No aniversário dos 45 anos da Revolução de Abril, a cidade de Braga recebeu a peça “O Improvável” de José Martins.

A Companhia de Teatro do Algarve (ACTA) apresentou, esta quinta-feira, no Theatro Circo a peça que evoca a Revolução dos Cravos. “O Improvável” é a obra de José Martins que dá corpo ao reencontro de um antigo preso político e o seu carrasco.

O Improvável

Giovana Pergentino / ComUM

“Podíamos ter sido amigos. Podíamos ter crescido juntos. Podias até estar no meu lugar e eu no teu. Queres cerejas?” é a fala que guia o pensamento do torturador e que o mantém são, com o fim de não se torturar a si mesmo eternamente com a culpa.

Após a quinta-feira cinzenta do 25 de abril, o carcereiro ficou fugido, mas para sempre preso ao remorso que sentia. O espetáculo aborda a visão de ambas as personagens do momento em que estas se encontraram num passado, mas também sobre o que estas experienciaram nos anos que se seguiram à revolução.

O algoz, interpretado por Luís Vicente (ator e encenador da peça), revive o 25 de abril como um momento de fuga em que se serviu a si próprio somente. Recorda-o, contando ao seu antigo torturado, como um dia de pandemónio em que passou pelo Café Monte Carlo, em Lisboa, onde se divertia antigamente a jogar bilhar.

Contudo, neste dia, o dono pediu o seu conselho sobre o encerramento do estabelecimento. A personagem interpretada por Vicente apenas retorquiu que “as revoluções também precisam de café”. Entre deambulações filosóficas e atos de cobardia, o antigo oficial da PIDE revela que vê no prisioneiro político uma forma de encontrar a sua redenção.

No entanto, o insurgente, representado pelo ator Pedro Monteiro, vê no facto de este não ter sido julgado, e na oportunidade de não lhe dar o seu perdão, a vingança que tanto anseia. O rebelde pragueja que “uma vez carrasco, para sempre carrasco” e que não dará a absolvição que o seu carcereiro há tanto deseja.

O Improvável

Giovana Pergentino / ComUM

Sobre o pós 25 de abril, ambos chegam a um consenso de que os revolucionários são e sempre serão da oposição e, por isso, apenas oposição sabem fazer. Todavia, as duas personagens tiveram pós-revoluções atribuladas. Um pelo remoer da culpa, outro pelo pavio curto do cancro.

O espetáculo está dividido em dois momentos. O primeiro composto por dois monólogos interiores iluminados, somente, cada um, por um holofote. O segundo estabelecido pelo reencontro improvável, porém provavelmente propositado, dos dois homens uns dias antes da celebração dos 45 anos da Revolução dos Cravos.

A peça de José Martins trazida a Braga pela ACTA estará em digressão por Portugal e Espanha até ao dia 12 de outubro. A próxima apresentação na Covilhã no Teatro das Beiras.