Passados dois anos do lançamento de Unpeeled, a banda norte-americana volta a soltar-se da jaula fazendo chegar aos ouvidos do mundo o quinto álbum de estúdio, Social Cues. Apesar de nunca deixarem de parte o registo musical com o qual cativam o público, os Cage The Elephant apostaram num projeto diferente, que se esboça com base na dinâmica e no sensacional.

Neil Krug

Social Cues não se trata apenas de um álbum que arrasta consigo 13 faixas bem distintas entre si, mas sim de uma experiência onde é capaz de se sentir a amplitude de vários estados de espírito. O próprio nome do disco deixa um pouco implícito esta perspetiva, dado que as “dicas sociais” podem ser ditas e percecionadas de maneiras diferentes, fazendo surtir em cada um de nós reações múltiplas. Neste seguimento de ideias, Social Cues é um álbum que entra neste jogo de emoções, vincando o contraste entre o teor lírico e as melodias das músicas. Enquanto as letras deixam transparecer melancolia, descontentamento e frustração, os ritmos e batidas presentes. Pode-se encarar isto como uma bipolaridade agradável de escutar.

As músicas que constituem o álbum variam bastante de umas para as outras, o que origina um “enredo musical” que capta o interesse e convida a ser ouvido do início ao fim. Variações entre minutos de plena agitação e minutos de suave calmaria contribuem para esse efeito, o que atribui o tal caracter dinâmico de Social Cues.

A faixa de abertura, “Broken Boy”, acaba por ser o começo do efeito surpresa do álbum no geral. Com uma introdução prolongada à base de pequenas distorções que se vão intensificando, a música colide em batidas sistemáticas que se fazem acompanhar de esporádicos sons de guitarra. O ritmo acelerado que se gera acaba por se manter, tornando-se constante, o que cria uma pequena monotonia. Marcada por um refrão que dificilmente sai da cabeça (“Broken boy / How does it feel? / Broken boy / How does it feel?), a música transmite a sensação de irritação de alguém que se queixa de tudo na vida:“I was born on the wrong side of the train tracks / I was raised with the strap across my back”. Contudo, torna-se empolgante ouvi-la.

O alinhamento do álbum prossegue com a faixa que lhe dá nome, “Social Cues”. Tocada num ritmo feito à base da bateria, a música distingue-se, não só pelo riff suave da guitarra que a acompanha, mas também pelo seu teor lírico. Tal como o nome indica, esta é a faixa que nos fala de algumas dicas sociais, ou seja, das opiniões e pareceres frequentes da sociedade face à vida dos outros: “I think it’s strange when people say / You’re the next big thing, you’ll never fade”. O ritmo sem grandes dinamismos com que se apresenta serve para salientar a letra, que passa a mensagem de alguém que lida diariamente com a exaustão das sugestões alheias.“Hide me in the back room / Tell me when it’s over / Don’t know if I can play this bar much longe”.

A energia rítmica continua em “Black Madonna”, “House of Glass”, “The War Is Over” e “Tokyo Smoke”. Estas são as faixas onde se torna impossível não bater o pé no chão ao ouvi-las, pois fluem num ritmo acelerado e agitado. Recheadas de letras fortes, todas elas remetem para situações do quotidiano que semeiam frustrações. No caso específico de “House of Glass”, a música é constituída por melodias rápidas e insaciáveis,  acompanhadaspor uma letra onde é percetível a repulsa face a futilidades diárias “Slide on down the staircase, that picture-perfect moment / Receiver projected, act like if you own it”. Certamente este é o lado mais explosivo e eufórico do álbum.

Neil Krug

Por outro lado, “Skin and Bones”, “Love’s The Only Away”, “What I becoming” e “Goodbye” apresentam-se como um conjunto que traz ao disco uma onda de pacificidade. Marcadas por ritmos suaves e melodias doces, as músicas refletem a parte mais sentimental do álbum. Se do outro lado se sente a agressividade e revolta nas faixas, neste conjunto sente-seo sofrimento e a fragilidade do cantor. Em “Goodbye” dá para se perceber esta distinção particularmente bem. A música constrói-se à base de notas soltas de um piano que vão transmitindo calma. Já na letra, é notório o tom de tristeza de Matt Shultz ao cantar “Goodbye, goodbye, goodbye / I won’t cry, I won’t cry, I won’t cry / Lord knows how hard we tried”.

“Dance Dance” e “Night Running” são as músicas que mais se destacam neste novo álbum dos Cage The Elephant. “Dance Dance”, tal como o nome induz, sugere um convite para dançar, ao mesmo tempo que se ouve. Aqui é possível ver transições de dinâmicas bem conseguidas, o que faz com que a música esteja longe de cair no aborrecimento. Com um refrão marcado com um “dance, dance, dance / Everybody dance, dance, dance”, toda a faixa faz-se salientar pela sua frenética crescente. No caso de “Night Running”, a parceria com o artista Beck fez da faixa uma música de sucesso. Diferente do som de Cage The Elephant, a música catalisa uma espécie de flow que cativa a ouvir a música mais do que uma vez. Cantada num modo a aproximar-se um pouco do rap, esta é a faixa mais notável de Social Cues.

Em suma, este é o álbum em que os Cage The Elephant revelam um amadurecimento musical e uma  capacidade de evoluir e arriscar, sem sair muito do registo a que habituaram os fãs. Para além disso, Social Cues dá a perceção que o lado mais juvenil da banda foi substituído pelo confronto da realidade cruel da vida adulta: amores fracassados e situações pessoais traumáticas numa sociedade de dissabores. Aqui verifica-se o crescimento dos Cage, não como ótima banda que são, mas como ótima banda que cada vez mais se têm vindo a tornar.