Ajudou o Vitória SC a subir de divisão, representou o FC Porto e foi internacional jovem por Portugal. Depois de dois anos em que não jogou devido a lesão, Rabiola tem estado em destaque ao serviço do FC Felgueiras 1932.

A vida de jogador de futebol nem sempre é o mar de rosas que aparenta e Rabiola é um dos maiores exemplos disso. Aos 29 anos, e depois de duas roturas do ligamento cruzado anterior que o deixaram afastado dos relvados durante dois anos, o avançado aceitou o convite do FC Felgueiras 1932 e está a dar cartas no Campeonato de Portugal. Com 14 golos em 25 partidas, aquela que outrora foi uma das maiores joias da formação do Vitória SC é agora a principal figura de um clube que procura regressar às competições profissionais.

A história de sucesso de Rabiola no emblema felgueirense começou com um convite para “treinar e manter a forma”, mas acabou com o ‘casamento’ entre as duas partes. “A partir do momento em que comecei a treinar e não me apareceu nada do meu agrado para jogar, decidi aproveitar o convite feito por eles e aqui estou”, explica o avançado.

Apesar de não assumir diretamente a subida como meta do clube, o atleta aponta que o “principal objetivo é ganhar os jogos todos até ao final do campeonato” e que o plantel vai “fazer de tudo para lá chegar [ndr: ao playoff]”. Nesta luta a cinco – FC Vizela, AD Fafe, AR São Martinho e CD Trofense juntam-se ao FC Felgueiras 1932 – pelos dois primeiros lugares, a maior dificuldade apresentada pelo conjunto orientado por Ricardo Sousa tem sido os jogos em casa. Os felgueirenses apresentam um atípico registo de sete vitórias, dois empates e sete derrotas no Estádio Dr. Machado de Matos, o que contrasta com os 12 triunfos, uma igualdade e um desaire fora de portas.

Na visão do atacante, as dificuldades sentidas prendem-se sobretudo com o respeito com que as equipas visitantes jogam em Felgueiras. “As equipas vêm cá jogar fechadas, à procura dos nossos erros. Infelizmente, têm conseguido aproveitá-los e têm-nos massacrado com eles. Temos que continuar a trabalhar para melhorar e ver se ainda vamos a tempo do playoff”.

 

 

A “paixão de pequeno” de Rabiola ganhou asas quando o pai o inscreveu nos escalões de formação do Vitória SC. O jogador confessa que “não sabia se chegaria a profissional”, mas não esconde que sempre teve esse sonho. A 15 de abril de 2007, com apenas 17 anos de idade, na mesma época em que fez os primeiros jogos pelas seleções jovens de Portugal, o sonho tornou-se realidade.

 

 “Miúdo, vais entrar. Só tu podes resolver isto”

As palavras foram dirigidas por Manuel Cajuda a Rabiola, segundos antes do técnico promover a estreia do atacante no futebol sénior. O Vitória SC, a lutar pelo regresso ao primeiro escalão com o Rio Ave, empatava a uma bola em casa frente ao Estoril, na 25.ª jornada da Liga Vitalis 2006/2007. A precisar dos três pontos, o treinador apostou no jovem e em boa hora o fez: Rabiola saiu do banco, assistiu para o golo de Ghilas e os vimaranenses acabaram por conquistar a vitória.

Do primeiro jogo ao primeiro golo foi tudo muito rápido. Ao quarto encontro com a camisola vitoriana, o segundo enquanto titular, Tiago Lopes – o nome por detrás da alcunha – precisou de apenas 12 minutos para fazer balançar as redes e contribuir para a goleada do Vitória SC frente ao Portimonense (6-0). Na hora de recordar o momento, Rabiola revela que “o que queria era ir lá para dentro e jogar” e assume que a pressão não era um problema. “Na altura uma pessoa não tem a noção do que alcança porque ainda é jovem, tem falta de experiência e não sabe diferenciar os momentos. Eu não sabia o que estava a viver, não tinha noção da realidade e não senti pressão. Felizmente as coisas correram bem”.

Depois de garantida a subida, o telefone tocou. Do outro lado, surgia o interesse de um dos maiores emblemas do panorama nacional, o FC Porto. “Foi muito rápido. Estava a jantar com os meus pais e recebi um telefonema do presidente do Vitória a dizer para me apresentar no hotel da cidade no dia seguinte para uma reunião. Pensei que ia ser emprestado, nunca me passou pela cabeça que fosse para assinar com o FC Porto. Não deu tempo para pensar se era o melhor ou não, foi tudo muito rápido”.

