Com três anos de existência, o Berço Sport Clube assegurou a presença nos campeonatos nacionais na próxima temporada. O clube vimaranense ainda pode conquistar mais dois troféus na presente época.

As indicações nas ruas que circundam o campo de jogos indicam que se está a chegar às instalações do Complexo Desportivo de Ponte. No entanto, é outro clube de Guimarães que se vem destacando naquele relvado sintético semana após semana. Apesar de não ter casa própria, o Berço Sport Clube assegurou há duas semanas a terceira subida de divisão consecutiva, chegando assim aos campeonatos nacionais. Tudo isto em três anos de existência.

As razões para o sucesso? Para Joaquim Martins, presidente do clube, a reposta é simples. “Conseguimos chegar tão rápido a um sítio onde muitos desejam estar com muito trabalho, muita dedicação e muita exigência em tudo o que fazemos. Temos um tempo curto de existência, mas durante estes três anos fizemos um trabalho, dentro da estrutura, muito forte e com capacidade de transmitir o que pretendemos ao grupo de trabalho”, refere.

Se, para a direção, o feito foi reflexo do trabalho realizado e acabou por não surpreender, para os jogadores, continuar a escalada pelos diferentes patamares do futebol português era visto quase como uma obrigação. “Quando fui contratado pelo Berço sabia que o objetivo era subir e que a responsabilidade era maior. O clube tinha subido duas vezes em dois anos e, se este ano não conseguíssemos, ia-me sentir um bocado triste”. As palavras são de Vítor Ribeiro, mais conhecido por Figueiras, atleta de 24 anos que chegou no início da época ao emblema vimaranense.

“Não vamos ocupar o lugar de ninguém”

A alegria e o orgulho da direção e dos atletas pelo percurso feito pelo Berço até ao momento contrasta com as desconfianças de outras equipas e respetivos adeptos do campeonato Pró-Nacional da Associação de Futebol de Braga (AF Braga) em relação ao clube fundado em 2016. Desde acusações de favorecimento em termos de arbitragem até comentários negativos em relação ao facto de ter subido aos nacionais sem ter estádio próprio, são várias as críticas feitas ao Berço.

O emblema de Guimarães sagrou-se campeão da divisão principal da AF Braga com 71 pontos em 34 partidas, mais oito do que o GD Prado e o Pevidém SC, que completaram o pódio. Ainda assim, só o primeiro classificado é que sobe ao Campeonato de Portugal, terceiro e último escalão do futebol nacional.

Apesar das críticas, António Pereira, um dos capitães de equipa, olha para essa questão como algo impulsionador para o êxito obtido: “Estivemos bem desde o início da época e toda a gente falava sobre nós, tanto de forma positiva como negativa. Quem anda aqui dentro sabe que o nosso sucesso não aconteceu por acaso. O que esse tipo de notícias fez foi dar-nos mais força para ganharmos ao fim-de-semana”.

Na mesma linha, Figueiras considera que o grupo de trabalho podia ter levado as desconfianças para o “lado errado”, mas que todos os atletas conseguiram usar as palavras menos positivas para “ter mais força jogo a jogo”.

Associar o nome “Berço” à cidade de Guimarães leva à que se pense no emblema mais representativo da cidade. Salientando o facto de não ser objetivo do clube fazer qualquer tipo de concorrência ao Vitória SC, Joaquim Martins considera que há espaço para todos numa cidade que “gosta tanto de futebol”. “Aqui somos todos do Vitória e não vamos ocupar o lugar de ninguém porque o Vitória tem muitos adeptos. Temos pessoas que nos acompanham por aquilo que fazemos, por aquilo que jogamos e pela atitude que deixamos dentro de campo”.

Tanto o presidente como o treinador, Ricardo Martins, destacam o facto de muitos jogadores do plantel terem passado pelas camadas jovens do Vitória SC. O timoneiro do Berço afirma mesmo que o projeto do clube passa por dar visibilidade a atletas que não tiveram oportunidades em equipas de maior dimensão.

O estádio que obriga a adaptações e as certezas em relação às camadas jovens

Se é certo que o estádio é um dos elementos mais importantes na definição da identidade de um clube, a verdade é que o Berço ainda não possui um complexo próprio. O técnico Ricardo Martins assume que a situação o obriga a “adaptar muitas vezes o treino”, utilizando em várias ocasiões, por exemplo, metade do campo e não o campo inteiro, mas que, perante a adversidade, “os jogadores crescem”. “Um treinador tem de saber adequar-se às circunstâncias que tem. Quando não temos condições ideias, temos de nos adaptar e compensar com outras soluções”.

Por seu lado, o presidente Joaquim Martins não se mostra muito preocupado com a questão do estádio nem com a obrigatoriedade de os clubes profissionais terem escalões de formação (o Berço não tem e está apenas a uma etapa da segunda divisão nacional).

 

A chegada ao Campeonato de Portugal podia inibir as intenções e os objetivos do Berço, mas o presidente assegura que tal não vai acontecer. Defendendo que o clube não vai ser “o coitadinho” da competição, o dirigente não descura a possibilidade de continuar a série de subidas de divisão. “Para o ano não vamos ser mais um, vamos lutar pelos nossos objetivos e, se tivermos de subir, vamos subir. Não temos problemas nem medo de subir”, defende.

Apesar da confiança de Joaquim Martins para a próxima temporada, o treinador Ricardo Martins é mais comedido e refere que o pensamento da equipa está apenas e só no que ainda falta jogar este ano: “Se passarmos à final da Taça AF Braga este domingo temos duas taças para ganhar e isso é o nosso foco”.

Na segunda mão das meias-finais da Taça AF Braga defronta o S. Paio d’Arcos FC – no primeiro jogo, a formação de Guimarães ganhou fora por 2-3 -, e, caso se apure, encontra na partida decisiva da competição o vencedor da eliminatória entre Pevidém SC e FC Roriz. Além disso, na condição de primeira classificada do Pró-Nacional da AF Braga, a equipa orientada por Ricardo Martins disputa a Taça dos Campeões do Minho frente ao CD Cerveira, campeão da 1ª Divisão da AF Viana do Castelo.

No seio do grupo de trabalho, existe a convicção de que o Berço pode pisar os mais altos palcos do futebol português. Enquanto Figueiras, aluno do curso de Engenharia Civil da Universidade do Minho, aponta a segunda liga como um objetivo a cinco anos, António Pereira mostra-se mais ambicioso.

 

Segundo lugar na Série D da 1ª Divisão na estreia, segunda posição na Série B da Divisão de Honra na temporada seguinte e campeão do Pró-Nacional este ano. Três épocas seguidas a subir. Agora chegou a vez de o clube vimaranense deixar o ‘Berço’ dos distritais da AF Braga, onde nasceu, e competir nas provas nacionais, onde pretende continuar a crescer.

 

Texto: Diogo Matos e Pedro Sousa

Imagem e Edição: Diogo Rodrigues