Catarina ou o sabor da maçã de António Alçada Baptista é, como o próprio intitula, “uma análise de comportamentos humanos”, tendo por base um drama romântico bastante sóbrio. História de Pedro, do narrador ou de Catarina? Um pouco de tudo, visto que as suas vidas estão, a certa altura do tempo, inteiramente ligadas.

A obra explora, essencialmente, o conceito de paixão, desde a sua definição, ao modo como surge, cresce e termina. Começa por narrar a vida de Pedro, “um daqueles rapazes que fazem inveja a muitos pais porque nunca deu trabalho a ninguém”, amigo de António, que, de um momento para o outro, não para de repetir: “eu não consigo viver sem a Catarina”. O autor passa a explicar que Catarina era uma rapariga “muito bem feitinha de corpo (que) tinha o cabelo castanho claro e um rosto perfeito – nem provocante nem sensual –“, que conhecera após uma conferência.

Por não lhe reconhecer tal lado provocatório, nem sensual, procurou justificar o porquê desta provocar no seu amigo aquilo que considera ser “resultado dos muitos interditos que bloqueiam a nossa afetividade”, a paixão que seu amigo sente para com ela. Nesta busca, explorou um pouco o papel da mulher. Começa pelas Confissões de S. Cipriano que lhe permitem inferir que “a mulher tem um poder maior e mais forte do que o homem”. Confirma a teoria através da realidade outrora vivida na Igreja, o facto de as mulheres serem consideradas seres inferiores, apenas por se acreditar serem “fabricadas como uma armadilha a tentar-nos para incorrermos no pecado da carne”.

A partir deste momento, percebemos o porquê de António Alçada Baptista se apoiar no Genesis 3-6 para dar mote ao seu livro: “tirou a maçã e comeu; e deu a seu marido que também comeu”. Um dos exemplos da força que as mulheres têm para persuadir os homens. Neste caso, primeiro foi Pedro, depois António. Contudo, em duas realidades distintas. Por um lado, uma paixão fugaz, esquecida por uma proposta de trabalho irrecusável. Por outro, um “viver com intensidade uma vibração amorosa” completamente consciente – “A paixão é cega e o apaixonado não consegue aperceber-se da realidade em que está metido. Eu estava lúcido”.

Ao longo das diversas peripécias relatadas, muitas críticas são efetuadas: a troca volátil; o hábito, enquanto dependência, ao invés do amar verdadeiramente; o desejo de alcance, ou seja, o sentimento de competição e conquista, que facilmente desvanece; o desejo físico que “é todo um castelo festivo que a pouco e pouco se desmorona e o orgulho/amor próprio, que nos desprende de conseguirmos realmente ligar-nos a alguém.

A obra conta com um vocabulário um pouco rebuscado, uma linguagem que, muitas vezes, foge ao quotidiano. Para além disso, faz referência a determinadas obras literárias/cinematográficas que não são partilhadas pelo conhecimento geral. Conta com algumas descrições compridas e diálogos extensos. Apesar disso, António Alçada Baptista consegue estabelecer um bom equilíbrio entre as diferentes componentes, transportando os leitores para as diversas situações descritas.