Melissa Viviane Jefferson, mais conhecida por Lizzo, lançou a 19 de abril o seu terceiro álbum, Cuz I Love you. A artista, juntamente com o seu vozeirão, consegue explorar neste projeto diferentes géneros musicais, como Pop-Funk, R&B e Rap, e apoia-se na lírica de cada música para afirmar aquilo que pensa e não aquilo que fica bem dizer.

Devido a tratar de realidades tão pessoais e, ao mesmo tempo, tão libertadoras, a artista escolheu para capa de álbum uma fotografia nua. Não é uma imagem demasiado explícita, contudo, consegue enquadrar duas componente essenciais – fragilidade, uma vez que se encontra numa situação de total exposição, e poder, porque o seu rosto não espelha nenhuma dúvida nesta tomada de decisão. Para além disso, alguns dos videoclipes estão repletos de ironias que farão qualquer pessoa sorrir.

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“I’m Crying Cause I Love You” introduz a primeira canção do projeto, uma premissa que é posteriormente explicada. A artista assume-se como incapacitada de amar até ao momento, uma realidade que não lhe permite que se liberte com facilidade, precisando de álcool para se desinibir, projetando na outra pessoa essa necessidade – “Got you something from the liquor store”. Para além disso, aborda, com bastante humor e algum desprendimento a chatice de amar alguém e o sentimento de necessidade de agradar o outro – “Got me standing in the rain / Gotta get my hair pressed again”. Nesta faixa, reconhemos uma enorme semelhança com  Whitney Houston, desde a voz da artista ao modo como consegue transmitir os seus sentimentos – amor, medo e, ao mesmo tempo, desinteresse.

“Like A Girl” reafirma a capacidade da artista em fazer Rap e pode ser vista como o tema de empoderamento feminino. Começa por se referir aos dias em que acordamos, olhamos para o espelho e adoramos o que vemos, ponderando até “I just might run for President”. Posteriormente, explica que não precisamos de ninguém do nosso lado para nos sentirmos melhor, pois conseguimos ser o melhor de nós mesmas sozinhas, “with or without makeup / Got nothing to prove”. Lizzo faz também referência a algumas personalidades femininas, como Chaka Kahn, Lauryn Hill e Serena Willy, para comprovar que, independentemente do nosso aspeto físico e do preconceito sobre os elementos femininos, somos seres multi capacitados – “Do your thing, run the whole damn world”.

“Tempo”, com a participação de Missy Elliott, também explora esta realidade. Contudo, dirigindo-se mais para thick girls, aquelas mulheres que, culturalmente, não cumprem os preceitos de uma mulher perfeita.

“Juice” vai de encontro às duas canções anteriores. Lizzo realiza um conjunto de auto-elogios – “I like chardonnay, get better over time / Heard you say I’m not the baddest, bitch, you lie”.  Mais uma vez, em “Soulmate” a artista tenta eliminar as ideias pré-concebidas sobre como deve ser o comportamento feminino, demonstrando que o que mais importa é ter autoestima: olhar para o espelho e amar o que vemos, não depender de alguém para nos sentirmos melhor e procurar fazer aquilo que realmente gostamos e não aquilo que nos dizem que é mais correto.“They used to say to get a man, you had to know how to look/ They used to say to keep a man, you had to know how to cook”.

Em “Jerome” a artista explica que amar não é fácil, pois exige uma certa maturidade, fazendo com que a atração física e psicológica, por vezes, não seja o suficiente. Para além disso, a artista menciona que amar alguém é uma distração, afirmando “can’t let a pretty face distract me from business”.

Esta perda de atenção é comprovada em “Crybaby”, momento em que a artista afirma sentir algo por alguém, sendo que não é correspondida. Este aspeto leva-a a baixar a guarda, uma demostração de fragilidade que a incomoda.

Por outro lado, “Lingerie” corresponde a uma faixa de sedução bastante sugestiva, aspeto que demonstra que, apesar do incómodo, o sentimento não deixa de existir. “I lounge around in my lingerie / I wanna be prepared for you just in case”.

Em “Exactly How I Feel”, com a participação de Gucci Mane, explora-se a liberdade de expressão de sentimentos, sendo que a artista afirma não esconder as suas emoções. “Cry ‘cause I want to / Smile if I want to / Yes I can / Love ‘cause I want to / Get so mad I could scream”.

Passando para “Better In Color”, a artista procura demonstrar que o preconceito racial é algo incompreensível, uma vez que “It’s dark under the covers but love looks better in color”. No entanto, é uma realidade que não deixa de existir e, por isso, em “Heaven Help Me”, Lizzo apela por ajuda divina, pois espera uma resposta para que possa tomar uma posição. Afirma que, atualmente, o mundo não passa de uma fantasia que permite esconder a sua frieza, e para alguém que tem esperança no mundo, que ainda sente algum amor, esta é uma realidade que assusta e anula a vontade de amar.

Com este álbum, Lizzo consegue transmitir um conjunto de ensinamentos essenciais. Apesar de serem realidades contemporâneas bastante pesadas ou até mesmo desinteressantes por serem tantas vezes abordadas, a artista consegue disseminá-las de um modo completamente original. Apoia-se na ironia, no sarcarmo e nos ritmos alegres e envolventes para contagiar todos os ouvintes.