Rabiola representou as seleções jovens de Portugal por 26 vezes, tendo apontado seis golos. (Fonte: Mais Futebol)

A passagem efémera pelo Dragão – seis jogos e um golo – é uma decisão da qual não se arrepende, mas assume que podia ter feito as coisas de outra forma. “Não mudava nada, mas talvez ainda não estivesse preparado para jogar numa equipa grande como o FC Porto. Tinha 17 ou 18 anos, não tinha experiência e talvez devesse ter esperado mais dois ou três anos para dar esse passo”.

 

Passagem pela Polónia “foi um ano difícil”

A carreira de Rabiola foi quase toda construída em Portugal. Quase, porque em 2013/14 apareceu aquela que foi a única experiência do atleta além fronteiras. Na Polónia, Rabiola vestiu a camisola do Piast Gliwice, por empréstimo do SC Braga. A ambientação ao clima polaco foi complicada, mas o maior problema residiu no tipo de futebol praticado: “Era um futebol pouco tático, direcionado para o confronto físico. Fiquei até final do ano porque tinha a companhia de um amigo, senão tinha vindo embora muito mais cedo. Mas não me arrependo”.

No regresso a Portugal, o jogador de 29 anos cimentou a sua posição no principal escalão do futebol nacional. Ao longo de duas épocas, nas quais vestiu as cores de FC Penafiel e Académica, o ponta de lança somou dez golos em 55 partidas oficiais e a sua prestação despertou o interesse do FC Paços de Ferreira.

Em 2016, Rabiola bateu às portas da Mata Real de malas e bagagens, mas do outro lado estava o maior azar da sua carreira, que o levou a abandonar o clube em 2018 sem qualquer minuto somado. “Estava a começar um treino, no primeiro dia em que cheguei. Estávamos a fazer um trabalho de aquecimento e, numa bola metida no ar, saltei e cabeceei. Quando meti o pé no chão, senti que tinha rompido os ligamentos. Foi assim o início de dois anos parado”, recorda.

 

Se ultrapassar uma lesão deste género é complicado, Rabiola passou por tudo outra vez quando, no regresso aos relvados, o joelho voltou a ceder. “Comecei a treinar depois de sete meses. Faço o primeiro treino e, num movimento para receber a bola, caio estatelado no chão. O Rui Correia, que me estava a marcar, até ficou preocupado, a tentar perceber se me tinha dado alguma porrada, mas não. Recebi a bola, fiz a rotação e senti outra vez”.

O atleta recusa a ideia de que um mau tratamento da primeira lesão possa ter dado origem à segunda, ao mesmo tempo que expressa a sua gratidão para com o emblema da Capital do Móvel: “Nunca se sabe. Quero acreditar que não, fui muito bem tratado em Paços de Ferreira. Não tenho razão de queixa, fiz grandes amigos, tenho uma consideração enorme pelo clube. Tive pena de não conseguir jogar e retribuir a confiança em mim depositada”.

Um jogador que sofre duas lesões graves, de forma consecutiva, alguma vez pensa em pendurar as chuteiras? Rabiola é perentório: “Completamente. Bates no fundo e não podes fazer nada, não há maneira de resolver a situação. Tens que ter motivação, uma força de vontade muito grande e uma mentalidade muito forte.”

O sonho de um futebolista passa muitas vezes por chegar ao primeiro escalão, por representar a seleção nacional ou por marcar um golo na Liga dos Campeões. No caso de Rabiola, a história é outra. O regresso à elite do futebol nacional não é descurado pelo vimaranense, mas a prioridade é manter-se saudável.

 

Sentir-se capaz para jogar era o que o minhoto procurava nesta temporada e o objetivo está a ser cumprido: “O mais importante este ano era perceber como me sentia, como ia lidar com os treinos diários, com a competição. Sinto-me bem e isso é o mais importante para mim”, conclui.

O futebol nem sempre é fácil. Aos 29 anos, foi em Felgueiras que o vimaranense voltou a sorrir. Os dias cinzentos ficaram para trás e dão agora lugar a tardes de sol. Um sol que brilha com a mesma intensidade da luz que acalenta a esperança do FC Felgueiras 1932 em subir de divisão.

 

-Porquê Rabiola? “Alcunha de família”

-Um ídolo? “Fernando Torres”

-O melhor defesa que já defrontou? “Bruno Alves”

-Um golo? “Vitória SC-UD Leiria (em 2007/2008, garantiu a vitória aos 90′)”

-Um treinador? “Jesualdo Ferreira”

-Um estádio? “D. Afonso Henriques”

-Melhor jogador com quem trabalhou? “Lisandro López”

-Melhor momento da carreira? “Subida com o Vitória, sem dúvida”

 

Texto: Daniel Sousa e João Pedro Gonçalves

Imagem e Edição: Diogo Matos e Sara Sofia Gonçalves