Três anos após o seu último álbum, Solange lança When I Get Home, um projeto que conquista admiradores de boa música. Ao longo de 19 faixas, a artista relembra as boas memórias de infância na cidade de Houston, no Texas, onde nasceu, trasmitindo também mensagens poderosas acerca do racismo e do feminismo.

A faixa inicial tem o nome de “Things I Imagined”, e é uma boa faixa de introdução que espelha o tema principal do álbum, as memórias da nossa cidade. Quase no fim da música o estilo muda completamente, e dá a ideia de que estamos a ter um sonho, assemelhando-se ao título, que tem este carácter de imaginação.

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Uma das características únicas deste projeto é que inclui pequenas faixas designadas de interlude, que normalmente incluem excertos de músicas ou de textos e narrações. Este é o caso de “S McGregor”, que contém um excerto de um poema escrito por Vivian Ayers, chamado “On Status”. Solange utilizou a gravação da leitura do poema num programa de televisão por Debbie Allen e Phylicia Rashad, atrizes famosas e filhas de Ayers, para produzir o interlude. “S Mcgregor” é uma referência a uma rua da cidade natal de Solange, S MacGregor Way, que foi onde as atrizes nasceram e viveram a sua infância.

De seguida, surge a canção “Down With the Clique” , que revela a voz peculiar da artista. Aqui, a cantora relembra Houston e as pessoas nascidas na cidade que tiveram sucesso nas suas carreiras e partiram para outras cidades. É um lembrete à população de Houston para que não se esqueça das suas raízes.

A quarta faixa do álbum é “Way To The Show” e relembra novamente a cidade natal da artista. Faz referência ao candy paint, que é uma atividade característica de Houston que consiste em aplicar uma camada brilhante de tinta em carros. No conjunto de todas as faixas do álbum, esta é mais cativante e agradável de ouvir.

O segundo interlude do projeto intitula-se “Can I Hold The Mic”, e conta com a aparição das rappers de Crime Mob – Diamond D e Princess – a entrevistarem-se. Solange deu uso a essa gravação para construir o interlude, usando o excerto em que dizem precisamente “Can I hold the mic?”.

“Dreams” é uma música bastante inspiradora que, ao som de uma sample da canção “These Walls”, de Kendrick Lamar, nos faz lembrar dos sonhos e desejos que todos tivemos enquanto crianças,. Por isto mesmo, Solange mostra que era uma sonhadora, e é possível imaginar que um destes sonhos era ser cantora. Por esta razão, a faixa adquire um tom pessoal.

O terceiro interlude do projeto é “Nothing Without Intention”. Termina com uma parte de um vídeo de uma mulher espiritualista que diz repetidamente “nothing without intention”. No vídeo, explica o poder purificante e os usos da Florida Water que é precisamente o tema da próxima faixa “Almeda”.

“Almeda” é uma colaboração com The-Dream e Playboi Carti. Aqui, a artista enumera palavras que são caraterísticas da cultura dos afro-americanos e evidencia as suas raízes em Houston. Faz referência à Florida Water dizendo “Black faith still can’t be washed away, not even in that Florida Water”, mostrando que nem os ditos poderes purificantes da água de colónia a vão fazer sentir vergonha ou esquecer da sua origem negra.

A décima faixa é uma colaboração com Gucci Mane e intitula-se “My Skin My Logo”. Solange e Gucci Mane cantam sobre o que gostam, repetindo sempre os próprios nomes “Gucci” e “Solo”. Comparada às restantes, é uma música mais divertida, que no fundo  mostra o lado bom da vida ao mesmo tempo que conta a história dos dois artistas.

A próxima faixa faz parte do conjunto das interludes, que servem tanto de transição como também para passar uma mensagem importante. É este o caso de “We Deal With The Freak’n”. Solange junta o instrumental de “Turn Me On” da banda dos anos 60 Rotary Connection. Já a voz é retirada do vídeo “Sperm Power 2”, com a voz de Alexyss K. Tylor, escritora e apresentadora do talk-show, focado na sexualidade feminina.

Dando continuidade à ideia da transição entre faixas, a próxima canção é um reflexo do que foi tratado na anterior, especificamente o desejo e a atração. “Jerrod” tem um ritmo mais sereno e passional, que nos mostra a sensação daquilo que é estar apaixonado. Aqui sente-se uma ligação mais forte com a cantora, também porque a sua voz prevalece.

A 13º faixa retorna ao tema das suas origens e da sua raça. “Binz” pretende quebrar com o estereótipo de que todas as pessoas negras são pobres e vivem na miséria. Dito isto, fala sobre marcas que compra, tanto de roupa, como de carros. No entanto, admite que também quer viver uma vida relaxada para poder aproveitar toda esta riqueza e as suas relíquias.

“Beltway” poderá ser uma referência à autoestrada Beltway 8, que rodeia a cidade de Houston. A repetição das frases que diz, tal como “you love me”, poderá significar a nostalgia que sente quando relembra vários aspetos caraterísticos da sua cidade. Inclusive o tema seguinte, “Exit Scott”, é uma saída desta autoestrada na parte sul de Houston.

“Exit Scott” é mais uma faixa interlude, mas que neste caso faz ligação com a canção anterior. Volta a usar excertos, mas de um poema de Pat Parker, e de uma música do quinteto musical Family Circle, intitulada “I Hope You Really Love Me”.

O último tema do álbum é “I’m a Witness” e Solange termina com chave de ouro. A música é como que uma reflexão da artista sobre como não vai desistir de superar todos os seus obstáculos. Para além disso, a parte final contém o refrão da primeira faixa, o que reforça a ideia de que Solange está sempre à procura de novas ideias e objetivos.

Como em todos os projetos, há canções que não se destacam em comparação a outras. No caso de When I Get Home, essas faixas são “Stay Flo”, “Time (is)”, “Sound of Rain”, e “Not Screwed”. Num álbum onde Solange canta sobre problemáticas importantes e atuais, estes temas não têm essa característica nem o toque especial que chega aos nossos sentimentos. Apesar de todas serem de elevada qualidade, estas ficaram um pouco aquém das restantes.

Em modo de conclusão, é de salientar o grande esforço de Solange em contar uma história. O álbum começa com músicas alusivas à infância e aspetos caraterísticos da cidade de Houston, mas à medida que avança, Solange retrata a sua vida atual e também aspetos de elevada importância para a sociedade. When I Get Home faz-nos sentir verdadeiramente em casa.