Apesar do nome dúbio, 3º Capítulo é apenas o segundo álbum da banda portuguesa Da Weasel. Lançado em 1997, apodera-se do Hip-Hop old school e de um humor sarcástico para representar a sociedade portuguesa contemporânea.

A primeira faixa do álbum, “Pedaço de Arte”, reflete o preconceito constante meramente baseado na aparência das pessoas. Recorre à típica expressão “devo ter algo escrito na testa” para explicar as elações concebidas sobre alguém. “Leio na tua cara tudo o que estás a pensar / Na minha testa vês escrita a palavra perdido”. Apesar dos artistas reconhecerem esta realidade, esclarecem que nem tudo é o que parece e que as conceções partilhadas pela sociedade não passam de construções, muitas vezes, infundadas. “Tudo isso é verdadeiro como um O.V.N.I. de Marte”. Prometem que a adrenalina de experimentar algo considerado diferente, geralmente, não é uma vontade real e, quando o é, nem sempre é correspondida. A proposta dos artistas, nestes 4 minutos e 1 segundo, é o abandono do preconceito para apreciar o pedaço de arte que apresentam.

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“Tudo na Mesma” relata a verdadeira sociedade composta pelos seus diversos problemas. Alguns dos exemplos das problemáticas mencionadas são “um drogado (que) compra o produto”,”uma velhinha (que) é assaltada por um puto” e “uma prostituta (que) é violada e largada num viaduto”. Apesar do reconhecimento das problemáticas por parte da população, estas quase nunca são solucionadas. Mesmo utilizando palavras tão duras, parece que a realidade apenas magoa alguns. Sendo assim, Da Weasel explicam que existem uns a sofrer com esta realidade e outros que para ela contribuem, porque é através dela que subsistem. Para além disso, declaram que as “cenas têm tendência a piorar” porque “é um cenário difícil de alterar”.

Outra temática que aparenta assustar os artistas é a monotonia e a dificuldade em encontrar motivação e algo ao qual nos podemos agarrar, dois conceitos que surgem em conjunto muitas vezes. Em “Pregos”, essa ânsia de algo fazer mas a falta de vontade para tal são abordados. “Sento-me um pouco em frente da televisão desesperadamente à espera de um empurrão”. Resultando num pedido divino, o grupo invoca a oração religiosa tão conhecida –  “Pai nosso que estais no céu / Sei que falo contigo do lugar do réu / Mas preciso de algo para sarar a minha chaga.” Esta oração pode ser vista como uma crítica social, pelo facto de apenas nos lembramos de Deus quando estamos em aflição, daí terminar com a questão “Já agora diz-me, tens aí alguma vaga?”.

“Toda Gente” toca na inveja e na hipocrisia que assola a sociedade. Para além disso, explora a falta de atenção que damos aquilo que nos rodeia. Sendo assim, os artistas, em tom de provocação, questionam se todas as pessoas tinham reparado que, de duas em duas frases, estas terminavam sempre em rima, afirmando “se for esse o caso, toda a gente caiu na ratoeira”. Esta ratoeira surge com dois objetivos: confirmar se a atenção devida estava a ser verificada e explicar que a tentativa de combater todos os males da terra é em vão, “quando afinal é na nossa casa que começa a guerra”.

“Dúia” conta com uma miscelânea de diferentes géneros musicais, sendo difícil definir concretamente a sua composição sonora. Os primeiros segundos da canção contam com os compassos das baquetas de Guilherme Silva, que introduzem os acordes de guitarra de Quaresma e Fender Rhodes de João Gomes. Para além disso, ouvimos o baixo de Jay Jay e um elemento pouco comum, uma melodia de trompete de Laurent Filipe. Apesar de ser um elemento incomum no Rap, faz todo o sentido a sua presença, uma vez que se trata de uma música de amor e de sedução.

À semelhança de “Definição do Amor” de Dama Bete, os Da Weasel apresentam, de forma clara, a dicotomia do sentimento: “Meu amor / minha dor / meu prazer / meu terror / razão de toda a fé e descrença no criador”. Apesar de o amor, por vezes, provocar confusão, os artistas descrevem-no como uma loucura necessária. Declarando que quando este deixa de ser correspondido é como estar “entre duas paredes” e “como querer nadar sem ter o braço direito”. Isto é, uma vontade insaciável de querermos estar com alguém, mas a necessidade, quase obrigatória, de respeitar os desejos da outra pessoa.

