aí se consegue perceber que estamos na presença de uma bomba destinada a explodir a qualquer momento, pronta a causar danos.

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De maneira a não se deixar passar por despercebido àqueles que o ouvem, este projeto integra em si dez faixas com títulos fortes e concretos, pouco suscetíveis a várias interpretações. Nunca abandonado a revolta que os move, Rage Against The Machine soltam as garras em todas as canções, o que faz com que se sinta uma explosão de energia e necessidade de afirmação da sua parte.

A primeira faixa intitula-se “Bombtrack” e foi com ela que Rage Against The Machine se fizeram ouvir. Caracterizada por um solo inicial de guitarra icónico e um crescente de precursão notório, esta é a canção que abre portas para o universo revolucionário da banda. Para além do título ser bem explícito, o início da música “Hey yo, it’s just another bombtrack, yeah!” deixa claro o conteúdo que esta traz consigo. É nesta faixa de abertura que nos conseguimos aperceber das poderosas linhas de baixo, do tom de enraivecido do vocalista e do peso da guitarra, tal como as críticas sociais disfarçadas em letras ofensivas (“Landlords and power whores / On my people they took turns / Despite the suits I ignite / And then watch ‘em burn”). O refrão reforça esta ideia de deitar abaixo o sistema com a repetição sistemática da frase “Burn, burn, yes ya gonna burn”.

O alinhamento do disco prossegue com a faixa “Killing In The Name”, que pode ser considerada a música que mais cativou o público, tornando-se um hit global de associação direta à banda. A começar pelo seu título sugestivo, esta revela-se mais uma crítica ritmada aos altos cargos da sociedade, acabando por “matar o nome” desses estatutos (“Some of those that work forces / Are the same that burn crosses”) A repetição de versos é algo que se destaca em Rage Against The Machine, o que faz com que as letras entrem rapidamente na cabeça e a mensagem seja transmitida (“And now you do what they told ya, now you’re under control”). Mantendo sempre as mesmas dinâmicas musicais, que variam entre solos de guitarra simples e batidas assertivas que evoluem nos refrões, o final da música é de destacar pois solta-se um punho de oposição quando se ouve “Fuck you, I won’t do what you tell me / Motherfucker!”.

Apesar de toda a agressividade e energia estar integrada na totalidade do álbum, Rage Against The Machine baixam a guarda e revelam o seu lado mais melancólico e sentimental em “Settle For Nothing”. A faixa é feita à base de um instrumental simplista, com o som do baixo e da guitarra de fundo, de maneira a acompanharem as palavras soltas ditas pelo vocalista em tom de declamação. “I tried to grip my family but I slipped / To escape from the pain and an existence mundane”. Na verdade, talvez este seja um tema que foge um pouco daquilo que os Rage nos habituaram a ouvir, no entanto não deixa de ser uma boa experiência sonora ausentarmo-nos do furacão rítmico e vibrante deles.

Não só por ser a última, mas também por ter o nome que tem, “Freedom” é a faixa que mais se adequa para fechar o projeto. Marcada pelas várias dinâmicas sonoras que a banda consegue produzir em curtos espaços de tempo, esta é a canção que remata a mensagem dada pela banda: a liberdade. “Freedom, yeah / Freedom, yeah right / Freedom, yeaah! / Freedom!

Em considerações finais, o único aspeto negativo que se pode apontar a este álbum é, provavelmente, a sensação de uniformidade sonora que transpassa se o ouvirmos de uma vez só, podendo cansar. Mas, tirando esse pormenor, este é um disco que deve ser apreciado, uma vez que arrasta consigo um poderoso teor lírico. Para além disso, nunca será demais fazer alusão à genialidade de Rage Against The Machine em depositarem, em apenas um álbum, toda uma diversidade, atitude e energia arrebatadoras. Talvez sejam estas qualidades que façam surgir, naqueles que o ouvem, a vontade incontrolável de saírem de si para se manifestarem e protestarem.