“Casos de Polícia” relata o episódio de um jovem que foi espancado pela polícia apenas por ter sido apanhado a urinar na rua. A faixa explora o abuso de autoridade e as consequências que isso arca na vida dos lesados. No caso descrito, o jovem, outrora maltratado, vira polícia e, graças à revolta interna, sente necessidade de ser agora o mau da fita da história. “O Bruno então cresceu mas o trauma sempre ficou / Por ironia se tornou / Ontem bom aluno  / Hoje mau polícia em Almada / E nunca resolve os casos sem ser à estalada.”

Em “Para a Nóia”, Da Weasel exploram o sentimento de paranoia que poderia resultar da passagem por uma situação como a anteriormente descrita. Contudo, os artistas realizam um trocadilho com a palavra, dando enfase ao conceito “nóia”, que muitas vezes está associado à dependência de droga. Sendo assim, apontam as consequências de um desmame físico ou psicológico. “Suores frios passeiam / Corpo abaixo corpo acima / Ferida aberta em carne / Viva que o álcool reanima”.

“Encostei-me para trás na Cadeira do Convés” corresponde à declamação de um poema de Álvaro de Campos ao ritmo de uma batida repetitiva e lenta. Durante 4 minutos e 9 segundos, o poema passa por três momentos distintos. O assumir de que a vida se está a desmoronar (“o meu destino apareceu-me na alma como um precipício”), o refúgio nas memórias de infância onde a felicidade subsistia da inconsciência (“tão análogo de repente à criança que fui outrora”) e o reconhecimento de que tudo permanecerá idêntico, ou seja, uma destruição constante do ser (“havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro”).

Após o término da declamação do poema, o instrumental sofre uma reviravolta, tornando-se cada vez mais complexo. Dá mote a uma das soluções encontradas pelos artistas para essa autodestruição, o “Contador de Estórias”. Os artistas reconhecem que esta técnica não passa de uma ilusão, de um sonho. Contudo, afirmam preferi-la(o) “ao dia-a-dia cinzentão”, uma vez que lhes dá “coragem para mais um dia”. No entanto, ao proferirem “Sabes que o meu apetite é insaciável / Às vezes consegue-se mesmo tornar-se intolerável”, acompanhado de sons associados a alucinações, levam a pensar se o contador de histórias, a partida na ilusão/sonho, não passará pelo uso de drogas.

Ao longo do projeto, algumas faixas são intercaladas com pequenos momentos de puro instrumental, que servem para dar reforço a mensagens anteriormente transmitidas ou para introduzir uma temática ou género musical distinto. Alguns exemplos são: “Microcosmica”, de apenas 14 segundos, “Ragga Airlines”, de 1 minuto e 14 segundos, “Flankout”,  de 1 minuto e 48 segundos, e “Dentro Dela”, de 2 minutos e 25 segundos. Desde logo percebemos que existe um crescendo de tempo de duração de cada momento, que pode ser explicado pelo cálculo de uma atenção constantemente maior ao álbum desde a primeira música à última.

O álbum termina com “Cachimbo da Paz”, que contém 28 segundos de spoken word que procura explicar o propósito do álbum. “Tu roubas-lhe o dinheiro, eu roubo-te a intolerância e o / Preconceito”. Para além disso, existe uma desculpabilização irónica para as críticas que poderiam ser feitas por um rapaz de pele clara que não nasceu no gueto, por este explorar as temáticas que explora, sendo que há a proposta da partilha de um cachimbo da paz para acabar com a espiga. Existe, assim, uma referência à canção do rapper brasileiro Gabriel o Pensador contida no álbum Quebra-Cabeças, também de 1997.

Apesar de 3º Capítulo não conter as canções mais conhecidas de Da Weasel, este é um álbum que toda a gente deveria ouvir. Aponta problemáticas ainda atuais e sobre as quais todos nós deveríamos refletir. Para além disso, explora misturas instrumentais estranhas ao ouvido, mas que facilmente se tornam familiares.